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Indústria europeia quer acabar com a dependência dos componentes chineses

Engenheiro em ambiente industrial com planos e componentes eletrónicos e bandeira da União Europeia.

A China pode ter suavizado algumas restrições às exportações de chips, mas isso não significa que a tensão tenha desaparecido. Para os construtores europeus, o recado é claro: a geopolítica está a mexer no tabuleiro e a indústria quer reduzir a exposição aos componentes produzidos na China.

Segundo a Bloomberg, citando fontes próximas, várias marcas europeias já estão a pressionar os seus fornecedores para encontrarem alternativas duradouras aos semicondutores chineses.

Matthias Zink, presidente da CLEPA (Associação Europeia de Fornecedores Automóveis), admite que o setor está a avaliar mudanças profundas nas cadeias de fornecimento para se ajustar ao novo contexto. “Já víamos alguns sinais em perguntas como por exemplo ‘como é que nos podem fornecer sem esta dependência da China?’”, afirmou.

Transição difícil

Esta mudança está longe de ser fácil. Mexer em cadeias de abastecimento já estabelecidas é caro e complexo. Zink estima que reorganizar o fornecimento fora da China - seja de baterias, chips ou terras raras - pode levar entre três e sete anos, dependendo do componente.

A tensão agravou-se com o caso Nexperia, fabricante neerlandesa de semicondutores controlada pela chinesa Wingtech. O Governo chinês proibiu a exportação de chips produzidos pela divisão chinesa da empresa, em resposta à decisão dos Países Baixos - sob pressão dos EUA - de nacionalizar temporariamente a Nexperia para limitar a influência da Wingtech.

A medida de Amesterdão levou Pequim a bloquear as exportações e a cortar o fornecimento de chips essenciais à Europa, o que ameaçou paralisar - e paralisou - várias linhas de produção automóvel. A Nexperia detém mais de 20% do mercado do segmento.

Os efeitos foram rápidos. A Honda reviu em baixa a sua previsão de lucro anual depois de suspender a produção em várias fábricas; o Grupo Volkswagen e a BMW criaram grupos de trabalho especiais para assegurar o fornecimento de semicondutores. Já entre os fornecedores, a ZF Friedrichshafen e a Robert Bosch também foram obrigadas a reduzir a produção.

Entre os possíveis substitutos da Nexperia contam-se as norte-americanas OnSemi, Vishay e Diodes, além da japonesa Rohm.

Atualmente, a cadeia de abastecimento de chips depende fortemente de fluxos internacionais, o que a torna um dos pontos mais vulneráveis no confronto China-EUA e deixa a Europa numa posição secundária.

“Isto é mais do que uma interrupção temporária. É um risco estrutural: decisões geopolíticas podem remodelar instantaneamente toda a economia de abastecimento”, alertou Sapna Amlani, responsável pela prática global de cadeias de fornecimento da Moody’s, agência de avaliação de risco de crédito.

A ponta do icebergue

Para lá da disputa pelos chips, acumulam-se os receios sobre o fornecimento de terras raras, essenciais para motores e baterias de veículos elétricos. Também aqui a China ocupa uma posição dominante e tem usado essa vantagem como instrumento político.

Esta dependência, afirma a CLEPA, expõe o risco da decisão da União Europeia em avançar exclusivamente com veículos elétricos a partir de 2035. “Não devemos ter ilusões sobre isto. Vai ser difícil durante décadas”, concluiu Zink.

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