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"Será difícil e doloroso": Elon Musk admite ter falhado nesta tecnologia da Tesla após 10 anos de promessas.

Carro elétrico branco da Tesla modelo FSD Promise estacionado junto a um posto de carregamento.

O empresário voltou atrás numa promessa antiga.

Quase uma década depois de Elon Musk assegurar repetidamente que os veículos Tesla vendidos ao público viriam a beneficiar de condução autónoma, surgiu finalmente uma admissão no final de janeiro de 2025: afinal, isso ainda não é uma realidade. Mais do que isso, mesmo alguns modelos vendidos com FSD - o pacote Full Self-Driving associado, em teoria, à condução autónoma - não irão tirar partido da funcionalidade de forma efetiva sem alterações adicionais. Eis o que está em causa.

Uma promessa antiga que ficou por cumprir: condução autónoma na Tesla

Numa chamada com investidores e principais acionistas realizada no início de 2025, Elon Musk explicou que os automóveis da Tesla equipados com Hardware 3 terão de ser atualizados para conseguirem suportar o software de condução autónoma que a empresa continua a desenvolver. O CEO foi direto quanto ao impacto dessa decisão:

Penso que a resposta mais honesta é que vamos ter de atualizar o computador Hardware 3 das pessoas que compraram o Full Self-Driving. Vai ser doloroso e difícil, mas vamos fazê-lo.

Esta declaração tende a gerar forte reação entre clientes, e não é difícil perceber porquê. Há anos que a Tesla comercializa uma opção de condução autónoma por um valor muito elevado nos Estados Unidos. Muitos compradores assumiram que, quando a tecnologia estivesse pronta, a ativação chegaria ao seu carro por atualização de software - mas, ao que tudo indica, não será tão simples.

Para quem acompanha este tema há algum tempo, a mudança de tom também não é totalmente inesperada. Elon Musk tem vindo a dizer, repetidas vezes, que a condução autónoma “está quase a chegar”, ao ponto de essa previsão recorrente já ter ganho estatuto de piada recorrente.

Hardware 3 e Full Self-Driving (FSD): o precedente das atualizações

Há ainda um antecedente importante. Em 2019, quando o Hardware 3 começou a ser instalado nos veículos Tesla, condutores que tinham carros com Hardware 2.0 e Hardware 2.5 acabaram por ter de migrar para o novo hardware para manter a perspetiva de aceder às capacidades prometidas. Nessa altura, chegaram mesmo a avançar ações legais ligadas a alegada publicidade enganosa, precisamente por causa da forma como a funcionalidade tinha sido apresentada e comercializada.

A leitura que muitos fazem agora é semelhante: vender um pacote associado à condução autónoma e, mais tarde, admitir que a plataforma instalada não chega para suportar o software em condições, coloca pressão adicional sobre a empresa - e abre espaço a novo descontentamento (e potenciais litígios), dependendo do mercado e das condições de venda.

Tesla ameaçada por nova pressão legal e financeira?

As palavras de Musk deixam a sensação de que a Tesla está a gerir um momento delicado. Mesmo que a empresa tenha aprendido com disputas anteriores, isso não significa que fique imune a custos elevados para cumprir compromissos com clientes, sobretudo se a atualização de Hardware 3 tiver de ser realizada em larga escala.

Há também um risco reputacional: quando o valor pago pelo Full Self-Driving (FSD) foi justificado, em parte, por uma promessa de evolução futura, qualquer mudança de requisitos técnicos tende a ser interpretada como quebra de expectativas - mesmo que a Tesla acabe por “corrigir” a situação com substituições e intervenções de oficina.

Hardware 4, mas condução autónoma continua ausente

E será isto um verdadeiro desfecho? Ainda não. Os veículos que atualmente saem das fábricas já trazem Hardware 4, mas a condução autónoma continua, na prática, por aparecer como capacidade plenamente disponível ao consumidor. Quem pagou antecipadamente por FSD não tem grande alternativa a não ser esperar - e torcer para que, quando for finalmente lançado, o sistema corresponda ao que foi prometido.

Um obstáculo adicional: regras, validação e responsabilidade na Europa

Para além do desafio técnico, existe uma camada que frequentemente passa para segundo plano: a regulação. Na Europa (incluindo Portugal), a disponibilização de funcionalidades de condução com maior autonomia depende de enquadramento legal, validação de segurança e clarificação de responsabilidades em caso de acidente. Mesmo que o software de condução autónoma evolua rapidamente, o ritmo de aprovação e adaptação normativa pode limitar o que chega ao utilizador final e em que condições.

O que esperar de quem comprou FSD

Para os proprietários que investiram no Full Self-Driving (FSD), a questão central passa a ser dupla: se o seu carro (sobretudo com Hardware 3) terá direito a atualização, e quando essa atualização ocorrerá. Até lá, é razoável que muitos se mantenham cautelosos: uma coisa é um conjunto de assistências avançadas ao condutor; outra, bem diferente, é a promessa de condução autónoma com o nível de fiabilidade que o público espera.

Por agora, resta acompanhar os próximos passos da Tesla, tanto no plano técnico (Hardware 3 vs. Hardware 4) como no plano de comunicação com os clientes - e, se necessário, no plano jurídico associado a alegações de publicidade enganosa. A acompanhar.

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