Ricardo Araújo, presidente da Câmara de Guimarães, explica, em entrevista ao JN, as linhas de ação para dar resposta a problemas sentidos pelos munícipes e para tornar o concelho mais apelativo para os jovens.
Com 48 anos, Ricardo Araújo conquistou a presidência da Câmara de Guimarães pela coligação Juntos Por Guimarães (PSD/CDS), encerrando um ciclo de 36 anos de governação socialista. O gestor e político, licenciado em Relações Internacionais pela Universidade do Minho, tomou posse a 25 de outubro de 2025, assumindo o compromisso de imprimir um novo ritmo ao concelho, com três focos centrais: habitação, mobilidade e desenvolvimento económico. Seis meses após o arranque do mandato, o autarca social-democrata sustenta que Guimarães tem de “transformar o território” para se afirmar como um município competitivo, capaz de reter e atrair jovens e de se posicionar como referência europeia em qualidade de vida.
A Câmara vai avançar com a construção das primeiras 75 habitações públicas em Azurém, no âmbito do 1.º Direito. Há já outras a serem trabalhadas?
Sim. Para este executivo, a habitação está no topo das prioridades. É indispensável acompanhar a procura e, sobretudo, reforçar a oferta, quer no parque público, quer no privado. No domínio da habitação pública, avançamos agora com o primeiro contrato para edificar as primeiras 75 frações, e, em paralelo, já abrimos um novo edital com intenção de compra de cerca de 300 novas frações. Em simultâneo, estamos a desenvolver soluções de habitação a custos controlados em articulação com privados. A nossa ambição é mobilizar o setor privado para aumentar a oferta dirigida não apenas a quem está em maior fragilidade económica e social, mas também à classe média e aos jovens. Ao mesmo tempo, queremos imprimir maior velocidade aos processos de licenciamento, para que o investimento privado possa contribuir de forma mais eficaz para o aumento do stock habitacional.
Quantas famílias estão referenciadas com necessidade de habitação pública?
Na Estratégia Local de Habitação estão sinalizadas as famílias em situação de maior carência, mas, hoje, a questão ultrapassa largamente esse universo. Uma parte significativa das pessoas que recebo nas audiências semanais procura apoio precisamente por dificuldades no acesso à habitação. E não falamos apenas de situações de vulnerabilidade extrema: surgem também casos de classe média e classe média baixa, além de jovens. Existem muitas famílias inscritas e em lista de espera por habitação pública, mas o problema tornou-se transversal. Por isso, a resposta tem igualmente de ser múltipla, envolvendo o público e o privado.
As 75 frações agora lançadas enquadram-se no 1.º Direito, isto é, destinam-se a pessoas em maior vulnerabilidade económica e social. Porém, são necessárias soluções específicas para os jovens e para a classe média. Se o objetivo é fixar jovens em Guimarães, é essencial assegurar condições de acesso à habitação. Uma possibilidade passa, por exemplo, por promover a reabilitação de habitação no Centro Histórico orientada de forma concreta para a população jovem.
Está a decorrer a segunda revisão do PDM. Junho é apontado como a data da sua conclusão. Será cumprido o prazo?
Estamos empenhados em cumprir esse calendário. Convém sublinhar que não estamos a desencadear uma nova revisão do PDM do zero. O processo já vinha de executivos socialistas anteriores, que não o conseguiram fechar. Aproveitámos a extensão do prazo para introduzir ajustes que consideramos essenciais. Pedi aos técnicos que voltassem a analisar todas as participações apresentadas na discussão pública com um propósito claro: aumentar o solo urbano disponível, tanto para construir habitação como para acolher atividade empresarial.
Sendo a habitação uma prioridade, é determinante que o PDM permita mais solo urbano com aptidão construtiva, sob pena de a oferta não acompanhar as necessidades. Infelizmente, há sensivelmente dez anos, o anterior executivo reduziu em cerca de 30% o solo urbano. Foi um erro, e as suas consequências continuam a sentir-se. Quero que Guimarães seja um concelho competitivo, com capacidade para receber mais empresas e criar mais habitação.
A Câmara está a realizar um estudo estratégico para a captação de investimento e desenvolvimento económico. Para que servirá?
A previsão é que o estudo esteja fechado até ao final do primeiro semestre deste ano. O que se pretende é pôr em prática uma nova política económica municipal. A aposta passa por diversificar o tecido empresarial, captar investimento nacional e estrangeiro, atrair “startups” e intensificar a inovação. Guimarães dispõe de competências muito relevantes, apoiadas na Universidade do Minho, no IPCA e em laboratórios de inovação. O grande desafio é “transformar esse conhecimento em economia real.” Queremos promover emprego mais qualificado e melhor remunerado, atrair e reter jovens e tornar Guimarães um território competitivo.
