Um habitante discreto dos recifes está a agitar a investigação do comportamento: um pequeno peixe-limpador mostra capacidades que até agora eram atribuídas apenas a grandes símios.
Um espelho, um minúsculo peixe tropical e uma experiência que, em princípio, estava reservada aos “cérebros grandes”: aquilo que investigadores do Japão e da Suíça observaram num laboratório com um peixe-limpador está a virar do avesso ideias bem instaladas sobre a consciência nos animais. O colorido morador dos recifes parece reconhecer-se a si próprio - e fá-lo num teste que era considerado o padrão-ouro para os grandes símios.
O que está por trás do teste do espelho
Desde a década de 1970, os investigadores recorrem ao chamado teste do espelho para procurar sinais de autoconsciência. A lógica é simples, mas engenhosa: durante o sono ou sob ligeira sedação, é colocada ao animal uma marca bem visível numa parte do corpo que ele não consegue ver sem ajuda de um espelho. Quando acorda, vê-se refletido e toca ou examina de forma direcionada a zona assinalada, isso é interpretado como um indício de que reconhece a imagem refletida como sendo de si próprio.
Se, durante muito tempo, apenas espécies especialmente “evoluídas” passassem este teste, então acaba por surgir uma espécie de ranking implícito da inteligência no reino animal. Entre os vencedores clássicos contam-se, por exemplo:
- Chimpanzés e outros grandes símios
- Golfinhos
- Algumas aves corvídeas, como corvos e pegas
- Elefantes, em certos estudos
Muitos outros animais, que claramente não são pouco inteligentes, falham no protocolo padrão. É o caso, por exemplo, dos gorilas, que muitas vezes evitam o contacto visual, ou dos cães, que frequentemente ignoram simplesmente a própria imagem no espelho. Por isso, cada vez mais investigadores põem em causa que um único teste, rígido e igual para todos, seja justo para todas as espécies.
A nova investigação sugere que o teste do espelho diz menos sobre inteligência do que sobre a nossa visão humana da inteligência.
O peixe-limpador põe a lógica do teste do espelho em causa
É aqui que entra o estudo agora publicado na revista Scientific Reports. Uma equipa da Universidade Metropolitana de Osaka e da Universidade de Neuchâtel analisou o peixe-limpador Labroides dimidiatus. Esta espécie vive nos recifes de coral do Indo-Pacífico e é conhecida pelo seu “serviço”: remove parasitas de peixes maiores, que lhe permitem pacientemente tocar-lhes e mordiscá-los.
Em vez de repetir de forma mecânica o teste do espelho clássico, os investigadores inverteram o protocolo. Durante vários dias, os peixes viram apenas o espelho - sem qualquer marca no corpo. Dessa forma, puderam “familiarizar-se” com a própria imagem refletida com toda a calma.
O resultado foi tudo menos indiferente. Os peixes-limpadores nadavam diante da superfície refletora em ângulos pouco habituais, executavam movimentos estranhos, paravam de repente ou pareciam “ensaiar” manobras que normalmente não exibiam. Numa cena particularmente expressiva, alguns peixes largaram pequenos camarões diante do espelho para observar como estes desciam no reflexo. Ao que tudo indica, estavam a testar de forma ativa as propriedades espaciais da imagem refletida.
17 de 18 peixes passam o teste clássico
Depois de os animais já estarem habituados ao espelho, começou a verdadeira prova. Os investigadores colocaram em cada peixe uma marca colorida na garganta - uma zona que o peixe não consegue ver sem espelho. Em seguida, o espelho voltou para o aquário.
A reação surpreendeu a equipa: 17 de 18 peixes-limpadores posicionaram-se de forma a conseguir ver a garganta no espelho. Alteraram a postura do corpo de maneira muito precisa e nadaram para diante do espelho como se estivessem a apontar para uma área específica.
Em média, os peixes precisaram de cerca de 82 minutos para reagir de forma evidente à marca - mais depressa do que alguns mamíferos em testes semelhantes.
Alguns animais esfregaram depois a garganta contra pedras ou contra o fundo do tanque, depois de terem observado exatamente essa zona marcada no espelho. Isso sugere que interpretaram a marca como estando “em si próprios” - e não como uma nódoa num peixe estranho dentro do vidro.
Fotografias em vez de espelho: teste de reconhecimento facial
O estudo avançou ainda mais um passo. Os investigadores mostraram aos peixes-limpadores fotografias dos seus próprios rostos - umas sem alteração, outras manipuladas com uma marca acastanhada. Também foram apresentadas imagens de outros peixes-limpadores, algumas delas igualmente com uma mancha.
