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Choque de geada na Borgonha: Viticultores ainda receiam apesar dos primeiros sinais de alívio.

Homem com gorro e casaco inspeciona planta numa vinha ao amanhecer com aldeia e igreja ao fundo.

O início de abril trouxe um duplo golpe de frio às vinhas da Borgonha, mas o verdadeiro teste ainda está por vir depois da Páscoa.

Os viticultores da Côte-d’Or respiram com alguma prudência após duas noites geladas no fim de março. As imagens da catástrofe provocada pela geada em 2021 continuam vivas na memória, quando se perderam colheitas inteiras. Desta vez, o cenário parece menos dramático, mas ninguém se atreve a relaxar. Com a subida das temperaturas em torno da Páscoa, instala-se um outro fator de risco, mais insidioso.

Geada em março na Borgonha: alerta sério, mas ainda longe do desastre

Na região da Borgonha, as temperaturas caíram claramente abaixo de zero nas noites de 27 e 28 de março. Nas vinhas da Côte-d’Or, o retrato é agora misto: há danos, mas não há, para já, perdas totais generalizadas.

As castas de Chardonnay são as mais afetadas. Na primavera, brotam normalmente mais cedo do que o Pinot noir e, por isso, ficam mais expostas quando surge uma geada tardia. Muitas explorações relatam cepas isoladas danificadas e gomos atingidos, mas raramente mais de metade dos rebentos de uma parcela.

A situação é grave, mas está longe de ser um incêndio generalizado: é um recuo, não a ruína de uma vindima.

Para os produtores, essa nuance é determinante. Depois de 2021, quando várias parcelas na Borgonha pareceram ter sido queimadas pelo frio, o simples facto de não haver uma mortandade em massa dos gomos já representa um pequeno alívio. Ainda assim, a safra de 2024 continua em terreno instável, porque os efeitos da vaga de frio só se vão revelar gradualmente.

Porque é que a Borgonha desta vez escapou melhor do que outras regiões

Em comparação com zonas como Chablis ou a Champagne, a Côte-d’Or teve desta vez um pouco mais de sorte. Nesses territórios, as temperaturas desceram ainda mais e os estragos já são muito mais visíveis. Na Borgonha, a geada fez estragos, mas não com a mesma severidade.

Conta também a natureza da própria geada. Meteorologistas e técnicos de viticultura distinguem duas formas:

  • geada advecional: entram massas de ar muito frio e a temperatura desce de forma ampla
  • geada radiativa: o calor escapa durante a noite e o ar arrefece sobretudo nas depressões

A situação torna-se perigosa quando estas duas variantes surgem em sequência curta. Foi precisamente isso que esteve em cima da mesa no final de março. Em partes da Côte-d’Or, a topografia, a circulação do ar e os solos já ligeiramente aquecidos ajudaram a evitar o pior. Mesmo assim, o episódio volta a mostrar que a videira tolera muita coisa, mas não todos os sobressaltos logo após o fim do inverno.

Zonas mais vulneráveis da Côte-d’Or: onde cada cepa está a ser verificada

Os primeiros sinais mais evidentes aparecem sobretudo nas áreas que já são sensíveis por natureza. Entre elas contam-se o Châtillonnais, as Hautes Côtes e a zona em torno de Nolay. Aí, vários fatores jogaram contra as videiras.

Em altitudes mais elevadas, a neve de 26 de março intensificou o efeito de arrefecimento. Em Nolay, caíram cerca de 4 milímetros de chuva antes da primeira noite de geada - o suficiente para humedecer os gomos. A humidade nos rebentos aumenta o risco, porque os gomos molhados congelam mais depressa.

Nas parcelas com fraca ventilação, muitos gomos apresentam agora uma coloração ferruginosa. O aspeto é alarmante, mas ainda não corresponde a uma sentença final. Ao cortar esses gomos, encontram-se muitas vezes exemplares totalmente secos ao lado de estruturas ainda verdes e vitais no interior.

A noite de geada foi apenas a primeira parte da prova. O verdadeiro estado das videiras só costuma ficar claro semanas mais tarde, quando se olha para a secção cortada.

Nos próximos dias e semanas, viticultores e técnicos vão analisar parcela a parcela. Só então será possível estimar, ainda que de forma aproximada, quanto rendimento está efetivamente em jogo.

A Páscoa traz calor - e um novo risco para a safra

A geada travou o desenvolvimento das videiras durante cerca de dez dias. Agora, as previsões apontam para uma subida acentuada das temperaturas: em média, perto de 15 graus, com máximas diurnas a rondar os 23 graus. Para a videira, isto funciona como um botão de aceleração.

Com dias mais amenos, os rebentos crescem de forma súbita e rápida. Os chamados estádios fenológicos - da abertura dos gomos às primeiras folhas - avançam em pouco tempo. É precisamente nesse momento que a planta fica mais exposta. Quanto mais avançada estiver a brotação, mais sensível se torna a videira a uma nova noite gelada.

O grande receio é claro: uma nova vaga de frio depois da Páscoa pode atingir de forma muito mais dura do que as noites de março. Nessa altura, há rebentos jovens e delicados nas linhas, praticamente sem proteção. Mesmo algumas horas de geada podem bastar para que essa vegetação fresca seja queimada.