A solução do metrobus para ligar Guimarães às Taipas e, mais tarde, a Braga sempre foi defendida por si. Porquê?
Mais do que prolongar a discussão sobre a opção, o essencial, neste momento, é passar à fase de execução. A escolha do metrobus assenta em três razões: exige menor investimento, permite uma implementação mais rápida e tem custos de operação e manutenção muito abaixo dos de um metro de superfície. As diferenças são expressivas: um investimento de cem milhões em metrobus poderia corresponder a 400 ou 500 milhões num metro ligeiro.
Acresce que o metrobus se ajusta melhor à orografia local, porque, sendo pneumático, lida com maior facilidade com declives e curvas. Ainda assim, existe uma condição incontornável: a via tem de ser exclusiva. Só assim se garante fiabilidade, rapidez e conforto.
Já tem financiamento para essa obra?
Ainda não está contratualizado, mas temos a garantia do Governo de que haverá disponibilidade financeira. Recebi recentemente o ministro das Infraestruturas, que se comprometeu publicamente com o financiamento da obra. Nesta fase, já lançámos o procedimento para contratar o estudo prévio.
O metrobus vai resolver os problemas de mobilidade no concelho?
Não eliminará todos os constrangimentos, mas terá um impacto muito significativo. A mobilidade em Guimarães deve apoiar-se em três pilares: a implementação do metrobus, o reforço do transporte público rodoviário e a requalificação da rede viária, incluindo novas acessibilidades.
Queremos também avançar com a gratuitidade dos transportes públicos rodoviários até ao final deste ano, alargar a cobertura da rede, aumentar frequências e criar novos horários, incluindo fins de semana e período noturno.
Completou seis meses na presidência da Câmara. Que balanço faz?
O balanço é positivo. Estamos a executar o que foi assumido e, em simultâneo, a orientar o concelho para uma transformação efetiva do território. Os três eixos prioritários mantêm-se bem definidos: habitação, mobilidade e economia.
Qual foi a herança mais difícil deixada por Domingos Bragança, anterior presidente da Câmara?
A habitação foi um dos principais fracassos que encontrei. Ao longo de anos, existiram oportunidades muito relevantes de financiamento público - incluindo apoios a 100% - que Guimarães acabou por desperdiçar. Neste momento, estamos a tentar recuperar o atraso, mas a realidade financeira já não é a mesma.
Há ainda um desafio de fundo, que transita de trás e me continua a preocupar, relacionado com a execução das obras previstas no PRR. São muitas intervenções, mas uma parte substancial está fortemente comprometida em termos de prazos; por isso, existe um risco elevado de incumprimento, que estamos a tentar ultrapassar.
É favorável à criação da Área Metropolitana do Minho?
Sou claramente favorável.
Defende uma junção das CIM do Cávado e do Ave ou crê que deve ser mais abrangente para incluir Viana do Castelo?
Numa fase inicial, considero positiva uma área metropolitana que una a CIM do Ave e a CIM do Cávado, sem fechar a porta a um eventual alargamento futuro. Estes territórios têm uma interdependência muito forte, em particular na mobilidade, no emprego e na dinâmica económica. Um exemplo evidente é o trabalho conjunto que as duas CIM já desenvolveram no âmbito da nova concessão de transportes públicos para 2028.
No âmbito do aprofundamento da descentralização, que outras competências gostaria de ver atribuídas aos municípios?
Por um lado, gostaria que qualquer atribuição de competências viesse acompanhada de reforço financeiro: não basta transferir responsabilidades, é necessário garantir o respetivo envelope financeiro. Nas transferências realizadas nas áreas da educação e da saúde, posso assegurar que, neste momento, o município suporta despesas superiores às verbas que recebe do Estado para exercer essas competências.
Ainda assim, entendo que, para além de mais competências, é sobretudo necessário acelerar e simplificar procedimentos. Dou um exemplo concreto na habitação: os municípios podiam e deviam dispor de mais competências e de maior capacidade para, com maior facilidade, aumentarem a oferta pública de habitação.
É obrigatório rever a lei das finanças locais?
Chegou o momento de fazer essa revisão.
Outros temas
Creches
Estão previstos 200 lugares em creche e berçário para colmatar a falta de vagas. O autarca refere que esses lugares serão criados em parceria com IPSS e centros sociais. Acrescenta que, este ano, está a ser investido meio milhão de euros para abrir 60 a 70 novas vagas em berçário e que, no próximo ano, esse trabalho terá continuidade.
Capital Verde
Guimarães é, este ano, Capital Verde Europeia. O presidente da Câmara defende que esta distinção deve deixar um legado ancorado no “compromisso permanente com a sustentabilidade”. Guimarães “tem feito um percurso importante nas últimas décadas, mas ainda há muito trabalho pela frente”.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário