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Transplantes fecais podem ajudar a aliviar a depressão, mostram evidências.

Paciente segura comprimido enquanto médica explica saúde cerebral com tablet numa consulta.

Aproximadamente 330 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com depressão. Uma parte significativa não obtém alívio suficiente com as terapêuticas disponíveis, o que torna urgente explorar alternativas. Nos últimos anos, a investigação tem vindo a reforçar uma ligação clara entre problemas intestinais e a perturbação depressiva major, sugerindo que intervir num destes domínios pode também beneficiar o outro.

Transplantes fecais e depressão: o que concluiu a meta‑análise

Uma revisão de estudos sobre transplantes fecais para aliviar sintomas de depressão concluiu que o tratamento tende a ser mais eficaz quando os “pacotes” de microrganismos benéficos são administrados directamente no intestino por via rectal, em vez de serem tomados por via oral.

A meta‑análise indicou ainda que este padrão foi particularmente evidente em pessoas com síndrome do intestino irritável (SII). No entanto, os autores também observaram que os efeitos enfraqueciam aos seis meses.

Ao analisar 12 ensaios aleatorizados, envolvendo no total 681 participantes, os investigadores relataram que o transplante de microbiota fecal (TMF) apresenta um efeito antidepressivo descrito como sustentado e progressivamente reforçado. Os estudos incluídos foram publicados entre 2019 e 2024 e realizaram‑se sobretudo na China, com alguns também nos Estados Unidos, Austrália, Canadá e Finlândia.

O que é o transplante de microbiota fecal (TMF) e porquê pode ajudar

Os transplantes fecais têm como objectivo restaurar o tracto digestivo com um ecossistema microbiano saudável. Este equilíbrio pode degradar‑se ou ficar desregulado devido a doenças ou ao uso de medicamentos, como antibióticos.

Esse ecossistema - o microbioma intestinal - não é composto apenas por bactérias: inclui também fungos, protistas e até vírus. A ideia central do TMF é que, ao reintroduzir comunidades microbianas mais equilibradas, podem melhorar‑se processos fisiológicos que influenciam tanto o intestino como o cérebro.

Duração do benefício e limitações do acompanhamento

A equipa liderada pelo epidemiologista Xiaotao Zhang, da Universidade de Nanjing, alertou que os estudos incluídos acompanharam os doentes por períodos muito variados, entre duas semanas e 12 meses após o tratamento. Em alguns ensaios, a intervenção consistiu em apenas uma dose.

Por isso, a eficácia a longo prazo do procedimento permanece incerta, o que sublinha a necessidade de ensaios aleatorizados e controlados com seguimento prolongado e com medidas de depressão consistentes ao longo do tempo.

Onde mais se tem estudado o TMF (para além da depressão e da SII)

Para lá do uso em depressão e síndrome do intestino irritável, os transplantes fecais têm sido investigados como abordagem promissora numa variedade de condições, incluindo obesidade e diabetes tipo 2. Além disso, podem ajudar no tratamento de algumas infecções potencialmente fatais, com taxas de sucesso superiores às obtidas apenas com antibióticos em determinados contextos clínicos.

Riscos e porque não é um procedimento para fazer em casa

Tal como acontece com muitos procedimentos médicos, o TMF pode acarretar riscos relevantes, sobretudo se não for realizado com rigor clínico. Um exemplo é o facto de microrganismos adequados para uma determinada zona, como o intestino grosso, poderem causar perturbações noutras áreas do tubo digestivo, como o intestino delgado.

Existe também o perigo de introduzir microrganismos incompatíveis ou mesmo perigosos, o que pode desencadear problemas de saúde graves. Em termos práticos e de segurança, não é de todo um procedimento para tentar em casa.

Aspectos práticos: vias de administração e segurança do dador

A diferença observada entre a administração por via rectal e por via oral pode relacionar‑se com factores como a sobrevivência dos microrganismos ao longo do percurso digestivo e a capacidade de colonizarem o local pretendido. Na prática clínica, a entrega do material pode ser feita por técnicas distintas, e a escolha do método deve ponderar eficácia, tolerabilidade e risco.

Outro ponto crítico é a selecção do dador e a triagem laboratorial do material, passos essenciais para reduzir a probabilidade de transmissão de agentes indesejáveis. Estes requisitos reforçam que o TMF, quando considerado, deve ser enquadrado em protocolos clínicos e de vigilância apropriados.

O potencial do microbioma intestinal e uma ideia para o futuro

O impacto de um microbioma intestinal saudável é visto como tão promissor que alguns investigadores chegaram a sugerir que profissionais de saúde poderiam armazenar uma amostra de fezes de cada pessoa quando é jovem e saudável, para utilização futura caso surjam problemas.

No conjunto, a revisão de Zhang e colegas sugere que, pelo menos em parte dos doentes, restaurar comunidades microbianas saudáveis no sistema digestivo pode associar‑se a melhorias em sintomas depressivos - embora com sinais de perda de efeito ao fim de seis meses.

No fundo, parece que manter os nossos simbiontes microscópicos em equilíbrio pode ser uma peça importante para a saúde. E, considerando que estes microrganismos podem ter desempenhado um papel na evolução de cérebros maiores, talvez lhes devamos mesmo esse cuidado.

Esta investigação foi publicada na revista Fronteiras em Psiquiatria.

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