Dos oito animais testados, seis reagiram de forma claramente diferenciada: mostraram um interesse especial quando viam o próprio rosto com marca, mas ignoraram em grande medida as fotografias de outros animais, mesmo quando esses também apresentavam a mesma mancha. Assim, o peixe-limpador parece ser capaz de associar não só uma imagem no espelho, mas também uma representação bidimensional, à sua própria aparência.
O que isto significa para a nossa ideia de consciência
Durante muito tempo, partiu-se do princípio de que a autoconsciência seria uma aquisição tardia da evolução, uma espécie de coroa do desenvolvimento de grandes cérebros complexos em mamíferos e em algumas aves. Os peixes ósseos, como o peixe-limpador, separaram-se da linhagem dos restantes vertebrados há cerca de 450 milhões de anos - muito antes de surgir o típico neocórtex dos mamíferos.
Se um habitante de recife com apenas dez centímetros apresenta sinais de auto-perceção, isso põe esta narrativa em causa. Abrem-se então duas hipóteses:
- As raízes da autoconsciência são muito mais antigas do que se pensava.
- Capacidades semelhantes terão surgido de forma independente em diferentes grupos animais.
A vida de Labroides dimidiatus dá força à segunda explicação. Os peixes-limpadores vivem de encontros delicados com peixes clientes maiores. Quem precisa de remover parasitas sem ferir o tecido sensível do hospedeiro tem de ter controlo fino, boa memória e sensibilidade para sinais sociais. Vários estudos mostram que os peixes-limpadores se recordam de parceiros específicos, adaptam o seu comportamento ao desses parceiros e recorrem a tentativas de engano de forma arriscada, mas calculada.
Um animal que negoceia todos os dias com dezenas de outros indivíduos tira vantagem de um “eu” bem definido - não apenas no espelho, mas no recife.
Quão fiável é, afinal, o teste do espelho?
O novo trabalho alimenta um debate que já se vinha a desenhar há anos na investigação do comportamento: será que o teste do espelho mede mesmo autoconsciência - ou apenas uma certa combinação de curiosidade, processamento visual e capacidade de movimento corporal? Um corvo, por exemplo, pode achar a própria imagem menos interessante do que o som de vozes. Um cão orienta-se sobretudo pelo olfato, e não pela visão.
Assim, algumas espécies falham o teste porque ele simplesmente não se adapta à sua forma de perceção. Outras, como o peixe-limpador, conseguem superá-lo quando o protocolo é ajustado com cuidado à sua biologia - aqui, por exemplo, dando-lhes tempo para observar a imagem refletida sem qualquer marca antes de fazer o teste propriamente dito.
Por isso, uma parte crescente da comunidade científica defende que os métodos devem estar mais alinhados com a biologia de cada animal. Se só medirmos aquilo que os grandes símios conseguem fazer, acabamos, inevitavelmente, com uma escala em que os grandes símios ficam no topo.
O que os leigos podem retirar deste estudo
O trabalho com os peixes-limpadores oferece vários pontos de reflexão que vão para além do laboratório:
- Cuidado com os animais aparentemente “simples”: um cérebro pequeno não significa, por si só, uma psique simples.
- Condições de manutenção: se os peixes conseguem construir uma imagem estável de si próprios, torna-se ainda mais urgente perguntar como deve ser a sua manutenção em aquário.
- Ética na investigação e na pesca: quanto mais capacidades cognitivas identificarmos nos peixes, mais difícil será ignorar o seu sofrimento.
Muitas pessoas continuam a ver os peixes como decoração em movimento, e não como indivíduos. Estudos como este abalam essa perspetiva. Quem alguma vez observou um peixe-limpador a tratar sistematicamente um “cliente” percebe depressa que ali se passa muito mais do que mero instinto.
Como pode a autoconsciência surgir nos animais
Autoconsciência não tem de significar que um animal pense na sua história de vida ou coloque questões filosóficas. Na investigação, o termo refere-se geralmente a capacidades bem mais modestas, como:
- Distinguir o próprio corpo do ambiente envolvente
- Separar o que resulta da própria ação do que vem do exterior
- Construir uma imagem estável da própria aparência ou do cheiro habitual
No peixe-limpador, parece existir já uma parte destas capacidades. O animal sabe claramente que partes do corpo lhe pertencem e como estas se apresentam do exterior. Isso basta para passar o teste do espelho - e obriga-nos a repensar a vida mental dos peixes.
Nos próximos anos, é de esperar que outras espécies até agora subestimadas sejam testadas com protocolos semelhantes e adaptados. Se um pequeno habitante dos recifes consegue chegar tão longe como um grande símio, talvez a distância que julgamos existir entre nós e muitos outros animais venha afinal a revelar-se bem menor.
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