A ST Engineering, estaleiro de Singapura, realizou em 27 de janeiro de 2026 a cerimónia de colocação de quilha da segunda fragata porta-drones “Multi-Role Combat Vessel” (MRCV) destinada à Armada da República de Singapura (RSN). O evento representa mais um passo dentro do programa que prevê seis navios desta classe, concebidos para atuar simultaneamente como plataformas de combate de superfície e como navios-mãe para sistemas não tripulados.
A empresa assinalou o marco nas suas redes sociais, referindo o parceiro do programa, a Defence Science and Technology Agency (DSTA), embora sem divulgar detalhes adicionais sobre a cerimónia. No comunicado, a ST Engineering sublinhou: “Isto assinala um marco importante que garante um progresso robusto do programa e uma base sólida para o restante dos navios da classe. Com base na nossa experiência comprovada em construção naval, concebemos e construímos navios capazes e resilientes para responder às exigências operacionais das marinhas modernas.”
Principais marcos do programa MRCV e substituição da classe Victory
O arranque da construção desta segunda unidade soma-se a uma sequência de etapas já cumpridas no programa MRCV. Em abril de 2025 ocorreu o corte de aço correspondente a este navio e, em outubro do mesmo ano, a ST Engineering realizou o lançamento à água da RSS Victory, a primeira fragata da classe, nas instalações do estaleiro de Benoi.
A RSS Victory é a primeira de seis unidades que irão substituir de forma progressiva as corvetas lança-mísseis da classe Victory, ao serviço da RSN desde 1989.
Fragatas Multi-Role Combat Vessel (MRCV) e a proteção das SLOCs de Singapura
As fragatas MRCV foram desenhadas para reforçar a capacidade de Singapura em proteger as suas linhas de comunicação marítimas (Sea Lines of Communication – SLOCs), consideradas críticas para manter o fluxo contínuo de bens, serviços e energia. Nesta lógica, a RSN pretende dispor de meios capazes de operar tanto no seu entorno marítimo imediato como a distâncias maiores, contribuindo também para a arquitetura de segurança regional e para esforços internacionais ligados à liberdade de navegação.
Conceito e dimensões: fragata moderna e navio-mãe para sistemas não tripulados
Do ponto de vista conceptual, o MRCV reúne as capacidades típicas de uma fragata atual com a função de plataforma de apoio e controlo de sistemas não tripulados. Com 150 m de comprimento, 21 m de boca e um deslocamento próximo das 8 000 t, é o navio de guerra maior e mais complexo construído até hoje em Singapura.
O projeto prevê uma autonomia superior a 7 000 milhas náuticas (cerca de 13 000 km) e uma permanência no mar de mais de 21 dias, o que duplica o raio de ação operacional das fragatas da classe Formidable atualmente em serviço.
Operação de USV, UAV e AUV: mais vigilância e ação com menos navios tripulados
Estas características permitem que uma única unidade MRCV possa lançar, operar e controlar veículos de superfície não tripulados (USV), aeronaves não tripuladas (UAV) e veículos submarinos autónomos (AUV), ampliando de forma significativa a sua capacidade de vigilância e intervenção nos domínios aéreo, de superfície e submarino.
Segundo os responsáveis pelo programa, esta integração de sistemas não tripulados torna possível que uma fragata MRCV execute missões que, hoje, exigiriam a presença de vários navios tripulados.
Sensores, CMS e armamento para cenários de alta intensidade
No domínio do combate, os MRCV serão dotados de sensores e sistemas de armas orientados para cenários de alta intensidade, além de poderem assumir funções de navio de comando em apoio a missões das Forças Armadas de Singapura (SAF).
Entre os sistemas previstos está um Sistema de Gestão de Combate (CMS) desenvolvido localmente pela DSTA, incorporando capacidades avançadas de fusão de informação e apoio à decisão. O pacote de sensores inclui radares multifunções e de controlo de tiro da Thales, sistemas eletro-ópticos da SAFRAN, sonar de casco e funcionalidades específicas de cibersegurança.
Quanto ao armamento, a configuração anunciada integra: - canhão STRALES de 76 mm; - sistemas de armas remotamente controlados MK30-C de 30 mm; - mísseis superfície-ar MICA e ASTER; - e um sistema de mísseis superfície-superfície, cuja seleção final será confirmada posteriormente.
Modularidade e baía de missão: reconfiguração rápida e apoio HADR
Outro elemento central do desenho do MRCV é a sua modularidade. O navio dispõe de uma baía de missão com capacidade para alojar até oito módulos contentorizados, permitindo reconfigurações em prazos curtos para diferentes tipos de operação.
Esta flexibilidade viabiliza o emprego em missões de assistência humanitária e resposta a catástrofes (HADR), incluindo a possibilidade de embarcar módulos médicos adicionais - como blocos operatórios, unidades de cuidados intensivos e áreas de internamento - em contentores marítimos de rápida projeção. A operação com contentores normalizados também simplifica a logística, tornando mais ágeis as tarefas de carga e descarga de abastecimentos, equipamentos e material de manutenção.
Margens de crescimento, propulsão elétrica e automatização da guarnição
O MRCV foi igualmente concebido com margens de crescimento destinadas a futuras modernizações. O sistema de distribuição elétrica de alta tensão, necessário para a sua propulsão totalmente elétrica integrada (Integrated Full Electric Propulsion – IFEP), está preparado para alimentar equipamentos com necessidades energéticas superiores.
A isto junta-se uma superestrutura construída em materiais compósitos leves, melhorando a estabilidade do navio e libertando margem de peso para a integração de novos sistemas. A automatização avançada permite ainda reduzir o efetivo necessário para operar o navio: a ponte pode ser gerida por dois tripulantes, e o centro de controlo de engenharia requer apenas um operador para supervisionar os sistemas, apoiado por gruas e elevadores internos que otimizam a movimentação de cargas e contentores a bordo.
Interoperabilidade e emprego operacional de sistemas não tripulados (parágrafo adicional)
A aposta num navio-mãe para USV, UAV e AUV implica, na prática, uma forte integração de ligações de dados, procedimentos de coordenação e gestão de tráfego no espaço marítimo e aéreo envolvente. Ao reunir estas capacidades numa plataforma de grande autonomia, a RSN passa a dispor de um meio particularmente apto para operações combinadas, em que a recolha de informação, a vigilância persistente e a resposta rápida podem ser distribuídas por múltiplos sensores e veículos sem aumentar proporcionalmente a presença de navios tripulados.
Impacto industrial e sustentabilidade do ciclo de vida (parágrafo adicional)
Sendo o maior navio de guerra já construído no país, o programa MRCV tende também a impulsionar competências locais ao longo do ciclo de vida - desde construção e integração de sistemas até manutenção e atualização tecnológica. A utilização de módulos contentorizados e de uma arquitetura elétrica preparada para evolução pode contribuir para reduzir tempos de indisponibilidade e facilitar modernizações faseadas, mantendo a relevância operacional das unidades durante décadas.
Entregas a partir de 2028 e tradição de nomes na RSN
Está previsto que as fragatas MRCV sejam entregues de forma progressiva a partir de 2028. Em linha com a tradição da RSN, as novas unidades manterão os nomes das corvetas lança-mísseis que irão substituir, sendo Victory o nome atribuído à primeira fragata da classe.
Anunciado oficialmente em 2022, o programa integra o plano de modernização naval de Singapura e é desenvolvido em conjunto pela DSTA, DSO, ST Engineering e parceiros internacionais, em estreita coordenação com as Forças Armadas do país.
Imagens a título ilustrativo.
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