Um estudo realizado no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira concluiu que, além da prevalência de cáries, cerca de um terço dos reclusos vive com desconforto psicológico associado à saúde oral.
De acordo com uma investigação da CESPU, publicada no EuropeanJournalofDentistry, a elevada incidência de cáries (68%) e o peso psicológico ligado à saúde oral entre reclusos de Paços de Ferreira estão a afetar de forma relevante a qualidade de vida desta população, reforçando a necessidade de medidas urgentes de prevenção e de reforço de cuidados em meio prisional.
Como foi conduzido o estudo da CESPU em Paços de Ferreira
A investigação, desenvolvida por investigadores do Instituto Universitário de Ciências da Saúde da CESPU, avaliou 103 reclusos. Os dados apontam para uma realidade em que quase um terço (29,6%) relata desconforto psicológico relacionado com a saúde oral e 24,3% refere dor física frequente.
Para Maria dos Prazeres Gonçalves, co-orientadora do estudo, estes resultados espelham um problema estrutural. "O que explica esta prevalência tão elevada é mesmo a falta de vigilância por parte da consulta de medicina dentária. Muitos destes indivíduos disseram que nunca tinham ido ao médico dentista", afirma.
O trabalho teve como ponto de partida uma componente académica realizada por estudantes, no âmbito da medicina comunitária, dentro do próprio estabelecimento prisional. "Temos estagiários que todos os anos estão no terreno e desafiámos uma aluna a recolher dados para a sua tese. O trabalho acabou por resultar num estudo muito relevante", explica Maria dos Prazeres Gonçalves.
A recolha de informação integrou questionários sociodemográficos, dados sobre hábitos de saúde e uma observação clínica pormenorizada da cavidade oral, o que permitiu relacionar diretamente a presença de doença oral com a qualidade de vida. "Não nos limitámos à avaliação clínica. Procurámos perceber de que forma a saúde oral impacta o dia a dia destas pessoas", acrescenta.
Entre os fatores mais marcantes identificados surgem a higiene oral insuficiente e o consumo de tabaco. "Os hábitos de higiene oral são muito maus. Raramente escovam os dentes e, quando o fazem, é apenas uma vez por dia. Não utilizam fio dentário nem outros meios auxiliares", descreve a co-orientadora do estudo, salientando ainda o contributo do tabaco para a degradação dos tecidos orais e para o enfraquecimento do sistema imunitário.
Implicações da falta de dentes
Os efeitos da saúde oral não se limitam ao plano físico. "Problemas como a falta de dentes ou doença periodontal (infeção bacteriana que afeta os tecidos de suporte dos dentes) geram dor, dificuldade em mastigar e até em sorrir. Isto tem implicações diretas na alimentação, mas também na autoestima e nas relações sociais", afirma.
Entre os problemas mais graves observados, a perda dentária destaca-se. "Havia muitos reclusos com falta de dentes. Em 103 indivíduos, 12 eram totalmente desdentados", revela, indicando a periodontite (infeção gengival grave e crónica que destrói o tecido mole e o osso de suporte dos dentes) como uma das causas mais relevantes.
A investigadora chama também a atenção para o padrão de acesso reduzido a cuidados antes da reclusão. "A maioria referiu que só recorria ao dentista em situações de dor extrema. A medicina dentária preventiva praticamente não existia no percurso destas pessoas."
"O sorriso é um cartão de visita"
O problema tem também consequências ao nível da reintegração. "O sorriso é um cartão de visita. A ausência de dentes afeta a autoconfiança e pode dificultar a procura de emprego", alerta.
Perante estes resultados, os autores defendem alterações de base nas políticas de saúde prisional. "É fundamental garantir acesso regular a consultas de medicina dentária, promover programas de educação para a saúde oral e apostar na prevenção", sublinha Maria dos Prazeres Gonçalves, acrescentando que são necessários "mais profissionais, mais rastreios e mais campanhas".
Recomendações
A investigadora reconhece que existem soluções que podem ser adaptadas ao contexto prisional, incluindo disponibilização de materiais seguros de higiene. "Existem escovas adequadas que não representam risco. Cabe às entidades avaliar e encontrar soluções."
O estudo abre ainda perspetivas para novas linhas de investigação. A equipa pretende ampliar a análise a outras dimensões, incluindo hábitos alimentares e o impacto psicológico da reclusão na saúde oral. "A saúde oral pode e deve ser articulada com áreas como a psicologia. Há uma relação clara entre estados emocionais e comportamentos de higiene", conclui.
A maioria apresenta doenças orais significativas
O estudo conduzido pela equipa de investigadoras da CESPU descreve um quadro preocupante no que toca à saúde oral e ao bem-estar psicológico da população prisional masculina em Portugal. Desenvolvida no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, entre outubro de 2023 e junho de 2024, a investigação avaliou 103 reclusos e concluiu que a maior parte apresenta doenças orais relevantes, com repercussões diretas na qualidade de vida.
De acordo com o artigo, "68,0% dos participantes foram afetados por lesões de cárie", sendo a perda dentária o elemento mais expressivo. Em termos médios, cada recluso apresentava 13 dentes em falta - um indicador que, segundo as investigadoras, está estreitamente ligado a limitações funcionais, dor e desconforto psicológico.
"Desconforto psicológico"
A equipa - constituída por Diana Meireles, Paulo Rompante, Rosana Costa, Filomena Salazar, Marco Infante da Câmara, Maria dos Prazeres Gonçalves e Marta Relvas - recorreu ao questionário OHIP‑14, que avalia o impacto da saúde oral na qualidade de vida. Os resultados indicam que o domínio mais afetado foi o desconforto psicológico, sentido "frequentemente" ou "muito frequentemente" por 29,6% dos reclusos. Em seguida surge a dor física, reportada por 24,3% dos participantes.
O estudo assinala igualmente uma prevalência elevada de comportamentos de risco: 72,5% dos reclusos eram fumadores, sendo que muitos consumiam mais de 20 cigarros por dia. Os investigadores observaram que os fumadores pesados apresentavam uma pior qualidade de vida em praticamente todas as dimensões analisadas.
Outro aspeto considerado relevante prende-se com a forma como os próprios reclusos avaliam a sua saúde oral: quase 40% classificou-a como "má", e este grupo registou os resultados mais desfavoráveis em todos os indicadores de qualidade de vida.
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