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Rastreio médico pode estar a falhar na deteção do risco de enfarte em muitos doentes

Médico a explicar diagnóstico cardíaco a paciente masculino usando tablet e imagem do coração na tela.

As técnicas atuais de rastreio em medicina podem não estar a identificar quase metade das pessoas que acabam por sofrer um enfarte (ataque cardíaco), segundo um estudo recente. Os resultados sugerem que uma parte relevante dos milhões de enfartes que ocorrem todos os anos poderia ser evitada se existissem métodos de avaliação de risco mais eficazes.

Como se estima o risco de enfarte nos EUA com a pontuação ASCVD

Nos Estados Unidos da América (EUA), o risco de enfarte é frequentemente estimado com base em critérios padronizados, como a pontuação ASCVD (doença cardiovascular aterosclerótica), que agrega fatores associados ao desenvolvimento de doença cardiovascular. Em função dessa pontuação, os doentes podem ser seguidos mais de perto ou receber tratamento quando ultrapassam determinados limiares.

Esta pontuação ASCVD é habitualmente calculada em consultas anuais para pessoas entre os 40 e os 75 anos. O objetivo é estimar a probabilidade de ocorrer um enfarte ou um acidente vascular cerebral (AVC) nos 10 anos seguintes, tendo em conta variáveis como pressão arterial, colesterol, idade, sexo e raça.

Quem é classificado com risco intermédio ou elevado - sendo considerado risco elevado uma probabilidade de 20% ou mais de um evento ao longo da próxima década - é, por norma, encaminhado para medidas preventivas, incluindo fármacos como estatinas.

O que o estudo analisou (EUA e Canadá)

Uma equipa de investigadores dos EUA e do Canadá reuniu registos clínicos de 465 pessoas com 65 anos ou menos que tinham sido tratadas do primeiro enfarte entre janeiro de 2020 e julho de 2025, em um de dois centros médicos nos EUA. Entre os dados recolhidos constavam elementos como antecedentes médicos, pressão arterial e níveis de colesterol.

Enfarte do miocárdio: pontuação ASCVD e pontuação PREVENT falharam na classificação do risco

Com base na análise do grupo, se estas pessoas tivessem sido avaliadas dois dias antes do enfarte, a pontuação ASCVD teria colocado 45% dos doentes em categorias de risco baixo ou limítrofe.

A equipa avaliou também um sistema alternativo, a pontuação PREVENT (prever o risco de eventos de doença cardiovascular), que apresentou um desempenho ainda pior neste conjunto: 61% dos doentes teriam sido classificados como risco baixo ou limítrofe.

Amir Ahmadi, cardiologista da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, nos EUA, afirma que os resultados mostram uma limitação importante: ferramentas de risco baseadas na população nem sempre espelham o risco real de muitos doentes quando analisados individualmente.

Segundo Ahmadi, se estes doentes tivessem sido observados apenas dois dias antes do enfarte, quase metade não teria recebido recomendação, de acordo com os scores e orientações atuais, para exames adicionais nem para terapêutica preventiva orientada por estimativas de risco.

Doentes sem sinais e sem “alertas” podem continuar a escapar aos scores de risco

Os investigadores defendem que é necessário reforçar a avaliação do risco de enfarte em grupos sem sintomas - pessoas que não seriam assinaladas por estas ferramentas -, possivelmente recorrendo a testes que procurem diretamente sinais de aterosclerose (placas gordurosas nas artérias que dificultam o fluxo sanguíneo).

Anna Mueller, interna de medicina interna na Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, sublinha que, quando se analisam enfartes “de trás para a frente”, uma parte substancial ocorre em pessoas previamente colocadas nas categorias de risco baixo ou intermédio. Acrescenta ainda que uma pontuação mais baixa, a par da ausência de sintomas clássicos de enfarte - como dor no peito ou falta de ar, algo comum -, não é garantia de segurança ao nível individual.

Como melhorar a prevenção: testar aterosclerose e personalizar decisões

Uma implicação prática desta discussão é que, para além dos scores de risco, pode fazer sentido considerar estratégias mais individualizadas que procurem evidência de doença arterial antes do primeiro evento. Em alguns contextos, exames que avaliam de forma objetiva a carga de aterosclerose podem ajudar a decidir quem beneficia mais de intensificar medidas preventivas, mesmo quando a pontuação aponta para risco baixo.

Também é relevante enquadrar a prevenção numa abordagem mais ampla: a identificação de risco deve ser acompanhada por intervenções consistentes no estilo de vida (por exemplo, alimentação adequada, atividade física regular e controlo de fatores como pressão arterial e colesterol), articuladas com a avaliação clínica. Mesmo quando a decisão sobre medicação preventiva não é imediata, a gestão rigorosa destes fatores pode reduzir risco ao longo do tempo.

Limitações do estudo e o que ainda falta esclarecer

Os autores salientam que estes resultados precisam de contexto. A análise foi retrospetiva e baseou-se em algumas centenas de histórias clínicas. Além disso, a pontuação PREVENT já mostrou potencial para detetar risco de enfarte em grandes grupos populacionais, segundo os investigadores.

Ainda assim, a equipa considera que, na prática, estes scores podem continuar a falhar em pessoas que não apresentam sintomas típicos nem fatores de risco evidentes. Se forem desenvolvidas abordagens mais precisas e personalizadas, a doença cardíaca poderá ser identificada mais cedo e, idealmente, evitada.

Ahmadi conclui que o estudo sugere que a estratégia atual - usar pontuações de risco e sintomas como principais “porteiros” da prevenção - não é a mais adequada.

Publicação

A investigação foi publicada na Revista do Colégio Americano de Cardiologia: Avanços.

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