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Tasha Seiter: estamos a procurar no sítio errado

Três pessoas sentadas à mesa a conversar, com material de voluntariado e objeco de mealheiro à frente.

Uma terapeuta norte-americana defende que estamos a procurar no sítio errado.

Ser realmente feliz e sentir-se satisfeito de forma duradoura - e não apenas viver um pico de euforia depois das férias ou do bónus seguinte - é o que a maioria das pessoas deseja. Ainda assim, aumenta o número de quem se sente esgotado, sem rumo ou emocionalmente sozinho. A terapeuta de relações e de casal Tasha Seiter, dos Estados Unidos, resume a questão de forma muito direta: por trás da procura pela grande felicidade escondem-se apenas três necessidades centrais. Quem as compreende e as leva a sério costuma mudar o quotidiano mais depressa do que qualquer discurso motivacional conseguiria.

As três necessidades discretas, mas decisivas de Tasha Seiter

À primeira vista, as ideias de Seiter parecem quase banais. Nada de luxo, truques de autoaperfeiçoamento ou fórmula milagrosa. E é precisamente isso que as torna tão interessantes: ela parte do que o nosso sistema nervoso realmente precisa, e não do que nos prometem os cartazes publicitários.

  • Precisamos de segurança.
  • Precisamos de pertença.
  • Precisamos de sentido.

"Estes três desejos são como os pilares de uma casa. Se faltar um, o edifício inteiro abana - por muito bonita que seja a fachada."

Segundo a terapeuta, todos os outros desejos - do carro dos sonhos à viagem longínqua - acabam por ser apenas versões ou disfarces destas três necessidades básicas. O dinheiro, por exemplo, não vale por si só; significa proteção contra o medo de não conseguir viver. O grande número de amigos nas redes sociais raramente representa proximidade verdadeira, mas antes a vontade silenciosa de fazer parte de algo.

Segurança: quando o chão sob os pés está firme

Quando fala de segurança, Seiter não se refere apenas a uma conta bancária bem recheada. Está a falar de uma sensação fundamental: não estou constantemente ameaçado. Nem no plano financeiro nem no emocional.

Estabilidade financeira reduz o stress permanente

As preocupações constantes com dinheiro colocam o corpo em estado de alerta. Quem não sabe como vai pagar a renda seguinte dorme pior, reage de forma mais irritada e toma muitas vezes decisões pouco acertadas. Compra por frustração, esgota-se no trabalho ou agarra-se a empregos e relações que já estão a causar dano.

  • Uma pequena reserva de emergência - bastam até algumas rendas mensais - reduz comprovadamente os níveis de stress.
  • Ter visão sobre receitas e despesas devolve a sensação de controlo.
  • Metas de poupança pequenas e realistas motivam mais do que sonhos vagos e grandiosos de enriquecimento rápido.

É curioso: Seiter sublinha que não se trata de ter "muito" dinheiro, mas de ter o suficiente para transmitir segurança. Quem corre constantemente atrás de "mais" acaba muitas vezes por não reparar no ponto em que, na realidade, já chegava.

Relações estáveis acalmam o sistema nervoso

Relações instáveis podem provocar no corpo um stress semelhante ao de um emprego inseguro. Quem nunca sabe se as amizades vão resistir ou se o parceiro desaparecerá de um dia para o outro vive, por dentro, com as malas feitas.

"Um sentimento duradouro de insegurança nas relações envia ao sistema nervoso a mensagem: cuidado, há perigo - alguma coisa pode ruir a qualquer momento."

Sinais típicos de que a segurança interior está a falhar:

  • ciúme constante, mesmo sem motivo concreto
  • medo de ser um peso para os outros e, por isso, tentar resolver tudo sozinho
  • a sensação de ter de estar sempre a "dar espetáculo" para ser apreciado

Quem agir sobre este ponto está a construir segurança: limites claros, conversas abertas e, se necessário, o afastamento de contactos que magoam de forma persistente.

Pertença: o ser humano não é um combatente solitário

O segundo pilar é este: precisamos de nos sentir ligados. Não a 500 contactos, mas a poucas pessoas em quem confiamos de facto.

Poucos vínculos verdadeiros valem mais do que muitos contactos superficiais

Há anos que os estudos mostram isto: pessoas com uma rede social próxima vivem mais tempo, recuperam mais depressa de doenças e avaliam a vida de forma muito mais positiva. Seiter centra-se numa pergunta simples: "Em quem podes contar no meio da noite?"

"Um círculo estável de pessoas junto das quais nos sentimos vistos e levados a sério é um dos fatores de proteção mais fortes contra a solidão, a depressão e o esgotamento."

