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Torpedo no Rossio: a fuga de Gilles Bertin após o assalto à Brink’s contada em “Trinta Anos a Monte: A Minha Vida Punk”

Homem com cabelo encaracolado a folhear discos de vinil numa loja vintage de música.

No arranque dos anos 90, a Torpedo - a loja de discos instalada na Estação Ferroviária do Rossio - tornou-se paragem obrigatória para uma geração de melómanos lisboetas. Do lado de lá do balcão, estavam Cecilia, catalã, e o companheiro, Gilles. Para quem entrava, ele parecia apenas discreto; por trás dessa reserva, porém, escondia-se um passado criminal - e uma vida improvável, aqui reconstituída por quem com ele conviveu.


Em 27 de abril de 1988, uma equipa de cerca de uma dúzia de homens assaltou um armazém da Brink’s, empresa de transporte e gestão de valores, em Toulouse, França, levando a cabo um plano preparado ao longo de quase dois anos. O golpe, executado com disfarces e sem um único disparo nem feridos, rendeu uma soma gigantesca: 11 milhões, 751 mil e 316 francos, o equivalente a cerca de 2 milhões e 600 mil euros ao câmbio atual. Ao fim de dois anos, as autoridades apanhariam quase todos - mas o paradeiro do dinheiro continuaria um mistério. A palavra decisiva é “quase”: um deles, Gilles Bertin, escapou durante três décadas. E, no seu caso, sabe-se ao menos onde foi parar uma parte do saque: serviu para abrir uma loja de discos em Portugal.

A reviravolta está tão longe do cliché cinematográfico do assaltante - sem ilhas tropicais, sem carros de luxo, sem relógios caros - que quase soa a anedota. Ainda assim, na altura, a história passou completamente (ou quase, como se perceberá mais adiante) ao lado de quem lidava com Bertin, quer em convívios privados, quer no quotidiano da Torpedo, que geria com a companheira Cecilia no Rossio. O próprio Gilles acabaria por pôr tudo no papel em “Trinta Anos a Monte: A Minha Vida Punk”, autobiografia publicada em França em 2019, ano em que morreu, e editada agora em português pela Associação Chili Com Carne.

Esse relato surge já depois de se entregar às autoridades francesas, exausto de anos passados a viver em sobressalto e também desgastado pela doença maldita - a sida - contraída no período em que foi dependente de heroína e que lhe custou o olho esquerdo. No livro, o ponto de partida é 2016, em Barcelona - cidade para onde Gilles e a catalã Cecilia se mudaram após deixarem Lisboa - no dia em que ele sai de casa, despede-se da companheira e do filho de ambos, Tiago, então com apenas cinco anos. A decisão, tomada a dois, teve Tiago no centro, tal como Loris, filho de uma relação anterior. “Atabalhoadamente, tento explicar à juíza que me entreguei para permitir ao meu filho e à sua mãe viverem vidas normais, e que não sou um charlatão nem um mentiroso”, lemos.

O desfecho judicial foi muito melhor do que o previsível: cinco anos de prisão, com pena suspensa, apesar de, em 2004, ter sido condenado a 10 anos de prisão efetiva à revelia. A paranoia, uma vez terminada, deu lugar ao alívio de uma vida minimamente “normal” - e ao choque com a burocracia, descrito com humor em “Trinta Anos a Monte”. Como fora dado como desaparecido, não conseguia renovar o bilhete de identidade, precisamente a identidade que escondera durante tantos anos e que queria recuperar. “O senhor não existe e portanto eu não posso fazer nada por si”, ouviria no registo civil.

Era uma vez em Bordéus

Houve um tempo em que Gilles era mesmo Gilles, de apelido Bertin: cantor de uma banda punk de Bordéus que acabaria por gerar ruído e estatuto de culto nos circuitos ‘oi!’, a vertente do género mais ligada à classe operária. Chamavam-se Camera Silens, nome inspirado nas celas de isolamento sensorial onde, anos antes, tinham sido detidos membros do grupo Baader-Meinhof, e a música seguia essa pulsão politizada, sobretudo anarquista. Gilles lia Guérin, Kropotkine, Bakunine, Malatesta e Proudhon e apresentava-se como alguém com consciência de classe. “Na minha cabeça, é evidente que pertenço à classe operária, mesmo que eu seja um atado da pior espécie e nunca tenha rebentado os pés no chão de uma fábrica”, escreve, acrescentando - também por ter um pai comunista - que esse vínculo ao mundo operário era “uma coisa cultural”.

