França prepara-se, com discrição, para o que vier depois de Didier Deschamps, enquanto o nome de Zinedine Zidane paira no horizonte como se fosse uma consequência natural.
A seleção francesa já garantiu a presença no Campeonato do Mundo de 2026, mas, em Paris, o discurso parece dividido em duas realidades: o presente, ainda nas mãos de Deschamps, e o futuro, que muitos já imaginam com Zidane no banco. Entre respeito institucional, egos e equilíbrios internos na Federação Francesa de Futebol (FFF), a sucessão vai ganhando forma sem que alguém a assuma de forma explícita.
O calendário e o Mundial 2026: o ponto de viragem para Deschamps e Zidane
No plano desportivo, a cronologia é relativamente evidente, mesmo que ninguém a queira gravar em pedra. Deschamps caminha para o Campeonato do Mundo de 2026 (Estados Unidos, Canadá e México) no fim de um ciclo longo. No currículo, já soma um título mundial como selecionador em 2018, outra final em 2022 e ainda a conquista da Liga das Nações.
Deschamps insiste que a sua energia está toda orientada para a próxima grande competição, não para o legado nem para o nome do sucessor.
Nos bastidores, a direção da FFF sabe que, terminada a prova - aconteça o que acontecer - será necessário tomar uma decisão rapidamente. Mesmo uma boa campanha não garante, desta vez, que haja renovação automática. No país, cresce a sensação de que uma página pode estar prestes a virar.
| Período | Situação de Deschamps | Posição de Zidane |
|---|---|---|
| Agora – verão de 2026 | Mantém-se firmemente no comando da seleção francesa | Treinador livre, à espera do projeto certo |
| Após o Campeonato do Mundo de 2026 | Fim do horizonte atual; decisão por tomar | Principal nome no debate público |
| 2027 e seguintes | Possível função consultiva ou regresso ao futebol de clubes noutro contexto | Potencial selecionador de França ou treinador num clube de topo |
Qualquer conversa séria com Zidane deverá decorrer longe das câmaras. A FFF não tem interesse em desestabilizar Deschamps antes de um evento desta dimensão. Em paralelo, ninguém quer “perder” Zidane outra vez, depois de ocasiões anteriores em que esteve perto de assumir o cargo.
Deschamps fala finalmente de Zidane e da sua candidatura “natural” à seleção francesa
Nos últimos dias, em declarações à imprensa francesa, Didier Deschamps aceitou abordar um tema que, por norma, contorna: a relação com Zinedine Zidane e a possibilidade de o campeão de 1998 lhe suceder no banco de França. O selecionador atual escolheu um tom controlado, ponderado e quase cirúrgico.
Deschamps reconheceu que Zidane é um candidato “natural e esperado”, mas sublinhou que a decisão final nunca dependerá apenas dele.
O detalhe é tudo menos menor. Deschamps recordou que quem escolhe o próximo selecionador é o presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), e não o treinador em funções. Ao salientar isso, cumpre dois objetivos: respeita a regra institucional e afasta-se da ideia de estar a “ungir” ou a abençoar o herdeiro.
Por trás das fórmulas de cortesia, fica um sinal claro. Deschamps já não reage como alguém que quer afastar a hipótese de uma era Zidane. Aceita-a como credível - talvez até provável -, mas recusa fixar datas ou escrever o enredo. A prioridade, para si, continua a ser o Mundial na América do Norte, que, internamente, já identificou como o seu último torneio no cargo.
Zidane tem orbitado o cargo há anos - sem correr atrás dele
Do lado de Zidane, nunca houve grande esforço para fingir desinteresse pelo cargo de selecionador. O que ele fez foi, sobretudo, evitar uma campanha pública. Em 2022, quando completou 50 anos, admitiu com serenidade que treinar a seleção francesa poderia vir a ser “um objetivo, mais tarde”. Sem dramatismos e sem mensagens enigmáticas: apenas uma porta deixada entreaberta.
Desde então, manteve a mesma linha. Numa entrevista à GQ, explicou que, depois de uma carreira como a sua, pensar na equipa nacional parecia “lógico”. Realçou dois pontos: a experiência acumulada no Real Madrid ao mais alto nível e a ligação simbólica à camisola francesa. Para muitos adeptos, esse binómio soa quase a declaração de intenções.
A argumentação de Zidane assenta em três pilares: estatuto lendário como jogador, provas dadas como treinador e uma ligação emocional muito forte à seleção francesa.
