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Talvez as primeiras cidades não tenham surgido na Mesopotâmia, mas sim aqui.

Jovem arqueólogo escava cerâmicas num sítio arqueológico próximo a uma aldeia antiga cercada por campos dourados.

Nas planícies do que hoje é a Ucrânia, vestígios de casas calcinadas, traçados de ruas e padrões repetidos de construção estão a levar arqueólogos a rever capítulos inteiros sobre a origem das cidades.

Durante muito tempo, os manuais escolares apresentaram a Mesopotâmia como o berço praticamente exclusivo das primeiras cidades. No entanto, estudos recentes sobre um grande assentamento do Leste Europeu, associado à cultura Cucuteni-Trypillia, apontam para um panorama bem mais intricado - e potencialmente mais antigo do que se supunha.

Uma revolução urbana para lá da Mesopotâmia

O consenso tradicional defendia que a revolução urbana se teria afirmado sobretudo na Mesopotâmia e no Levante, com centros como Uruk, no atual Iraque, a surgirem como pioneiros. As novas leituras sobre a cultura Cucuteni-Trypillia não negam a importância do Crescente Fértil, mas colocam em causa a ideia de exclusividade dessa narrativa.

Relatos recentes divulgados por meios europeus dedicados à ciência e à arqueologia descrevem assentamentos cucuteni-trypillianos com milhares de habitantes, zonas especializadas e percursos internos claramente organizados. Isto aproxima-os do conceito de “cidade planeada”, algo que durante décadas se associou sobretudo ao Oriente Próximo.

Visto de outra forma, a noção de que apenas o Próximo Oriente teria desenvolvido, de forma organizada, grandes comunidades urbanas - já em plena Idade do Bronze - começa a perder terreno. O Leste Europeu surge como um segundo foco de inovação social e arquitectónica, ainda num contexto pré-bronze e marcadamente agrícola.

Uma cidade pré-histórica no coração da Ucrânia (Cucuteni-Trypillia)

No Leste da Europa, em território ucraniano, arqueólogos estudam há mais de meio século um vasto sítio pré-histórico que, nos últimos anos, ganhou uma interpretação renovada. Escavações, cartografia por satélite e análises de solos sugerem que ali poderá ter existido uma das mais antigas grandes concentrações humanas do planeta - anterior a vários centros urbanos clássicos da Mesopotâmia.

Esse lugar integra o universo da cultura Cucuteni-Trypillia, um conjunto de comunidades neolíticas que ocupou áreas da atual Ucrânia, Roménia e Moldávia entre cerca de 5 500 e 2 700 a.C. Deixaram povoações de grande dimensão, com dezenas de hectares, que se distinguem por um pormenor decisivo: o desenho do espaço lembra um verdadeiro planeamento urbano.

Círculos de habitações em anéis concêntricos, amplas zonas centrais e áreas com funções diferenciadas sugerem que não era um simples agrupamento de cabanas, mas antes um modelo colectivo pensado e replicado ao longo de séculos.

Vale sublinhar um ponto que nem sempre é óbvio no debate: discutir “cidade” não é apenas contar habitantes. Para muitos investigadores, contam também factores como a organização do espaço, a gestão de recursos, a existência de áreas especializadas e a capacidade de manter regras de convivência em comunidades muito densas - mesmo sem reis, escrita ou monumentos imponentes.

Como seria esta proto-cidade europeia

Os investigadores identificaram padrões recorrentes em vários sítios ligados à cultura Cucuteni-Trypillia:

  • Habitações dispostas em anéis concêntricos, criando grandes círculos ou elipses.
  • Uma área central desocupada, interpretada como praça, espaço cerimonial ou zona de trocas.
  • Zoneamento por funções, separando sectores de habitação, armazenamento e deposição de resíduos.
  • Vias internas que estruturam as deslocações entre “bairros”.
  • Indícios intrigantes de que algumas casas eram queimadas deliberadamente quando deixavam de ser usadas.

Este tipo de ordenamento aponta para uma sociedade capaz de planear a ocupação a longo prazo, repartir tarefas, gerir recursos e, possivelmente, mediar conflitos internos. Mesmo sem palácios monumentais ou fortificações de pedra, a complexidade social parece evidente.

Cucuteni-Trypillia: agricultores, oleiros e urbanistas antes do tempo

As comunidades associadas à cultura Cucuteni-Trypillia são conhecidas, há décadas, pela cerâmica policromada com padrões geométricos elaborados. Hoje, além de oleiros notáveis, começam a ser descritas como possíveis “urbanistas” da pré-história europeia.

A sua base económica assentava sobretudo na agricultura e na criação de animais. Produziam ferramentas de pedra polida, trabalhavam têxteis, moldavam argila e mantinham reservas consideráveis de cereais. Quando alguns assentamentos atingem dezenas de hectares, torna-se difícil imaginar essa escala sem uma coordenação social robusta.

Quando um sítio reúne milhares de pessoas num desenho coerente, muitos arqueólogos falam já em proto-cidade: não é apenas uma aldeia, mas também ainda não é uma cidade-Estado monumental - situa-se num patamar intermédio.

Um aspecto adicional, frequentemente debatido, é o modo como estas comunidades poderiam ter tomado decisões colectivas. A ausência de sinais claros de palácios ou templos dominantes levanta hipóteses de formas de governação mais distribuídas, com regras comunitárias e mecanismos de cooperação que deixaram marcas no território, não necessariamente em edifícios de poder.