Quando a explosão punk, detonada no Reino Unido por volta de 1976, se propagou pelo continente europeu nos anos seguintes, Gilles ficou preso tanto às ideias como, sobretudo, ao som. The Clash, Ramones, Buzzcocks, Sham 69, UK Subs: para ele e para milhares de jovens, era a fórmula de três acordes, a frontalidade, e a mesma ausência de futuro que os Sex Pistols gritavam. Nessa fase, que ele próprio apelida de “os anos da palhaçada”, viaja com amigos a Inglaterra para ver os Damned, inicia o consumo de heroína, tenta abandonar o vício, grava algumas canções e assiste ao baleamento no peito de um dos camaradas mais próximos, antes de ser detido por furto. O primeiro confronto a sério com o Estado resulta em nove meses de prisão, cumpridos em Gradignan, cadeia de alta segurança em Bordéus.

É ali que conhece Iñaki, basco em fuga do franquismo, que mais tarde integrará o seu círculo numa série de crimes, antes do assalto em Toulouse. Cá fora, entretanto, Gilles cruza-se com Nathalie, que viria a ser mãe do seu primeiro filho, Loris. Ambos ficariam para trás quando Gilles e os comparsas escapam para Espanha. Em Barcelona, conhece Cecilia Miguel, estudante de jornalismo que o acompanharia até ao fim, e entra em contacto com a ebulição do rock alternativo e independente - herdeiro direto do punk - que marcaria o final dos anos 80 e o início dos anos 90: Nirvana, Mudhoney, Sonic Youth, Pixies. Foi aí que lhe entrou o impulso de criar uma loja de discos.

“Ele era alguém com muito magnetismo”, diz hoje Cecilia ao Expresso. “Tinha algo de puro, de autêntico.” Em Portugal, Cecilia foi das raras pessoas que souberam desde o início quem Gilles era verdadeiramente. “Estava com um amigo francês, que me apresentou ao Gilles e ao Philippe. Ele disse-me, imediatamente, quem era e o que fazia. Soube, desde o primeiro momento, que tinha feito um assalto e que se encontrava em fuga”. Philippe é Philippe Rose, amigo de Gilles e também envolvido no assalto à Brink’s; a sua detenção em Valência precipitou a ida do casal para Portugal.

Num dos trechos mais afetivos de “Trinta Anos a Monte”, Gilles descreve o esforço de Cecilia para o pôr a aprender espanhol com recurso a livros. “Interesso-me, mas pouco convicto, pelas obras de García Márquez, de Borges e de Cortázar”, conta. A tal “salvação” aparece, inesperadamente, com Tolkien e “O Senhor dos Anéis”. “Ele ampliou o seu leque de gostos; sempre teve, e continuou a ter, uma inclinação pela ficção científica”, diz Cecilia. Mais tarde, ao mudarem-se, o castelhano dá lugar ao português, e o casal decide inscrever-se em aulas. “Foi a primeira coisa que fizemos. A única maneira de estar dentro de uma sociedade é falar a língua”, sublinha.

Amigos em Portugal

Nos primeiros anos da década de 90, Lisboa tinha um lado estranho e quase encantatório: mesmo com promessas por cumprir, a Revolução de Abril trouxera um clima de liberdade a uma cidade e a um país que antes pareciam presos ao mesmo fado triste que exaltavam. “Era muito diferente da Catalunha. Foi uma descoberta. Havia mais liberdade de pensamento, eram menos politizados”, defende Cecilia. “Sobretudo no meio musical em que estávamos inseridos. Havia mais sabedoria, mais conhecimento do mundo. O que me surpreendeu, vinda da universidade, onde estudava jornalismo, foi a diferença ao nível da cultura. A Espanha política corrompia tudo, e isso limita muito a mente. Em Portugal encontrei liberdade.”

