Sandra Fernandes, pró-reitora para a cooperação internacional da Universidade do Minho, sublinhou ao JN que a Europa "precisa da relação com os EUA", mas alertou que já não é possível encarar Washington "como nos últimos 80 anos".
A manobra de retirar militares americanos deixa a Europa mais vulnerável? Crê que a Rússia pode aproveitar-se da divisão dentro da NATO?
Rever o posicionamento de forças e a dimensão das bases não é, por si só, algo fora do normal. Trata-se de processos recorrentes: os países vão ajustando a sua presença em função da avaliação de riscos e do nível de prontidão necessário para lhes responder. Esse tipo de decisão também se relaciona com o grau de cooperação entre aliados, incluindo a planificação e realização de exercícios militares.
Com o afastamento geopolítico associado à Administração Trump, o tema torna-se mais complexo. Na prática, os europeus não dispõem de capacidade autónoma suficiente para se protegerem de um eventual ataque russo, pelo que continuam a necessitar do apoio norte-americano. Por isso, estas retiradas podem ser lidas como um sinal de menor investimento dos EUA na segurança do continente e, do ponto de vista russo, interpretadas como um indício de fragilidade.
O Governo Trump representa apenas um momento instável ou simboliza o início de uma postura mais agressiva?
Há duas leituras possíveis. Por um lado, os EUA não se resumem a Trump: existe uma parte da sociedade americana mais moderada, que continua a valorizar os ganhos da cooperação em vez do conflito e que entende que Washington beneficia de alianças sólidas à escala global.
Por outro lado, também se pode argumentar que Trump não é apenas um indivíduo. Ele materializa uma ideologia de fecho e uma atitude isolacionista que, na verdade, sempre esteve presente na história dos EUA, mas que agora se manifesta de forma mais extrema. A confirmar-se esta interpretação, estaremos perante uma tendência com vocação para perdurar.
A Europa "precisa da relação com os EUA" e acompanha com preocupação possíveis retiradas, mas, ao mesmo tempo, não pode continuar a olhar para essa ligação "como nos últimos 80 anos". Para isso, terá de ganhar autonomia, sustentada em recursos próprios.
A política com os EUA será de apaziguamento, como é o caso de Portugal, ou de confrontação, como é com Espanha?
Não caracterizaria a posição de Espanha como uma confrontação com os EUA no contexto da NATO. A Aliança não está a ser posta em causa - nem sequer pelos próprios norte-americanos. O que existe é pressão para que cada membro assuma uma parcela maior do esforço. Ainda não estamos perante uma rutura; estamos, sim, num processo de reajuste do equilíbrio das responsabilidades.
A Europa pode realmente tornar-se independente na área da Defesa?
Esse percurso já está em curso. A invasão da Ucrânia e o regresso de Trump funcionaram como aceleradores de uma vontade de reindustrialização, sobretudo no setor da Defesa. Do ponto de vista político, a opção foi tomada. E, embora os efeitos comecem a tornar-se visíveis, é evidente que ainda precisam de alcançar uma escala muito superior à atual.
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