Comparação com a Mesopotâmia

Para perceber o alcance destas descobertas, ajuda colocar lado a lado alguns traços gerais de grandes povoações cucuteni-trypillianas e de cidades mesopotâmicas clássicas:

Aspecto Cucuteni-Trypillia (Ucrânia e região) Mesopotâmia (Oriente Próximo)
Período principal Neolítico final ao Calcolítico (cerca de 5 500–2 700 a.C.) Idade do Bronze inicial em diante (a partir de ~3 500 a.C.)
Materiais de construção Barro, madeira e estruturas de pau-a-pique Tijolos de barro cozido; pedra em alguns casos
Traçado urbano Plantas circulares ou ovais; habitações em anéis Bairros mais irregulares; muralhas; templos monumentais
Economia Agricultura de subsistência em grande escala; gado; cerâmica Comércio de longa distância; escrita; burocracia estatal
Monumentalidade Quase ausente; foco em casas e silos Templos, zigurates e palácios administrativos

Esta comparação não “substitui” a Mesopotâmia como referência maior da urbanização antiga. Em vez disso, alarga o mapa das experiências humanas de vida em grande escala e mostra que o caminho para o urbano pode ter assumido formas diferentes em regiões distintas.

Porque é que só agora estas ideias ganham força

O sítio ucraniano é conhecido há décadas, mas as ferramentas contemporâneas alteraram profundamente o que se consegue observar. Hoje recorrem-se a imagens de satélite, drones, magnetometria e análises químicas para reconstruir plantas de construções antigas sem escavar todo o local.

Com estes métodos, torna-se possível visualizar o desenho global do assentamento - algo difícil quando se trabalha apenas com pequenas áreas abertas aqui e ali. A partir dessa visão de conjunto, surgem novas perguntas: como garantiam o abastecimento de água? Como lidavam com resíduos e matéria orgânica? De que modo preveniam ou resolviam tensões internas, já que não há evidências inequívocas de um exército permanente?

Ao cruzar dados antes dispersos, cresceu a convicção de que não se tratava apenas de uma povoação grande, mas de um verdadeiro laboratório social, com regras próprias para viver em massa.

Conflitos, clima e abandono

Outra questão central é explicar por que motivo estas proto-cidades foram abandonadas. Entre as hipóteses mais discutidas estão o desgaste dos solos agrícolas, alterações climáticas regionais, conflitos internos e até pressão exercida por grupos nómadas.

Tudo indica que muitos destes assentamentos foram ocupados durante alguns séculos e, depois, deixados. Em vários casos, as casas parecem ter sido queimadas de forma intencional e possivelmente ritualizada. Isso sugere ciclos de uso e renovação, em vez de uma continuidade urbana “em camadas” como a observada em cidades mesopotâmicas, que se expandem ao longo de longos períodos.

Termos úteis para acompanhar o debate

Alguns conceitos aparecem repetidamente neste tipo de discussão:

  • Proto-cidade: assentamento com sinais urbanos claros - elevada densidade populacional, organização do espaço e funções diferenciadas - mas ainda sem muitas marcas de um Estado centralizado.
  • Revolução urbana: expressão que descreve a passagem de pequenos povoados rurais para centros densamente povoados, com maior divisão do trabalho e estruturas de poder mais complexas.
  • Cultura arqueológica: designação dada a um conjunto de sítios com semelhanças materiais (por exemplo, estilos de cerâmica, técnicas de construção e práticas rituais).

Estes termos deixam claro que a discussão não é apenas sobre “quem chegou primeiro”, mas também sobre como classificar sociedades que, há seis ou sete mil anos, já enfrentavam desafios familiares às metrópoles atuais: convivência, abastecimento, resíduos e planeamento.

O que esta história altera na forma de olhar o passado

Na prática, o caso ucraniano reforça uma ideia cada vez mais influente na arqueologia: a civilização não nasceu num único lugar, nem seguiu um guião linear. Regiões diferentes parecem ter testado, em tempos distintos, soluções complexas para viver em comunidade e em grande escala.

Para quem lê hoje, isto abre espaço para cenários mais ricos: rotas de troca a atravessar estepes e montanhas, contactos culturais entre agricultores da Europa Oriental e outros povos, e modelos de organização social sem reis nem templos monumentais. Também museus e equipas de investigação começam a dar mais visibilidade a experiências consideradas “periféricas” - que talvez não o fossem assim tanto.

Há ainda uma dimensão actual incontornável: o contexto geopolítico da Ucrânia preocupa a comunidade científica. Conflitos armados ameaçam sítios já identificados e áreas por estudar; um campo potencial de batalha pode ocultar vestígios de uma cidade anterior a grande parte do que conhecemos sobre vida urbana.

Ao mesmo tempo, a atenção internacional tem um efeito positivo: aumenta a pressão para políticas de protecção do património e incentiva colaborações entre universidades ucranianas e centros de investigação de outros países. Isso acelera a recolha de dados, amplia o debate e poderá, com sorte, acrescentar novas páginas à história destas cidades esquecidas - possivelmente mais antigas do que Uruk e muito mais próximas do que se imaginava.

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