Uma proteína que ajuda a manter a inflamação sob controlo poderá, no futuro, orientar investigadores para novas formas de atenuar a fragilidade e a perda óssea associadas ao envelhecimento - embora, até ao momento, a evidência venha de ratos.
Num estudo coordenado por cientistas da Universidade de Buffalo, em Nova Iorque, a equipa identificou a proteína tristetraprolina (TTP) como um alvo potencial para reduzir alguns efeitos adversos do envelhecimento.
Ao aumentar a TTP em ratos envelhecidos, observaram-se "melhor força de preensão, melhor marcha, resistência e desempenho físico global", explica o biólogo Keith Kirkwood, da Universidade de Buffalo.
As conclusões não constituem um tratamento e estão muito longe de qualquer ensaio em humanos.
Ainda assim, somam-se a um conjunto crescente de indícios de que a inflamação crónica tem um papel importante na forma como o organismo se degrada com a idade.
"Estas conclusões posicionam a TTP como um alvo promissor para abordar a fragilidade e a inflamação associadas ao envelhecimento, abrindo caminho a uma exploração terapêutica mais ampla", escrevem os autores no artigo publicado.
Até 2050, quase um quarto dos norte-americanos terá 65 anos ou mais - um aumento de mais de 40 por cento, passando de 58 milhões em 2022 para 82 milhões.
É expectável que muitas pessoas cheguem aos 90 anos e além.
A descida das taxas de fertilidade, os avanços médicos e a maior esperança de vida estão entre os fatores que impulsionam, a nível nacional e global, a subida da idade média e da idade mediana.
A longevidade pode soar atraente.
Mas será que os sistemas de saúde conseguem acompanhar populações mais envelhecidas e ajudar as pessoas a manter força, mobilidade e independência nesses anos finais?
Envelhecimento e inflamação: o desafio da inflamação crónica de baixa intensidade
Um dos obstáculos passa por gerir a inflamação crónica, de baixa intensidade, que tende a agravar-se com o avançar da idade.
"Estas alterações relacionadas com a idade, conhecidas como imunossenescência, levam a uma diminuição da resiliência imunitária e a uma maior suscetibilidade a doenças inflamatórias crónicas associadas ao envelhecimento", explica Kirkwood.
Tristetraprolina (TTP): como pode travar sinais inflamatórios
Recorrendo a um modelo em ratos, os investigadores verificaram que a TTP está implicada em vários efeitos protetores, incluindo a supressão de numerosas citocinas.
As citocinas são proteínas de sinalização que orientam a resposta imunitária; porém, quando se mantêm demasiado ativas durante demasiado tempo, podem contribuir para inflamação crónica.
A TTP é produzida em vários tipos de células, incluindo as da pele, do músculo, do tecido nervoso e dos tecidos conjuntivos fibrosos que mantêm o corpo unido.
Trabalhos anteriores sugerem que os níveis de TTP diminuem com a idade, sobretudo no sistema imunitário.
Para avaliar o que poderia acontecer se essa proteína se mantivesse mais estável ao longo do envelhecimento, a equipa utilizou uma linhagem de ratos com uma deleção genética que estabilizava a TTP e aumentava a sua expressão.
O que mudou nos ratos: fragilidade, desempenho físico e ossos
Ao melhorar a expressão de TTP em ratos mais velhos - machos e fêmeas com 22 meses - os cientistas reduziram a fragilidade e melhoraram indicadores de saúde funcional.
Os ratos com TTP estabilizada mostraram melhor condição física em vários domínios: apresentaram maior força de preensão, maior velocidade de marcha, mais resistência na passadeira e hábitos de atividade física mais elevados.
Estes efeitos foram mais marcados nos machos e, em algumas medições, como força de preensão e resistência na passadeira, os resultados aproximaram-se dos observados em ratos muito mais jovens, com 6 meses.
Em comparação com os controlos, os ratos com TTP exibiram maior densidade mineral óssea e maior espessura, sugerindo uma microarquitetura esquelética mais robusta.
"Apresentaram um perfil imunitário com um aspeto mais jovem", afirma Kirkwood.
Algumas das melhorias de condição física e os benefícios ósseos ficaram limitados aos machos.
Os investigadores suspeitam que esta diferença possa dever-se, em parte, à diminuição dos níveis de estrogénio nas fêmeas, uma vez que esta hormona essencial protege os tecidos músculo-esqueléticos e neurais e também influencia a sinalização das citocinas.
Limitações, aplicação em humanos e próximos passos
Os ensaios clínicos em humanos continuam muito distantes. A triagem de fármacos para aumentar a TTP também não tem sido bem-sucedida.
Num futuro próximo, a equipa pretende estudar de que forma a TTP influencia a inflamação cerebral relacionada com a idade, associada a doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer.
A técnica usada para estabilizar a TTP nos ratos não pode ser transposta diretamente para aplicações em humanos, mas os investigadores propõem que determinados métodos farmacológicos poderiam produzir um efeito semelhante.
Entre essas possibilidades estão os indutores génicos de pequenas moléculas, que funcionam como interruptores liga/desliga para alternar a expressão génica.
Em alternativa, podem usar-se modificadores de fosforilação, que alteram os grupos fosfato nas proteínas e, assim, modificam a sua forma e função.
"Estou otimista quanto ao rumo que esta investigação pode tomar e ao que poderemos aprender à medida que os estudos avancem ao longo do tempo", diz Kirkwood.
No conjunto, trata-se de uma adição interessante ao leque de métodos antienvelhecimento em desenvolvimento.
Uma vez que a idade avançada está associada a maior inflamação e a menor imunidade, são necessárias novas terapias para tratar várias condições crónicas ligadas a estes fatores, como a artrite.
Além disso, entre as pessoas mais velhas nos EUA que não vivem em lares, a prevalência de fragilidade é de 15 por cento.
"Compreender os mecanismos que ligam a inflamação do envelhecimento, as alterações do sistema imunitário, a saúde óssea e a fragilidade é essencial para desenvolver intervenções direcionadas que melhorem a qualidade de vida em populações envelhecidas", conclui Kirkwood.
Esta investigação foi publicada na revista Envelhecimento e Doença.
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