Novos números do INE e o fim do apagão estatístico
A alteração da metodologia do INE veio, finalmente, fechar um período de apagão estatístico. De acordo com estes novos cálculos, Portugal terá 11,4 milhões de residentes, dos quais 1,6 milhões são estrangeiros - 14% da população total. Entre 2021 e 2025, a população estrangeira mais do que terá duplicado, e o total de habitantes apurado é, por si só, surpreendente.
Estes valores não são um detalhe: obrigam a recalcular e a repensar indicadores como camas hospitalares por habitante, professores por aluno, e contribuintes por beneficiário da Segurança Social. (Sobre o impacto no PIB per capita e sobre a metodologia utilizada, aconselho a leitura do texto de Susana Peralta.) Sendo números com consequências diretas em toda a política pública, devem ser analisados para lá do debate partidário.
Como explicou o presidente do INE, não é fácil contabilizar as saídas para o espaço Schengen - e essas saídas terão sido relevantes. Ainda assim, este será o retrato mais sólido produzido até hoje.
Saldo migratório em 2025 e a leitura política dos dados
Há, porém, outra prudência necessária: a forma como estes dados são instrumentalizados politicamente. Segundo o estudo, o saldo migratório desceu para 71 mil, em 2025, ou seja, cerca de um terço dos 217 mil de 2024. O Governo atribuiu a quebra às novas regras introduzidas em 2024.
Só que os dados da Segurança Social sugerem outra cronologia: a descida terá começado antes das alterações legislativas. Além disso, o número de saídas de estrangeiros duplicou em dois anos, e vem a aumentar há sete.
Quando se cruza esta evolução com a atividade económica, o paralelismo é difícil de ignorar. O PIB português cresceu 7% em 2022, ano de explosão migratória. Em 2023, cresceu 2,6%. Em 2024, 1,9%. O crescimento e o abrandamento económico e o crescimento e abrandamento migratório coincidem.
Declarações sobre imigração e capacidade de planeamento do Estado
Só por ignorância (ou pela costumeira má-fé) é que o ministro Leitão Amaro pode afirmar que se nada fosse feito os imigrantes seriam, numa década, metade da população, como se a chegada de pessoas fosse independente do número de empregos disponíveis.
É inquietante que quem tutela a política de imigração raciocine de forma tão elementar - ou que presuma que nós o faremos. Para que os imigrantes chegassem a metade da população, Portugal teria de ter o nível de prosperidade do Luxemburgo, Emirados, Singapura, Austrália ou Suíça. Um pesadelo, portanto.
Serviços públicos, escolas e a demografia: o que muda com 14%
É certo que uma entrada acelerada de imigrantes pressiona serviços que não estavam preparados. Entre 2017 e 2024, o número de alunos estrangeiros nas escolas subiu de 42 mil para 172 mil. Os serviços públicos foram planeados para um país em declínio populacional, e a pergunta passa a ser se continuamos a planear o País para um deserto demográfico.
Há ainda a discussão sobre a viabilidade de adaptação quando se somam mais 700 mil pessoas em três anos. Ainda assim, o índice de envelhecimento agravou-se: em 2021 existiam 178 idosos por cada 100 jovens, número que passou para 189 em 2025, com um salto expressivo no último ano, precisamente quando o saldo migratório caiu.
Entretanto, a população ativa cresceu de 63,7% para 64,3%, quase apenas por via dos imigrantes. É esta população ativa adicional que ajuda a financiar o Estado. Sem ela, a pirâmide demográfica estaria ainda mais desequilibrada, a Segurança Social sofreria maior pressão e setores inteiros da economia deixariam de funcionar. A questão não é se 14% é demais. É o que seria sem eles.
Consequências políticas, composição da imigração e o caso de Odemira
Não é possível ignorar o efeito político desta transformação. Existe uma correlação entre a percentagem de população estrangeira e o voto no Chega nas legislativas de 2025 - o coeficiente de Pearson é de 0,36. Em termos gerais, os concelhos com mais imigrantes tendem a registar mais voto no Chega.
Mas é importante perceber o alcance desse vínculo: esta correlação explica 13% da variação do voto no partido. Há concelhos com muitos imigrantes e pouco Chega - Lisboa, Porto, Oeiras, Coimbra - e há concelhos com poucos imigrantes e muito Chega - Moura, Monforte, Salvaterra de Magos.
Quanto ao argumento do choque cultural, 54% dos imigrantes vêm de países lusófonos (sobretudo Brasil). Já os grupos de que se alimentam os incendiários, vindos da subcontinente indiano, representam 15%.
Um cenário de 52% de estrangeiros, como o que é registado em Odemira, é impraticável de gerir. Mas o problema, em Odemira ou em vários concelhos do Algarve, não é a imigração em si. É o modelo económico.
A criação de emprego concentrou-se no turismo, na agricultura intensiva e sazonal, na construção, na logística e nos serviços urbanos de baixa remuneração. São setores com grande absorção de mão de obra, baixa produtividade, salários médios reduzidos e elevada rotatividade. Este padrão corresponde a uma economia extrativista: retira recursos, sobrecarrega infraestruturas públicas e sustenta a competitividade em trabalho barato.
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