Saltar para o conteúdo

Vendas de carros chineses em Portugal: o que revelam os números de 2024

Carro elétrico branco moderno estacionado em espaço interior com gráficos num ecrã ao fundo.

A quantidade de marcas chinesas que aterrou no mercado português nos últimos tempos é tal que só não lhe perdemos o rasto porque temos a obrigação de não deixar nenhuma para trás. E não deixámos. Em jeito de recapitulação: BYD, MG, XPeng, Dongfeng, Leapmotor, Aiways, Forthing, Voyah, M-Hero e Maxus*.

Depois de muitos anos a escrever e a falar quase sempre sobre as mesmas insígnias - várias delas com mais de 100 anos de percurso -, a verdade é que a “turma” ganhou novos alunos. Alguns parecem bastante promissores, outros ainda estão a acertar o passo, mas quase todos já chegaram com trabalho feito.

Sei bem que é injusto meter todas as marcas chinesas no mesmo «saco». Não são todas iguais, não têm a mesma escala, nem sequer ocupam o mesmo lugar no mercado. Ainda assim, esse olhar mais refinado continua a não existir.

Diferenciação das marcas chinesas em Portugal

Talvez com a excepção da BYD (tecnologia) e da MG (preço), as restantes continuam, em grande medida, sem grande significado (ou diferenciação) aos olhos de quem compra. Para cada uma, o teste vai ser provar que não é “farinha do mesmo saco”. E é precisamente nessa diferença que está um dos desbloqueadores de vendas.

Até porque, nesta fase inicial, a entrada ruidosa de cada marca - ainda por cima amplificada pela dicotomia política e económica China/Ocidente - pode bastar, mas não vai durar para sempre. E feitas as contas, as marcas chinesas vendem muito ou vendem pouco?

Será isto um caso de “muita parra e pouca uva” ou de “paciência de chinês”? Deixando os provérbios de lado, vale a pena procurar a resposta nos números. Sem os “torturar”, eles costumam dizer a verdade e indicar caminhos. É isso que tentamos fazer na Razão Automóvel.

As vendas de carros chineses em Portugal

Tal como disse no início, estamos a entrar na recta final de 2024 e, por isso, já dá para olhar para dados concretos.

Quando, mais tarde, fizermos a leitura em retrospectiva, 2024 deverá ficar marcado como o ano em que as marcas chinesas chegaram em força a Portugal - mas dificilmente será lembrado como o ano em que subiram a tabela de vendas nacional.

Se isso vai acontecer? Não vou insistir nos mesmos argumentos. Já deixei a minha opinião noutro artigo; aqui, o foco são os números actuais.

Com base nos dados divulgados pela ACAP - vendas acumuladas até ao final de outubro - é preciso descer mais de 20 marcas para encontrar as primeiras chinesas: BYD e MG.

Pode dizer-se que, se caixas de comentários nas redes sociais contassem como vendas, a posição seria bem mais alta. Mas estes são números que, como já referimos, não explicam tudo.

O peso dos 100% elétricos na leitura das vendas

Se tirarmos da equação os automóveis com motor de combustão e olharmos apenas para os 100% elétricos, por exemplo, a BYD já aparece no top 5. E, se o futuro do automóvel for 100% elétrico - não estou a defender que será -, isto revela muito sobre o potencial de penetração das marcas chinesas.

Encontrar paralelo noutros mercados

Olhar para Espanha é, sem dúvida, tentador. Ainda assim, o comportamento desse mercado é muito diferente do português: da fiscalidade às preferências dos consumidores.

Espanha: MG no top 15 e Omoda em subida

Por lá, encontramos a MG, de «pedra e cal», no top 15 e uma outra marca chinesa a crescer depressa: a Omoda.

Temos um artigo mais profundo sobre a sua ascensão nesta ligação:

Europa: quota, elétricos chineses e tarifas da UE

Alargando a análise à Europa e olhando para o mercado como um todo, em 2023 as marcas chinesas representavam aproximadamente 2,5% do mercado.

Mais uma vez, quando entramos em maior detalhe e filtramos apenas carros elétricos, a percentagem sobe: no segundo trimestre de 2024 (abril-junho), a quota de mercado dos veículos elétricos chineses na Europa atingiu 14,1%.

Independentemente do ângulo, há uma tendência clara de crescimento - ainda mais veloz quando falamos de veículos 100% elétricos. Foi este número que levou a UE a avançar com as conhecidas tarifas sobre os carros elétricos produzidos na China.

Se vão dominar o mercado? Talvez esse nem seja o principal foco de preocupação das marcas ocidentais (pelo menos para já…).

Para já, a preocupação é outra: as vendas não estão a crescer, logo o avanço das marcas chinesas está a acontecer à custa da quota das marcas já estabelecidas. A nível mundial, o cenário em 2023 foi este:

Estamos, por isso, a assistir a um período de ajuste no mercado automóvel. Se a história terminar bem, acontecerá algo semelhante ao que já vimos antes, primeiro com as marcas japonesas e depois com as marcas coreanas: entram, adaptam-se, começam a produzir na Europa e o mercado encontra um novo equilíbrio. Os chineses têm tempo e a Europa não tem outra hipótese.

Quando tivermos os números finais do mercado automóvel em 2024 - tanto de Portugal como da Europa - voltaremos a este tema. Gosto sempre de confirmar como é que as minhas previsões falham.

Antecipando algum comentário, não me esqueci da KGM. Simplesmente porque a KGM não é chinesa, é sul-coreana. É uma marca conterrânea da Hyundai e, sobretudo da Kia, com quem partilha o importador em Portugal, a Astara.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário