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Portugal pode produzir combustíveis sintéticos mais baratos que o gasóleo

Homem com colete de segurança analisa gráficos em tablet com parque eólico e depósito de hidrogénio ao fundo.

Parece uma aposta ousada, mas há contas e tecnologia por trás: Portugal pode vir a produzir combustíveis sustentáveis a um custo inferior ao do gasóleo, desde que avance a sério com parques eólicos offshore. A ideia é defendida pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), em declarações exclusivas ao Expresso, com base num estudo recente sobre o potencial nacional para produzir hidrogénio verde e combustíveis de baixo carbono.

A lógica é direta e assenta numa cadeia bem definida para o país: a eletricidade gerada no mar abasteceria eletrolisadores em terra para produzir hidrogénio verde, que depois serviria de matéria-prima para combustíveis avançados como amónia, metanol ou HVO (Hydrotreated Vegetable Oil ou Óleo Vegetal Hidrotratado (OVH), também conhecido como “Diesel verde”) - isto é, combustíveis sintéticos.

Tudo isto depende, no entanto, do leilão para os primeiros 2 gigawatts (GW) de energia eólica offshore, que ainda não foi lançado. A Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) assegura que o processo está a ser preparado, mas só deverá avançar entre o final de 2025 e o início de 2026.

O estudo aponta uma vantagem competitiva determinante: as turbinas eólicas no mar português poderão funcionar entre 4200 e 4500 horas por ano, muito acima do observado em países como a Dinamarca ou a Alemanha, por exemplo. Essa diferença pode baixar de forma significativa o custo da eletricidade usada nos eletrolisadores - e, por arrasto, o preço final dos combustíveis.

“É muito importante o número de horas que as unidades de eletrólise podem operar à sua máxima capacidade ao longo do ano, usando apenas electricidade eólica offshore. Enquanto os custos de investimento não variam substancialmente de país para país, as horas de funcionamento de uma turbina no mar de Portugal são diferentes dos da Alemanha ou Dinamarca. E podem tornar-nos mais competitivos”, disse Sofia Simões, coordenadora da unidade de economia de recursos do LNEG ao Expresso.

Segundo o laboratório, a produção de HVO com energia eólica offshore destaca-se como a alternativa mais competitiva, podendo situar-se entre 63 e 110 €/MWh. Este intervalo fica abaixo do preço médio do gasóleo em 2024, que rondou os 158 a 172 €/MWh.

Para lá do HVO, também a amónia verde poderá ganhar competitividade a nível internacional. Já o metanol, o hidrogénio liquefeito e o combustível sustentável para aviação continuam a apresentar custos mais elevados. Ainda assim, o LNEG realça que, no futuro, as tecnologias solar e eólica offshore podem complementar-se, devido às diferenças naturais nos seus perfis de produção.

Pedro Marques, investigador do INEGI (Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial), já tinha discutido este tema num dos nossos Auto Talks sobre a produção de combustíveis sintéticos sustentáveis em Portugal. Recorde o que foi falado:

Leilão é decisivo para avançar

Entre as zonas analisadas está Leixões, onde está previsto um parque eólico offshore de 1 GW operacional até 2035, com 500 MW dedicados à produção de hidrogénio. Parte deste gás renovável poderá seguir para a Alemanha através da futura rede europeia de hidrogénio, enquanto a amónia e outros combustíveis seriam exportados por via marítima a partir de Sines.

“Sabemos que Portugal possui uma extensa zona costeira e um elevado potencial eólico offshore. Temos sidos pioneiros a nível mundial na área da energia eólica offshore flutuante. Procurámos analisar como podemos aproveitar esse potencial e acrescentar valor ao país”, concluiu Sofia Simões.

Como referido pelo Expresso, os primeiros leilões deverão abranger áreas para a instalação de 2 GW de capacidade eólica offshore, com uma meta de longo prazo de 9,4 GW. Além de Leixões, propõem-se parques em Viana do Castelo (1 GW) e Figueira da Foz (2 GW).

O estudo lembra que a cadeia de valor nacional está a crescer - o LNEG identifica pelo menos 130 empresas ligadas ao hidrogénio e outras 140 ao setor eólico offshore. Mas alerta que, para criar uma verdadeira “economia do hidrogénio”, é necessária estabilidade regulatória e um calendário claro para os leilões.

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