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'Lula Vampiro do Inferno' revela as origens antigas dos polvos.

Polvo bioluminescente com padrões coloridos visto através de janela submarina com gráficos e DNA desenhados.

A enigmática “lula-vampiro do inferno” acaba de revelar o maior genoma de cefalópode alguma vez sequenciado: um colosso com mais de 11 mil milhões de pares de bases, estimado entre 11 e 14 gigabases (Gb) - mais do dobro do tamanho dos maiores genomas de lulas conhecidos até agora.

Por trás dessa aparente mistura de letras (A, T, G e C), esconde-se uma narrativa evolutiva profunda. Apesar de não ser, tecnicamente, uma lula, a espécie Vampyroteuthis infernalis conservou uma arquitectura cromossómica surpreendentemente “tipo lula” - um plano de organização partilhado, há muito tempo, com o antepassado comum das lulas e dos polvos actuais.

Vampyroteuthis infernalis: um ramo raro na árvore dos cefalópodes

A lula-vampiro ocupa um lugar peculiar na árvore genealógica dos cefalópodes. Não é lula, nem polvo (e muito menos vampiro); é, isso sim, o último sobrevivente de uma linhagem antiga cujos restantes representantes desapareceram há muito.

Em vários aspectos, muitos investigadores consideram-na um “fóssil vivo”: a sua história remonta a cerca de 183 milhões de anos, mantendo traços dos seus antepassados e, em paralelo, adquirindo adaptações indispensáveis para prosperar como necrófaga das profundezas, num ambiente escuro e extremo.

Vestígios de estruturas corporais e características partilhadas com lulas, polvos e chocos levaram os cientistas a suspeitar que esta espécie poderia guardar pistas genéticas sobre as origens ainda misteriosas destes animais - antes de as linhagens se separarem, há cerca de 300 milhões de anos.

“A lula-vampiro está precisamente na interface entre polvos e lulas”, afirma o geneticista Oleg Simakov, da Universidade de Viena. “O seu genoma expõe segredos evolutivos profundos sobre como duas linhagens tão distintas puderam emergir a partir de um ancestral comum.”

Um encontro raro nas profundezas: recolha do espécime

A lula-vampiro é discreta e difícil de observar, vivendo em condições pouco compatíveis com a presença humana, a profundidades superiores a 600 metros. Ainda assim, a equipa teve a sorte de obter um exemplar capturado acidentalmente como captura acessória, durante operações do navio de investigação da Universidade de Tokai, o T/V Hokuto, na Baía de Suruga.

O maior genoma de cefalópode: 11–14 Gb e um peso enorme de repetições

Quando os investigadores sequenciaram o ADN, o resultado foi inesperado: um genoma entre 11 e 14 Gb. Para contextualizar, vários cefalópodes bem estudados possuem genomas muito mais modestos.

Comparação de tamanhos de genoma (gigabases, Gb)

Grupo / espécie Tamanho do genoma
Vampyroteuthis infernalis (lula-vampiro) 11–14 Gb
Doryteuthis pealeii (lula-de-barbatana-longa costeira) 4,4 Gb
Euprymna scolopes (lula-bobtail do Havai) 4,9 Gb
Sepia officinalis (choco-comum) 5,5 Gb
Octopus bimaculoides (polvo-da-Califórnia de duas pintas) 2,2 Gb
Octopus sinensis (polvo-comum do Leste Asiático) 2,6 Gb
Octopus vulgaris (polvo-comum) 2,7 Gb

Em termos práticos, isto significa que o genoma da lula-vampiro pode ser várias vezes maior do que os genomas de lulas e polvos.

Um detalhe adicional ajuda a explicar esta expansão: cerca de 62% do genoma é composto por elementos repetitivos - segmentos de ADN que se repetem inúmeras vezes, aumentando o tamanho total sem acrescentar, necessariamente, novas sequências codificantes.

A abundância de repetições é particularmente relevante porque esses elementos (muitas vezes associados a mecanismos como transposões) podem deixar “cicatrizes” evolutivas no genoma: não são apenas enchimento, podendo influenciar a forma como os cromossomas se reorganizam ao longo do tempo e como certos genes passam a ser regulados.

O que a arquitectura cromossómica revela sobre lulas e polvos

Para perceberem o significado desta herança genética, os autores compararam o genoma da lula-vampiro com genomas já sequenciados de outros cefalópodes, incluindo lulas e chocos de 10 braços (decapodiformes), polvos de oito braços (octopodiformes), um náutilo e outros moluscos.

Além disso, a equipa sequenciou também o genoma do estranho argonauta lamacento (Argonauta hians), um polvo em que as fêmeas exibem uma concha externa.

As comparações mostraram que, embora a lula-vampiro seja um octopodiforme de oito braços, preserva partes da estrutura cromossómica típica dos seus parentes de 10 braços, os decapodiformes. Em paralelo, a análise de diferentes genomas de polvos indicou que, numa fase inicial da sua história evolutiva, os polvos também possuíam uma organização cromossómica mais semelhante à das lulas.

Com o passar do tempo, essa organização foi sendo compactada e fundida com elementos cromossómicos “tipo polvo”, num processo irreversível conhecido como fusão com mistura (fusion-with-mixing), que poderá ter contribuído para impulsionar adaptações especializadas dos polvos.

No conjunto, os dados apontam para um cenário em que os polvos atravessaram uma fase precoce de mistura cromossómica rápida, enquanto os cromossomas da lula-vampiro permaneceram em grande medida estáveis - mesmo quando o seu genoma aumentou de forma dramática.

É também um lembrete de como a genómica depende de amostras raras: espécies de águas profundas são difíceis de recolher, e cada sequência de alta qualidade pode alterar interpretações antigas sobre parentescos e trajectórias evolutivas. Numa era de mudanças rápidas nos oceanos, melhorar o conhecimento sobre estas linhagens singulares ajuda igualmente a definir prioridades de investigação e monitorização.

Uma “Pedra de Roseta” para a evolução dos cefalópodes

Em resultado, a lula-vampiro surge como uma possível “Pedra de Roseta” para descodificar a evolução dos cefalópodes.

“A lula-vampiro preserva uma herança genética anterior às duas linhagens [lulas e polvos]”, explica a geneticista Emese Tóth, também da Universidade de Viena. “Dá-nos uma visão directa das fases mais iniciais da evolução dos cefalópodes.”

O estudo foi publicado na revista científica iScience.

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