Lisboa foi sempre a escolha número um: o casal já tinha feito férias em Portugal poucos meses antes da mudança definitiva; acabaram por se instalar em São João do Estoril e, pouco depois, abriram a Torpedo. No livro, Gilles descreve o encanto pelo que descobriu na capital, desde o simples facto de a televisão passar episódios de “Monty Python’s Flying Circus” e “Blackadder”, à influência do programa do falecido António Sérgio na rádio, sem esquecer o então semanário “Blitz”. “Mesmo que o fado seja sem dúvida a música mais triste do mundo, aos portugueses não lhes falta nem humor nem espírito rock and roll”, escreve.

A vida em Portugal foi tranquila até ao dia em que um francês lhe entra na loja e o questiona: “Tu és o cantor dos Camera Silens, não és?”

João Rolo, antigo funcionário da editora MVM e testemunha intensa desse tempo, descreve a Torpedo como “brutal”. A loja funcionava quase como um refúgio dentro de um circuito onde existiam espaços como a Bimotor ou a Palladium; o que a distinguia, face à concorrência, “era a música, mesmo”. Havia discos de artistas da linha abstémia, uma secção forte de reggae e escolhas como Flipper, Big Black ou Gun Club. “Eram uma lojeca, de 12 por 4 metros, e a [concorrente] Bimotor preocupava-se com o que os gajos tinham”, brinca Rolo.

A curadoria musical chamava todo o tipo de devotos do som, gente para quem a melomania não é passatempo, mas identidade. Naquela “lojeca” tanto se encontravam seguidores de metal negro como nomes centrais do alternativo português, entre eles Elsa Pires, fundadora (já falecida) da editora Bee Keeper. Quem atendia eram Cecilia e Gilles, que a certa altura passou até por “Jim” e chegou a ser tomado por escocês, depois de uma gafe linguística envolvendo o casal e outro duo: Luís Futre (primo de Paulo, o futebolista, vocalista do Jardim do Enforcado, colecionador, figura maior do rock lisboeta dos anos 90 e cofundador da Groovie Records, em Lisboa) e Ondina Pires (pioneira do punk nacional, vocalista dos Great Lesbian Show, escritora e crítica musical). O episódio aparece no livro e na BD que o encerra e começa com Futre, depois de andar às voltas pelo Rossio, a telefonar para a Torpedo com a frase: “Mas onde é que está a puta da vossa loja?”

“Esse relato é verdadeiro. Aquele trocadilho que eu faço, com Gilles e Jim, foi porque o gajo era alto, loirinho, ter um ar entre o nórdico e o inglês”, confirma Futre. E lembra o impacto da primeira visita: “Quando me abrem a porta, vejo discos completamente estapafúrdios, coisas impensáveis de se ver no mercado português”, diz. “Dentro da cena alternativa, o mercado português andava muito à volta do pós-punk, de todo aquele imaginário da 4AD. A Torpedo rompeu com aquilo tudo; como não tinham conhecimento do mercado português, trouxeram material que tinha mais ou menos a ver com o francês e o espanhol.”

Um passado a esconder

O peso da Torpedo na cidade deu ao casal Gilles-Cecilia um conjunto vasto de amizades duradouras. Entre elas, Paulo Abreu, então aluno de fotografia na ArCo (onde mais tarde viria a lecionar), autor de algumas das imagens mais íntimas da fase portuguesa de Gilles Bertin. Paulo conheceu Cecilia numa festa na Parede, em casa de um amigo comum, e acabou por viver com a namorada, Britta (hoje esposa), numa casa em São João do Estoril perto da deles. “Ele falava, participava nas conversas, mas era reservado. Achávamos que era tímido”, diz. “Era desconfiado das forças de autoridade, mas era só isso que sabíamos.”

Paulo recorda a Torpedo como um espaço “com uma frequência muito gira, muito alternativa, com pessoas muito respeitosas”. “Estive lá na altura dos Nirvana e eles já sabiam que aquilo ia explodir”, conta (e, no livro, Gilles diz ter visto com Cecilia a única passagem da banda de Kurt Cobain por Portugal, no Dramático de Cascais). “Era um recanto espetacular, com fanzines, anúncios de todos os concertos, a cena alternativa de Lisboa... Estava lá tudo”.

