Quase duas semanas depois de Nancy Guthrie, de 84 anos, ter desaparecido da sua casa no Arizona, os investigadores dizem ter recolhido ADN de uma pessoa não identificada na propriedade, acrescentando um novo e inquietante elemento a um caso que já reunia imagens arrepiantes da campainha com câmara, alegações de resgate e uma vaga de atenção a nível nacional.
ADN não identificado dá novo rumo ao desaparecimento de Nancy Guthrie
O Departamento do Xerife do Condado de Pima confirmou que as equipas forenses recolheram, na propriedade de Guthrie, material genético pertencente a alguém que não é a avó desaparecida nem qualquer pessoa conhecida por manter contacto próximo com ela.
Os detectives estão a tentar associar o perfil de ADN a um indivíduo já identificado, mas recusam-se a especificar o ponto exacto da propriedade onde a amostra foi encontrada.
As autoridades referem que a amostra seguiu para análise com parceiros federais, integrada num conjunto mais amplo de provas que inclui luvas e outros objectos recolhidos num perímetro alargado em redor da casa de Guthrie.
Esta descoberta reforça a hipótese de que, pelo menos, um desconhecido esteve fisicamente na residência - ou muito perto dela - dando sustentação forense ao que os investigadores já inferiam a partir de vídeo e de outros indícios: o desaparecimento de Guthrie terá, muito provavelmente, sido uma abdução dirigida.
Vídeo da campainha e um suspeito mascarado
Antes do avanço ligado ao ADN, a principal viragem no processo tinha sido a recuperação de imagens captadas pela campainha com câmara Google Nest de Guthrie.
O vídeo, obtido depois de o FBI ter acedido a dados guardados nos sistemas da Nest, mostra uma pessoa mascarada e armada a aproximar-se da porta da frente na manhã em que Guthrie desapareceu.
- O FBI descreve o suspeito como um homem de compleição média, com cerca de 1,75 m a 1,78 m de altura.
- Surge a transportar uma mochila de caminhada Ozark Trail com 24 a 25 litros, um modelo vendido em exclusivo na Walmart.
- Usa roupa escura e luvas pretas, mantendo o rosto totalmente oculto.
A mochila passou a ser uma pista central. Os agentes podem cruzar registos de compra e imagens de videovigilância em loja para identificar vendas recentes desse modelo na zona de Tucson e, depois, comparar nomes e imagens com outras provas recolhidas.
Os investigadores admitem que a pessoa filmada no alpendre poderá conhecer o bairro ou tê-lo observado previamente.
Como a equipa forense pode chegar a uma correspondência
De que forma o ADN poderá ser utilizado na investigação
O ADN não identificado encontrado na propriedade de Guthrie deverá ser pesquisado em várias bases de dados e confrontado com diferentes conjuntos de amostras já reunidas.
Segundo o xerife Chris Nanos, foram recolhidas zaragatoas bucais a “vários indivíduos” entrevistados no âmbito do caso. Essas recolhas servem para criar perfis de referência de pessoas consideradas relevantes para a investigação.
Habitualmente, o procedimento desenrola-se em etapas:
| Etapa | O que acontece |
|---|---|
| Criação do perfil | Técnicos de laboratório extraem o ADN do vestígio e constroem um perfil genético. |
| Verificação em bases de dados | O perfil é comparado com bases de dados estaduais e federais, quando a lei o permite. |
| Comparação com zaragatoas | O perfil desconhecido é confrontado com as amostras recolhidas a pessoas entrevistadas. |
| Diligências subsequentes | Uma correspondência total ou parcial pode levar a novas entrevistas, mandados ou vigilância. |
Os responsáveis sublinham que não vão divulgar o local exacto onde o ADN foi encontrado - um detalhe que pode ser determinante mais tarde para confirmar ou excluir suspeitos e para separar confissões falsas de informação verificável.
Um bairro sob tensão e operações em curso
A casa de Guthrie fica em Catalina Foothills, uma zona abastada e dispersa que agora convive com tendas de perícia, carrinhas de transmissão, viaturas de patrulha e uma presença policial constante. Moradores dizem que a divulgação das imagens do alpendre agravou o clima de insegurança.
“Ver aquela figura a entrar no alpendre é aterrador”, contou uma vizinha a jornalistas locais, acrescentando que passou a temer pela própria mãe, que vive sozinha nas proximidades.
As autoridades bloquearam ruas e realizaram actividade nocturna numa residência a cerca de 3,2 km da casa de Guthrie, confirmando apenas que as operações estão “relacionadas com o caso Guthrie”. A pedido do FBI, o gabinete do xerife mantém os detalhes dessas diligências sob forte reserva.
Segundo as autoridades, as denúncias do público multiplicaram-se: o FBI terá registado mais de 13 000 pistas desde que Guthrie desapareceu a 1 de Fevereiro.
Apelos da família e caos em torno de supostos resgates
Os pedidos públicos da filha de Nancy Guthrie
O caso ganhou dimensão nacional, em parte, por envolver a filha de Guthrie, uma conhecida apresentadora de um programa matinal de televisão nos Estados Unidos, que tem usado a sua visibilidade e as redes sociais para pedir o regresso da mãe em segurança.
Em diferentes publicações e vídeos, ela e os irmãos:
- imploraram que quem estiver com a mãe entre em contacto;
- responderam a notícias sobre pedidos de resgate e afirmaram estar dispostos a pagar pelo seu regresso seguro;
- partilharam vídeos antigos e fotografias de família para manter o rosto de Guthrie presente na opinião pública.
Num dos vídeos, a filha pediu: “Pedimos-vos que nos devolvam a nossa mãe”, salientando que Guthrie vive com dor crónica e depende de medicação diária - medicação essa que deixou de ter.