O que os viticultores observam hora a hora

Nas explorações da Côte-d’Or começa agora uma fase de vigilância contínua. O foco está em várias perguntas:

  • Os gomos danificados voltam a rebentar ou ficam mortos?
  • A vegetação desenvolve-se depressa nas parcelas mais precoces?
  • A previsão aponta para novas noites com temperaturas críticas?

Os produtores mantêm atenção redobrada nas parcelas de maturação precoce em zonas da Côte de Beaune e da Côte de Nuits. No outono, estes terrenos estão muitas vezes entre os melhores; na primavera, porém, concentram também o risco mais elevado. Brotam mais cedo e entram, por isso, mais depressa na faixa de perigo da geada tardia.

A aplicação meteorológica na viticultura já deixou há muito de ser um brinquedo de lazer: é um fator de produção - cada noite pode tornar-se decisiva.

As consequências vão muito além do conforto pessoal. A evolução das temperaturas nas próximas semanas vai determinar se a safra será curta, razoável ou, no pior dos cenários, novamente desastrosa.

Filage: o ladrão silencioso de rendimento depois de longos períodos de frio

Para além dos danos visíveis causados pela geada, os especialistas preocupam-se com outro fenómeno: o chamado filage. Por detrás deste termo técnico esconde-se um processo traiçoeiro. Períodos prolongados de frio, numa fase sensível do desenvolvimento, perturbam a formação das inflorescências.

As inflorescências - ou seja, os futuros cachos - desenvolvem-se de forma irregular, “esticam fios” ou ficam parcialmente atrasadas. O resultado é menos uvas por cepa e, por vezes, também uma distribuição menos homogénea do peso dentro da parcela.

Segundo estimativas de fisiologistas das plantas, cerca de 40 por cento do rendimento final decide-se entre a abertura dos gomos e o momento em que as primeiras folhas se expandem. Se, exatamente nessa janela, ocorrer um período longo de frio, a videira paga a fatura mais tarde - muitas vezes apenas na vindima.

Fase do ano Influência do frio
Da abertura dos gomos às primeiras folhas efeito forte na formação da produção, risco de filage
Floração perigo de vingamento deficiente, menos bagos por cacho
Início da maturação impacto na formação de açúcar e no equilíbrio da acidez

Para quem compra vinho, o filage quase não é percetível, desde que cheguem garrafas suficientes ao mercado. Para as explorações, porém, uma perda invisível de 10 ou 20 por cento por hectare pode fazer a diferença entre um ano económico sólido e um ano difícil.

Ovos da Páscoa no jardim, sensores de geada na vinha

Enquanto muitas famílias pensam em ovos coloridos e cabrito assado durante as festividades, os viticultores da Borgonha contam gomos e estudam mapas meteorológicos. O contraste é nítido: ambiente festivo no vale, silêncio tenso nas encostas.

No dia a dia das explorações, reina agora uma rotina de trabalho com alerta permanente. Verificar cepas, atar troncos, ajustar arames - e manter sempre um olho nos sensores de temperatura e nos avisos meteorológicos. Não há grande espetáculo visual em tudo isto. Ainda assim, é precisamente nestes dias discretos que se decide muito da qualidade e da quantidade da vindima que está para vir.

O que os amantes de vinho devem saber sobre danos de geada

Para os consumidores, a questão é simples: o que significam estes episódios de geada para o vinho no copo? Há três pontos especialmente relevantes:

  • Quantidade: consoante a extensão dos estragos, o número de garrafas disponíveis pode baixar e certas parcelas podem ficar mais escassas.
  • Preço: menor produção, quando a procura é elevada, pode empurrar os preços para cima - não é inevitável, mas acontece com frequência.
  • Estilo: em بعضos anos, os rendimentos reduzidos originam vinhos mais concentrados; noutros, a harmonia e o equilíbrio sofrem.

A geada, portanto, não é apenas um inimigo da qualidade; é antes um fator imprevisível. Alguns anos lendários nasceram apesar de primaveras difíceis, enquanto outros ficaram profundamente marcados por geadas tardias e longos períodos de frio.

Prevenção, adaptação e o papel das alterações climáticas

A longo prazo, os viticultores da Borgonha enfrentam uma questão estratégica: como proteger as videiras sem levar o esforço até ao limite? Velas de parafina, cabos de aquecimento, ventiladores ou sistemas de rega por aspersão podem ajudar, mas custam muito dinheiro e muita energia. Nem todas as explorações podem, ou querem, aplicar estes meios de forma generalizada.

A isto soma-se o impacto das alterações climáticas: invernos mais suaves e primaveras mais cedo fazem com que a videira entre em atividade mais depressa. Os gomos surgem antes, mas o risco de geada tardia quase não encolhe no calendário. É precisamente esta combinação que agrava a situação. Por isso, algumas explorações experimentam uma poda mais tardia, outras recorrem a porta-enxertos diferentes ou a sistemas de vegetação ajustados, para atrasar um pouco a brotação.

Nas próximas semanas, a situação na Côte-d’Or continuará tensa. Os viticultores movem-se numa zona intermédia entre o alívio e a preocupação: a geada de março não atacou como em 2021, mas a primavera ainda é longa. E na Borgonha todos sabem que uma vindima pode mudar de rumo numa única noite.

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