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ADN, Correio da Manhã e violência de género: quando a manchete falha

Mulher sentada num corredor hospitalar, lendo atentamente um jornal sobre ética nas notícias.

O que se passou no Hospital Beatriz Ângelo

O episódio terá ocorrido no início de abril. Segundo foi noticiado, um enfermeiro terá abusado sexualmente de uma doente ainda semissedada, já no recobro, depois de uma cirurgia. Mal saiu do Hospital Beatriz Ângelo, a vítima apresentou queixa às autoridades, que acabaram por chegar ao suspeito através do "material genético" encontrado no corpo da mulher.

O enfermeiro foi presente a um juiz, que determinou termo de identidade e residência. Ficou em liberdade, mas com limitações: não se pode aproximar da vítima, não pode exercer funções e está impedido de se aproximar de hospitais.

Mesmo este resumo bastaria para expor duas evidências duras: não há lugar que seja suficientemente seguro para uma mulher e, perante a violência, pouco importa o que se vestiu, se estava acordada ou em situação de vulnerabilidade - porque qualquer homem, familiar ou desconhecido, pode revelar-se um abusador, em qualquer momento e circunstância. Também a medida de coação decretada pelo tribunal diz muito sobre a complacência que, no nosso país, frequentemente envolve crimes cometidos contra mulheres.

Correio da Manhã: a manchete e o desvio do foco

Ainda assim, o que mais me sobressaltou nesta notícia foram as gordas do "Correio da Manhã": "ADN trama enfermeiro detido pela PJ de Lisboa por violar mulher sedada".

Há muito que nos habituámos a encontrar formulações do género "mulher morta pelo marido" em vez de "marido mata mulher", ou "jovem abusada por colega" em vez de "rapaz viola colega de escola". É uma tendência persistente: colocar o ónus, o foco e a lupa na vítima e naquilo que "lhe acontece", em vez de nomear, de frente, a ação de um agressor com livre-arbítrio. Entre nós, insiste-se em tratar a violência de género como algo que simplesmente sucede, e não como algo perpetrado - com agência e intenção - numa forma adicional de vitimizar quem já é vítima e, ao mesmo tempo, de desculpabilizar agressores, sob a velha e aberrante lógica de preservar a bem instalada "inimputabilidade da testosterona".

Quando até o ADN vira culpado

Mas, nesta parangona do CM, o desvio vai ainda mais longe: o centro da história passa a ser o elemento que "tramou" o agressor, como se o tivesse denunciado por traição - e o Judas do caso fosse o próprio ADN. Em vez de se sublinhar a gravidade de um enfermeiro que alegadamente viola uma paciente no recobro, a ênfase recai no azar de ter sido apanhado por causa do seu material genético.

Num país com números assustadores de violência de género, é difícil aceitar que crimes desta natureza continuem a ser comunicados com tanto mau gosto e tamanha irresponsabilidade.

Regras para comunicar crimes de violência doméstica e sexual

Depois da polémica gerada pelas infelizes declarações de Cristina Ferreira sobre a violação grupal de uma adolescente - e somando a isso tantos outros exemplos de tratamento mediático desastrado - parece-me inevitável exigir uma regulamentação urgente sobre como se noticiam estes crimes.

Se em Portugal existem regras para comunicar suicídios, então está mais do que na hora de elevar o cuidado com que se divulgam crimes de violência doméstica e sexual. As vítimas, quase sempre invisíveis, marcadas pelo trauma e pela impunidade dos agressores, estão a ler, a ver e a ouvir.

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