Falsos pedidos de resgate e confusão com criptomoedas
Os procuradores federais já acusaram um homem, Derrick Callella, de alegadamente ter enviado uma mensagem falsa de resgate à família Guthrie, exigindo dinheiro em troca da mulher de 84 anos. Está prevista a sua audição judicial no Arizona.
As autoridades reconhecem ainda que circularam mensagens atribuídas ao caso com exigências em Bitcoin, embora não confirmem que qualquer uma delas tenha sido enviada pelo verdadeiro autor da abdução.
Especialistas lembram que, apesar de o Bitcoin ser frequente em esquemas de extorsão, não é a moeda “invisível” que muitos criminosos imaginam.
Peritos em blockchain explicam que cada transacção de Bitcoin fica registada de forma permanente, permitindo seguir o percurso do dinheiro e, por vezes, identificar titulares de carteiras quando os fundos chegam a plataformas reguladas. Essa realidade influencia a forma como o FBI encara ameaças de resgate associadas a criptomoedas: simultaneamente um risco e um potencial rasto investigativo.
Luvas, câmaras e pistas digitais
Para além do vestígio de ADN, os investigadores recolheram várias luvas numa área de vários quilómetros em redor da casa de Guthrie. Pelo menos uma luva foi encontrada a cerca de 3,2 km; e, ao contrário de rumores iniciais, não foram recolhidas luvas no interior da habitação.
Tal como acontece com a amostra de ADN, as luvas estão a ser analisadas para detecção de material genético, fibras e eventuais resíduos químicos que possam ligá-las ao suspeito mascarado ou a um veículo e local específicos.
A vertente digital continua no centro do caso. As imagens da Nest foram recuperadas mesmo não existindo, alegadamente, uma subscrição activa, após o FBI trabalhar com empresas tecnológicas para extrair dados arquivados nos seus sistemas.
Proprietários de campainhas com câmara Ring e de outros sistemas num raio de 3,2 km receberam alertas a pedir o envio de gravações do final de Janeiro e início de Fevereiro que mostrem veículos ou peões desconhecidos.
Os investigadores encaram esta rede de câmaras privadas como um mosaico que, quando reunido, pode revelar o trajecto de entrada e saída do bairro.
Saúde frágil de Nancy Guthrie aumenta a urgência
Guthrie, descrita pelo xerife como “lúcida e muito esperta”, tem limitações físicas significativas. Tem dificuldade em caminhar mais de cerca de 45 metros e depende de medicação diária e de um pacemaker.
A aplicação de monitorização do pacemaker desligou-se do telemóvel nas primeiras horas de 1 de Fevereiro, um dos sinais técnicos mais precoces de que algo poderia estar errado. Familiares afirmam que ela vive com dor constante e que um período tão prolongado sem medicação pode colocar a vida em risco.
Porque o ADN pode alterar por completo um caso de rapto
Em investigações de grande dimensão, um único perfil de ADN pode redefinir toda a estratégia. Se a amostra não identificada recolhida na propriedade de Guthrie coincidir com um perfil numa base de dados criminal, os detectives passam a ter, de um momento para o outro, um nome, um histórico e, muitas vezes, moradas, veículos e contactos associados.
Mesmo uma correspondência parcial - por exemplo, com um familiar de quem deixou o ADN - pode abrir novas portas. Técnicas de genealogia genética, usadas em casos mediáticos como o do chamado “Assassino do Estado Dourado”, combinam árvores genealógicas públicas com ADN para mapear redes familiares prováveis e aproximar os investigadores de um suspeito.
Existem, contudo, limites e salvaguardas legais. Nem todas as bases de dados podem ser pesquisadas em qualquer investigação, e as regras de privacidade variam entre estados e países. Ainda assim, num rapto de elevada exposição pública, as autoridades tendem a esgotar todas as opções permitidas - de laboratórios locais a meios federais.
Termos-chave para acompanhar a investigação
Para quem segue o caso à distância, há conceitos que surgem repetidamente:
- Perfil de ADN: conjunto de marcadores genéticos que pode identificar de forma única um indivíduo, semelhante a uma impressão digital biológica.
- Análise forense: testes científicos a provas - de fibras a impressões digitais e dados digitais - para uso em tribunal ou para orientar a investigação.
- Blockchain: registo público que documenta transacções em criptomoedas como o Bitcoin, permitindo traçar o fluxo de fundos.
- Sistemas de bastidores da campainha com câmara: infra-estruturas na nuvem onde as empresas guardam ou arquivam clips de vídeo, por vezes para além do que o utilizador consegue ver ou descarregar.
Num processo tão intrincado como o de Guthrie, estes elementos podem cruzar-se: o ADN pode apontar um suspeito, o vídeo da campainha pode colocá-lo no local, a análise de blockchain pode indicar uma tentativa de lucro, e dados de telemóvel ou de viatura podem unir tudo numa linha temporal.
Como o público pode ajudar sem comprometer a investigação
Com milhares de denúncias a entrar, a qualidade da informação é tão importante como a quantidade. As autoridades valorizam especialmente relatos com pormenores verificáveis - datas, horas aproximadas, descrições de veículos (marca, modelo, cor), trajectos e qualquer ligação a mochilas semelhantes à Ozark Trail ou a roupa escura com luvas.
Também é crucial evitar a partilha pública de “suspeitos” não confirmados nas redes sociais. Além de poder prejudicar diligências em curso, esse ruído alimenta falsas pistas e aumenta o risco de novos esquemas de burla, como mensagens de resgate fraudulentas que exploram a angústia da família.
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