Apesar de ter sido visto por muita gente ligada à música em Lisboa, a verdadeira identidade de Gilles Bertin nunca foi desvendada. Até ao momento em que um francês, português de origem, entra na loja e lhe atira a pergunta: “Tu és o cantor dos Camera Silens, não és?” O rumor começou a circular e Gilles e Cecilia tentaram abafá-lo. “O que tentámos fazer foi negá-lo. É como quando estás numa esquadra e te perguntam: ‘mataste fulano?’”, explica hoje Cecilia. “Quando se está em fuga, a paranoia é constante. Felizmente, não aconteceu nada.”

Futre lembra que, durante os anos em Portugal, Gilles Bertin usava sempre t-shirts de manga comprida para ocultar as muitas tatuagens. “Ele nunca mostrou os braços. Só percebi isso uma vez, quando fui dormir a casa deles”, conta. “[As tatuagens] são uma coisa que denuncia logo, não é? O gajo que lhe visse os braços e reconhecendo mais ou menos o rosto...” Futre foi também uma das pessoas a quem Cecilia tentou travar a propagação da história que se ouvia por aí, de que a Torpedo seria “um covil de terroristas”, acusação atribuída a alguém da concorrência. “Contou-me a história toda do assalto e, quando chegou ao fim, disse-me que se a ouvisse era tudo mentira”, recorda.

João Rolo, por sua vez, só viria a perceber quem ele era através do Facebook, já muitos anos depois. “Diziam-me que o gajo era etarra. A vida pessoal das pessoas não me interessava para nada, só a música”, afirma. Com Paulo Abreu aconteceu algo semelhante: apenas soube da verdade após Gilles Bertin se entregar à justiça. “Sabíamos que havia qualquer coisa, mas eu não sabia a história que estava por trás”.

Anarquista, amigo, pai

A meio da década de 90, Gilles Bertin recebe a notícia que ninguém quer: o teste de VIH deu positivo. Ainda hoje, Cecilia insiste em reconhecer o papel do Serviço Nacional de Saúde português no acompanhamento de Gilles. “Tomaram conta dele de uma maneira inacreditável. Salvaram-no”, garante. “Não morreu graças aos médicos portugueses.” A doença acabaria por lhe tirar o olho esquerdo, mas não impediu que, anos depois, já de volta a Barcelona, tivesse um filho com Cecilia.

Depois da mudança, Paulo Abreu e Britta mantiveram a ligação ao casal. O fotógrafo e professor fala com carinho dos fins de semana partilhados com Gilles e Cecilia. “Fizemos algumas viagens à Barragem do Zêzere, porque tínhamos um amigo que tinha lá casa”, recorda, descrevendo também a profundidade das conversas com Gilles, alguém com enorme bagagem cultural. “Ele tinha aquele ar de punk, mas falávamos tanto do negócio, como de política, de livros... Ele era antiestablishment, tinha uma desconfiança muito saudável, diria, das forças da ordem, da corrupção que às vezes pode haver desse lado.”

Em 2016, apesar dessa desconfiança, Gilles decide avançar e entregar-se - expondo ao mundo, e a quem com ele privou, a sua identidade real. Perguntámos a Cecilia se, depois de tantos anos em fuga, ele chegou a sentir paz. “Só ele poderia responder a isso”, diz. Quanto ao interesse persistente pela história, Cecilia olha também para o lado humano: “Estou muito feliz pelo Loris, o seu filho mais velho, que esteve muito tempo sem pai e se reencontrou com ele. É uma pena que Gilles tenha morrido. Poderia ter continuado a compor, a escrever…”

Talvez tivesse, de facto, acrescentado capítulos a “Trinta Anos a Monte”, tão duros quanto as palavras que dedicou ao momento de enfrentar a justiça: “Acontecia-me muitas vezes pensar na morte, representá-la. Mas render-se, mesmo que tenhamos falado disso muitas vezes, continuava a ser do domínio do abstrato (…) Prefiro explicar aos meus filhos: ‘Eu fiz asneiras, mas vou pagá-las’, em vez de continuar a assumir um passado que já não se parece comigo.” Gilles Bertin: punk, anarquista, assaltante, fugitivo, comerciante, amigo culto, seropositivo, pai. Uma lista de rótulos que serve para lembrar que ninguém cabe numa única gaveta - e que, talvez, nessa instabilidade exista uma ideia de liberdade.

Fotografias disponibilizadas pela Associação Chili Com Carne

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