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Uma vacina existente pode abrandar a demência e reduzir o risco de morte em 30%.

Enfermeira a aplicar vacina COVID-19 no braço de mulher sénior sorridente numa clínica.

A campanha de vacinação contra o zona (herpes zoster) iniciada no País de Gales em 2013 conduziu a duas conclusões que renovam a expectativa em torno do combate à demência: a vacina parece diminuir o risco de compromisso cognitivo ligeiro e, além disso, pode abrandar a progressão da demência em pessoas que já tinham diagnóstico.

Contexto: o que já se sabia sobre a vacina contra o zona e a demência

Em abril, já tinha sido noticiado que esta vacina poderia ajudar a prevenir o aparecimento de demência, na sequência de resultados publicados na revista científica «Nature».

Agora, uma nova análise de seguimento feita sobre a mesma base de dados associa a vacinação contra o zona a uma redução das mortes por demência em doentes com diagnóstico prévio.

O novo estudo e a hipótese dos vírus que afetam o sistema nervoso

O estudo mais recente, conduzido por uma equipa internacional de investigadores, junta-se a um conjunto crescente de evidência que sugere que controlar vírus com impacto no sistema nervoso - como o vírus varicela-zóster, responsável pelo zona - poderá também proteger contra a demência.

“Como a vacina é segura, acessível e já está amplamente disponível, este resultado pode ter implicações muito relevantes para a saúde pública”, afirma o epidemiologista Haroon Ahmed, da Universidade de Cardiff, no Reino Unido.

“É necessária mais investigação para testar os nossos resultados e compreender melhor o possível efeito protetor da vacina contra a demência, incluindo como e porquê funciona.”

Como a campanha no País de Gales permitiu um “ensaio” sem o ser

A implementação do programa galês pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) - já há mais de uma década - ofereceu aos cientistas uma oportunidade rara: analisar algo muito semelhante a um ensaio clínico aleatorizado, sem o terem de organizar de raiz.

A razão foi um detalhe operacional: para gerir a disponibilidade de doses, as pessoas com 79 anos podiam ser vacinadas, enquanto as de 80 anos não.

Esse critério criou dois grupos muito comparáveis, separados por apenas um ano de idade, o que ajuda a reduzir a influência de fatores que também interferem no risco de demência - como o nível de escolaridade ou outras doenças concomitantes.

Resultados: menos mortes por demência e menos compromisso cognitivo ligeiro

Entre 14.350 pessoas que já tinham sido diagnosticadas com demência antes do arranque do programa de vacinação, cerca de metade morreu devido à doença ao longo de nove anos. De acordo com a análise, estar vacinado contra o zona tornou esse desfecho quase 30% menos provável, o que aponta para um grau de proteção considerável.

Os investigadores observaram ainda que os participantes vacinados tinham menor probabilidade de desenvolver compromisso cognitivo ligeiro - um quadro frequentemente considerado precursor da demência - ou que, quando surgia, poderia evoluir mais lentamente. Em conjunto com os resultados anteriores (que já indicavam menor risco de a demência sequer começar), estes sinais são particularmente encorajadores.

“O mais entusiasmante é que isto sugere que a vacina contra o zona não traz apenas benefícios preventivos e de atraso no desenvolvimento da demência, mas também um potencial terapêutico para quem já vive com demência”, afirma o cientista biomédico Pascal Geldsetzer, da Universidade de Stanford, nos EUA.

O que ainda falta provar e por que razão o efeito pode existir

Apesar de o desenho “acidental” do programa galês tornar a comparação entre grupos muito forte, os dados ainda não são suficientemente robustos para demonstrar uma relação direta e inequívoca de causa-efeito. Ainda assim, revelam uma associação estatisticamente relevante que justifica investigação adicional.

Um dos próximos grandes desafios será perceber por que motivo a vacina contra o zona pode estar a influenciar a evolução e o diagnóstico da demência. É possível que estejam envolvidos mecanismos do sistema nervoso ou do sistema imunitário. Em modelos animais, por exemplo, vírus que afetam o sistema nervoso já foram associados à acumulação de proteínas tóxicas observada na doença de Alzheimer.

Próximos passos: populações maiores e vacinas mais recentes

Estudos futuros poderão analisar amostras mais amplas, abrangendo faixas etárias mais diversas, e também avaliar a vacina mais recente contra o zona. A vacina utilizada no País de Gales em 2013 foi entretanto descontinuada, tendo sido substituída por uma versão mais moderna e melhorada.

Um ponto adicional importante é clarificar se os efeitos observados variam consoante características individuais, como o estado do sistema imunitário, o historial de infeções por vírus neurotrópicos ou a presença de outras doenças crónicas. Compreender essas diferenças pode ajudar a orientar políticas de vacinação e a identificar quem mais poderá beneficiar.

Outra dimensão relevante é a de saúde pública: se estes efeitos se confirmarem, a vacinação poderá ganhar peso não apenas como prevenção de uma infeção dolorosa e potencialmente debilitante, mas também como uma estratégia complementar para reduzir a carga da demência na população, com impacto em doentes, famílias e serviços de cuidados continuados.

“Investir pelo menos uma parte dos nossos recursos a investigar estes mecanismos pode conduzir a avanços tanto no tratamento como na prevenção”, acrescenta Geldsetzer.

A investigação foi publicada na revista «Cell».

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