Isto não significa que todas as relações familiares façam bem automaticamente. Para algumas pessoas, a pertença nasce mais facilmente numa família escolhida: entre amigos, num clube, ou numa comunidade com valores semelhantes.

Como reforçar a sensação de pertença

Em vez de esperarem ser "descobertas", muitas psicólogas aconselham pequenos passos ativos:

  • Marcar encontros regulares com duas ou três pessoas importantes, se for preciso por videochamada.
  • Ouvir com atenção, fazer perguntas e mostrar fragilidades próprias - a proximidade nasce da honestidade.
  • Procurar grupos onde exista uma ligação através de um tema comum: desporto, música, voluntariado, videojogos, política.

As pessoas mais introvertidas subestimam muitas vezes o impacto que uma única relação fiável pode ter na forma como sentem a sua felicidade.

Sentido: porque precisamos de mais do que conforto

O terceiro ponto explica por que razão algumas pessoas, apesar de terem família carinhosa e um bom rendimento, continuam vazias por dentro: falta-lhes sentido. Isto não quer dizer, necessariamente, "encontrar uma vocação" ou largar tudo e emigrar. Trata-se de sentir que se está a contribuir para alguma coisa.

O que nos dá a sensação de estar a contribuir?

Seiter descreve-o assim: queremos sentir que não é indiferente estarmos aqui. Esse sentimento pode nascer de fontes muito diferentes:

  • um emprego em que o que fazemos melhora algo de forma visível
  • trabalho de cuidados na família, reconhecido de forma consciente
  • voluntariado, ajuda na vizinhança ou envolvimento político
  • atividades criativas que dão prazer a outras pessoas - da música aos memes

"Dinheiro e amigos, por si só, não bastam se não acreditarmos que, com as nossas capacidades, devolvemos algo à sociedade."

Quando o tema é sentido, ajuda começar por pouco: quem é que está melhor porque existes? Pode ser a colega que ouves, a criança que levas todos os dias ao infantário ou o vizinho mais velho a quem levas as compras pelas escadas acima.

Como as três necessidades se cruzam no dia a dia

Estas três áreas estão profundamente ligadas entre si. Quem vive mais sentido fortalece muitas vezes, quase automaticamente, a sua integração social - por exemplo através do voluntariado. Quem organiza as finanças sente mais segurança e consegue cuidar das relações com maior serenidade. Pequenas mudanças podem, assim, desencadear uma reação em cadeia.

Necessidade Problema típico Primeiro passo prático
Segurança Stress permanente por causa do dinheiro ou de empregos instáveis Fazer um orçamento, definir uma percentagem fixa para poupança
Pertença Solidão apesar de muitos contactos Escolher uma pessoa e procurar uma conversa sincera
Sentido Sensação: "O meu dia a dia não tem qualquer significado" Introduzir semanalmente uma atividade que ajude alguém de forma visível

Exemplos práticos de pequenas correções de rumo

Quem tentar pôr os três domínios em ordem "perfeita" ao mesmo tempo tende a falhar. É mais sensato começar pela área que mais dói.

Exemplo 1: o emprego bem pago, mas desgastante

Muitas pessoas contam o mesmo: o salário e o estatuto estão em ordem, mas o vazio interior continua a crescer. Aqui, a segurança é relativamente alta e o sentido costuma ser baixo. Um primeiro passo pode ser procurar, dentro do próprio trabalho, projetos que se aproximem mais dos valores pessoais - ou criar fora do horário laboral um passatempo com sentido, que não dependa do saldo bancário.

Exemplo 2: a pessoa socialmente ativa, mas sempre com dificuldades financeiras

Outros têm grandes grupos de amigos, aparecem em todas as festas, mas financeiramente vivem em terreno instável. A pertença existe, a segurança não. Neste caso, uma análise fria pode ajudar bastante: para onde está a ir o dinheiro, o que pode ser cortado sem pôr em risco as relações mais importantes?

Porque a perfeição não precisa de ser o objetivo

Ninguém está sempre em terreno favorável nas três áreas. Crises, mudanças de emprego, separações, doenças - a vida volta sempre a atirar-nos para trás. O ponto decisivo é conhecer as próprias necessidades e não recorrer automaticamente ao telemóvel, às compras ou à autocensura sempre que surge desconforto.

Quem consegue avaliar de forma aproximada: "Segurança agora em 4 em 10, pertença em 6, sentido em 2", tem uma bússola mais clara. Estes três conceitos simples funcionam como uma espécie de sistema de verificação interior. Deste tipo de clareza nascem os pequenos passos que, no fim, muitas vezes aproximam mais da felicidade real do que qualquer grande revolução de vida.

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