Mais uma vez, a atenção recai sobre a circulação de experiência militar ocidental para a China sem autorização: o Departamento de Justiça dos EUA anunciou a detenção do ex-piloto de F-35 Gerald Eddie Brown Jr., antigo militar da Força Aérea norte-americana, agora acusado de formar aviadores da força aérea do gigante asiático. Segundo a nota oficial divulgada ontem, o arguido terá violado o Arms Export Control Act (AECA) e aguarda a primeira audiência, agendada para hoje, 26 de fevereiro, no estado do Indiana.
Sobre o caso, o assistente do procurador-geral para a Segurança Nacional, John A. Eisenberg, afirmou: “A Força Aérea dos EUA formou o Major Brown como piloto de caça de elite e confiou-lhe a defesa da nossa nação. Agora está acusado de treinar pilotos militares chineses. Quando cidadãos norte-americanos, sejam ex-militares ou civis, prestam formação a forças armadas estrangeiras, isso é ilegal, a menos que tenham uma licença do Departamento de Estado. A Divisão de Segurança Nacional usará todas as ferramentas ao seu dispor para proteger as nossas vantagens militares e responsabilizar quem viole o AECA.”
O Federal Bureau of Investigation (FBI), através da sua Divisão de Contrainteligência e Contraespionagem, também alertou para as tentativas repetidas da China de recrutar elementos das Forças Armadas dos EUA para os seus programas de modernização e treino. Focando-se tanto em militares no ativo como em reformados, Pequim estará a recorrer a recursos financeiros avultados para facilitar estas operações - movimentos que, do ponto de vista chinês, ajudam a reforçar o grau de prontidão face ao seu principal rival geopolítico atual.
A análise do caso do Major reformado Gerald Eddie Brown Jr.
No caso concreto de Brown, o FBI indicou que ele terá prestado este tipo de serviços à China desde agosto de 2023, estabelecendo contactos com cidadãos chineses e norte-americanos para viabilizar a formação de pilotos estrangeiros - sem possuir a licença exigida pela Directorate of Defense Trade Controls (DDTC), no âmbito do Departamento de Estado dos EUA. É descrito como alguém com conhecimento aprofundado não só do caça furtivo F-35, mas também de outras aeronaves norte-americanas, incluindo unidades associadas à rede de dissuasão nuclear dos EUA, o que acentua as preocupações de Washington.
Detalhes adicionais indicam que o Major Brown terá colaborado com um cidadão chinês chamado Stephen Su Bin, que em 2016 foi processado nos tribunais norte-americanos por tentar invadir as redes informáticas de empresas de defesa e aceder a dados militares sensíveis. Foi condenado a quatro anos de prisão, e a sua empresa, a PRC Lode Technology Company, passou a integrar a Entity List do Departamento de Comércio dos EUA.
Nas mensagens trocadas entre ambos, Brown terá enviado um currículo em que indicava como principal “objetivo” tornar-se “instrutor de pilotos de caça”. A sua contraparte terá informado que seria colocado numa base ou “onde quer que esteja o equivalente local da (US Air Force) Weapons School”. Pouco depois, em dezembro de 2023, Brown viajou para a China e começou a reunir-se com responsáveis para demonstrar as suas credenciais como instrutor e o seu conhecimento da USAF. Permaneceu no país até ao início deste mês, quando regressou aos Estados Unidos e foi, de seguida, detido.
De momento, o arguido está a ser investigado por quatro escritórios de campo do FBI (Nova Iorque, Louisville, Indianápolis e Los Angeles), tendo também contribuído informação relevante o Air Force Office of Special Investigations. O processo está a ser conduzido por Beau Barnes, juntamente com o procurador adjunto-chefe interino Sean Heiden, da Secção de Contrainteligência e Controlo de Exportações da Divisão de Segurança Nacional, além do procurador-adjunto dos EUA Steven B. Wasserman (Distrito de Columbia).
Outros precedentes semelhantes no Ocidente
Convém notar que este está longe de ser o primeiro caso registado de pilotos ocidentais a prestar este tipo de serviços à China, um padrão que já motivou várias investigações e alertas. Um exemplo ilustrativo foi o boletim conjunto publicado em junho de 2024 pelos governos dos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia, no qual se lia: “O Exército de Libertação Popular (PLA) da China continua a visar militares no ativo e antigos militares de países da NATO e de outros países ocidentais para ajudar a melhorar as capacidades do PLA.”
No âmbito norte-americano, vale a pena recordar o caso do antigo piloto Daniel Edmund Duggan, que também serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e que em 2017 enfrentou acusações semelhantes às que agora são imputadas ao Major Brown. Duggan foi investigado por prestar formação na China relacionada com operações de descolagem e aterragem em porta-aviões - uma capacidade essencial para expandir a projeção de poder de Pequim. Desde 2022, Duggan está detido na Austrália a pedido do FBI e aguarda extradição para os Estados Unidos.
Um caso comparável surgiu também na Alemanha, em 2023, quando a ZDF Heute e o Der Spiegel noticiaram que um grupo de pilotos alemães tinha integrado um contingente de pessoal ocidental a prestar formação a aviadores chineses. Terão estado envolvidos pelo menos dois pilotos de Eurofighter e um de Tornado, todos com conhecimento das plataformas e dos procedimentos e táticas operacionais da NATO - questões que passaram a ser centrais para Berlim durante a investigação.
No Reino Unido, surgiram ainda mais exemplos, com relatos a indicar que até 30 antigos pilotos britânicos estiveram na China a colaborar na formação de aviadores locais, na sua maioria pilotos de caça. Meios como a Sky News referiram que quem realizava este trabalho recebia salários da ordem das £240 mil por ano, enquanto a BBC noticiou que tinham sido emitidos alertas de inteligência a avisar antigos pilotos sobre a ilegalidade de participar nestas atividades.
Imagens usadas apenas para fins ilustrativos.
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