O maior planeta do nosso Sistema Solar acabou de ficar um pouco mais pequeno - não na realidade, mas nas nossas contas. Com novas medições mais rigorosas, percebeu‑se que o raio de Júpiter e a sua forma estavam ligeiramente sobrestimados.
Júpiter com novas dimensões: raio ao equador e achatamento nos polos
De acordo com os dados mais recentes, o raio de Júpiter no equador é de 71 488 km, enquanto a distância do centro do planeta ao polo norte é de 66 842 km. Em termos práticos, isto significa que Júpiter é 4 km mais estreito de cada lado no equador e 12 km mais “achatado” em cada polo do que indicavam as estimativas anteriores.
A alteração não é grande, mas é suficiente para afetar a forma como os cientistas ajustam os seus modelos do planeta.
“Estes poucos quilómetros fazem diferença”, afirma Eli Galanti, cientista planetário do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel.
“Mexer ligeiramente no raio permite que os nossos modelos do interior de Júpiter conciliem muito melhor os dados de gravidade com as medições atmosféricas.”
Como eram feitas as estimativas: ocultação por rádio (RO) com Voyager e Pioneer
Durante décadas, o tamanho e a forma de Júpiter foram inferidos sobretudo a partir de medições realizadas pelas missões Voyager e Pioneer da NASA, nos anos 1970, recorrendo a uma técnica chamada ocultação por rádio (RO).
O princípio é relativamente simples: quando as sondas enviavam comunicações para a Terra a partir do lado oposto do planeta, a atmosfera de Júpiter desviava (refratava) parte do sinal. Medindo a intensidade e o alcance desse desvio, os investigadores conseguiam calcular o tamanho do planeta.
O problema é que havia muito pouca amostra: os astrónomos dispunham de apenas seis medições RO para fundamentar os valores usados em modelos durante anos.
A viragem com a sonda Juno da NASA e novas medições RO de Júpiter
Essa limitação mudou em 2021, quando a NASA ajustou a órbita da sonda Juno de modo a que, pela primeira vez, ela passasse “atrás” de Júpiter do ponto de vista da Terra. Essa geometria abriu a porta a medições regulares de ocultação por rádio (RO), agora reforçadas por técnicas mais recentes de processamento de dados.
“Acompanhámos como os sinais de rádio se curvam ao atravessar a atmosfera de Júpiter, o que nos permitiu transformar essa informação em mapas detalhados de temperatura e densidade, obtendo a imagem mais clara até hoje do tamanho e da forma do planeta gigante”, explica Maria Smirnova, também cientista planetária no Instituto Weizmann de Ciência.
Ventos, forma do planeta e por que poucos quilómetros contam
Sabe‑se que ventos muito intensos circulam o gigante gasoso e podem influenciar subtilmente a sua estrutura atmosférica - um fator que as estimativas anteriores tinham de ignorar. No entanto, como outros estudos recentes quantificaram esses ventos, Galanti e a sua equipa conseguiram incorporá‑los nos novos cálculos.
À primeira vista, uma diferença de 4 km ou 12 km pode parecer irrelevante. Contudo, ao fixar com mais precisão o raio e o grau de achatamento, os investigadores conseguem restringir melhor as soluções possíveis para o interior do planeta, tornando mais consistentes os modelos que tentam explicar simultaneamente o que se observa na atmosfera e o que se mede no campo gravitacional.
Há ainda um ponto adicional: em planetas como Júpiter, “tamanho” e “forma” não são conceitos triviais, porque não existe uma superfície sólida. Pequenos ajustes nos valores de referência usados para descrever o raio e a geometria do planeta podem traduzir‑se em diferenças significativas quando se pretende inferir como a massa está distribuída e como a atmosfera se comporta em profundidade.
Por fim, melhorias deste tipo não ajudam apenas a compreender Júpiter. Ao refinarmos as ferramentas para caracterizar um gigante gasoso no nosso quintal cósmico, ganhamos também um padrão de comparação mais fiável para interpretar gigantes gasosos noutros sistemas planetários, onde os dados são mais indiretos e as margens de erro tendem a ser maiores.
O estudo foi publicado na revista Nature Astronomia.
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