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Temps d’Images: a imagem como motor criativo na 24.ª edição

Rapaz em palco iluminado, rodeado por imagens penduradas de fotografias e desenhos coloridos, em teatro vazio.

O Temps d’Images tem, desde a sua origem, colocado a imagem no centro do diálogo com outras linguagens artísticas, sempre num horizonte de performatividade. Na 24.ª edição, com curadoria de Ana Calheiros, António Câmara Manuel, Leonardo Garibaldi e Maria João Garcia, essa linha mantém-se. Ainda assim, aquilo que agora se vê resulta, muitas vezes, de uma instrumentalização da imagem que a instala como impulso da própria criação: a imagem surge como arquivo, objeto, registo ou fragmento - múltiplas formas de presença - e, enquanto instância ativa, é o que acende o gesto artístico.

A imagem em cena: entre literalidade e dispositivo criativo

Em alguns trabalhos, a imagem é convocada de forma quase literal - não por ser elementar, mas por estar ali de modo incontornável, claro e direto. É o que acontece em “O Direito do Mais Fraco à Liberdade”, dos Silly Season, onde o cinema de Fassbinder funciona como ponto de partida para erguer um espetáculo que volta a dizer, por outras vias, muito do que o realizador afirma ou deixa insinuado: as ligações entre amor, desejo, poder e dinheiro, bem como uma reflexão sobre a construção de hierarquias (CCB, 6 e 7 de junho).

O cinema reaparece, contudo, numa proposta com outra arquitetura e outra escala: em “Cão de Sete Patas”, de Bibi Dória, o filme “Copacabana Mon Amour”, de Rogério Sganzerla, é visto e decorado pela artista, que estabelece também uma relação singular com o universo onírico de uma das personagens. A partir daí, e com uma elaboração extrema, concebe uma performance de que é simultaneamente diretora e intérprete (Rua das Gaivotas 6, dias 29 e 30).

Memória, arquivo e ferida: quando a imagem se torna passado trabalhado

Em “Duas Ratas”, de Rafa Jacinto e Carolina Cunha e Costa, a imagem confunde-se com a memória num projeto ancorado em diários e registos visuais da infância. Trata-se de uma revisitação do passado que é igualmente um exercício de cuidado das suas cicatrizes: marcas e traumas são trabalhados para se transformarem num presente possível e, no limite, em obra de arte (Rua das Gaivotas 6, dias 22 e 23).

Com “Souvenir”, Tiago Cadete dedica-se à migração portuguesa para França na segunda metade do século XX, afunilando a investigação até ao caso particular da sua família paterna. Aqui, as imagens são o que resta desse tempo - ou talvez o contrário. E é nesse encontro com vestígios que, nesta performance, o autor acaba por se cruzar com o seu passado e consigo próprio (Teatro Ibérico, dias 28 e 29).

Ficção, cosmos e crença: outras imagens do presente no Temps d’Images

Em “Hotel Paradoxo”, de Alex Cassal, interpretado por Marco Mendonça, a ação desloca-se para o Planetário da Marinha, convocando imagens reais de observação do espaço e dos astros, ao mesmo tempo que se fabrica uma imagem ficcional onde cabem uma viagem no tempo, o encontro de duas pessoas e uma separação definitiva (Planetário da Marinha, de 21 a 23).

No Temps d’Images há ainda uma proposta de teatro que entra em casa do público, “Quando os Anjos Falam de Amor”, de Henrique Furtado Vieira, Catarina Vieira, Leonor Mendes e Sérgio Diogo Matias (dias 21 a 24 e 27 a 29); um filme, “Pele Nómada”, de João Fiadeiro e Aline Belfort, que funciona como retrato visual em movimento da deslocação dos arquivos da REAL, estrutura de produção e criação decisiva para o arranque e a circulação da Nova Dança Portuguesa (Cinema Ideal, dia 25); e um espetáculo de teatro, “Retroceder”, dos Urso Pardo, sobre o trajeto de três atores até ao agora (CAL - Centro de Artes de Lisboa, 30 e 31).

Surge também a proposta de Beatriz e Leonor W. Carretas que, em “Ao Longe, o Fim do Mundo”, encenam a história de um grupo de terraplanistas que, a caminho da Antártida, procura demonstrar que a Terra é plana (Teatro Ibérico, 5 e 6 de junho). A imagem da contemporaneidade passa igualmente por estas visões e crenças que embatem na ciência - por negacionismos e conspirações de várias naturezas. É o presente.

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