O jornal espanhol AS foi mais longe ao sugerir que a entrada poderia acontecer logo após o Campeonato do Mundo de 2026. O guião, no papel, é simples: Deschamps sai, Zidane entra; continuidade com renovação. Porém, a realidade é menos linear: não há nada assinado e ninguém na FFF pode, publicamente, “fechar” um sucessor enquanto Deschamps ainda ocupa o cargo.
Há ainda uma dimensão prática que pode pesar na equação: o encaixe do projeto. Para Zidane, aceitar França não é apenas “querer” o banco; é definir um modelo de trabalho com a FFF, garantir margem para escolher equipa técnica e criar rotinas entre estágios curtos. Numa seleção, o treino diário não existe como nos clubes - e isso exige um perfil de liderança muito específico.
Uma relação respeitosa entre Deschamps e Zidane, mas longe de um conto de fadas
Uma pergunta delicada volta sempre ao debate: qual é, afinal, a relação real entre Deschamps e Zidane? Foram campeões do mundo juntos em 1998 e campeões europeus em 2000. Representaram, lado a lado, uma geração de ouro. O cliché diria que são amigos inseparáveis. O retrato parece mais complexo.
Na RMC, o comentador Daniel Riolo descreveu a ligação entre ambos como “distante, mas correta”. Nem conflito aberto, nem fraternidade. Dois perfis fortes, com percursos distintos: Deschamps, o construtor metódico no banco; Zidane, o líder intuitivo que entrou mais tarde na carreira de treinador, mas explodiu de imediato no Real Madrid.
- História partilhada como jogadores, culminando no triunfo no Campeonato do Mundo de 1998
- Identidades de treinador separadas e redes de influência diferentes
- Respeito mútuo em público, proximidade limitada na esfera privada
Deschamps raramente alimenta o lado pessoal do tema. Prefere referir conversas regulares, respeito e passado comum. Assim, evita dar combustível a narrativas de rivalidade e também impede que qualquer gesto seja lido como sinal político.
O que Zidane poderia acrescentar à seleção francesa
Se Zidane assumir o comando, o que mudaria? O seu perfil como treinador oferece pistas. No Real Madrid, destacou-se menos por revoluções táticas e mais por gerir egos - e, ainda assim, conquistou três Ligas dos Campeões. O ponto forte foi manter um balneário de estrelas funcional, sem o sufocar.
Em França, a matéria-prima seria comparável: Kylian Mbappé no auge, uma nova geração a pressionar por trás e expectativas globais em cada jornada. A presença de Zidane poderia traduzir-se em vários efeitos:
- Maior poder de atração para jogadores com dupla nacionalidade que hesitam entre países
- Um ambiente mais sereno num grupo permanentemente exposto à pressão mediática
- Renovação de princípios ofensivos, mantendo uma base pragmática e competitiva
Deschamps construiu uma cultura de eficácia, por vezes criticada por um estilo mais cauteloso. Zidane poderia preservar essa mentalidade vencedora e, ao mesmo tempo, conceder mais liberdade criativa a determinados jogadores. Poucos treinadores teriam a legitimidade de olhar Mbappé, Griezmann - ou a próxima vaga - de frente, sem ruído.
Um aspeto adicional, muitas vezes subestimado, é a gestão de ciclos. Se Zidane entrar após 2026, terá de preparar não só uma qualificação, mas também uma transição de líderes no balneário. Em seleções, a renovação é menos controlável e mais sensível, porque as hierarquias mudam ao ritmo dos torneios e da opinião pública.
Riscos e pressões escondidas por trás de um cenário “de sonho”
A chegada de Zidane não seria apenas brilho mediático. Viria acompanhada de riscos reais. Substituir um selecionador que acumulou finais e títulos raramente é um caminho suave. A fasquia já está num patamar elevado, e cada deslize passaria a ser analisado à luz da comparação com Deschamps.
Há também o peso emocional. Para muitos franceses, Zidane continua a representar o milagre de 1998 e a dor de 2006. Transformar essa memória numa função quotidiana altera a relação: de herói intocável passa a trabalhador avaliado pela FFF, julgado a cada convocatória e a cada substituição.
O maior desafio de Zidane pode não ser tático, mas psicológico: deixar de ser ícone para ser treinador escrutinado em todas as escolhas.
Existe ainda um risco concreto para a federação: se a negociação falhar - ou se se arrastar - a FFF pode ficar sem Deschamps e sem Zidane, obrigada a improvisar uma terceira via sob pressão mediática e política.
O que observar nos próximos meses
Por agora, os sinais tenderão a surgir em pequenos detalhes, e não em anúncios solenes. Alguns indicadores merecem atenção:
- A forma como Deschamps se expressa nas entrevistas após jogos de maior peso
- Qualquer comentário público do presidente da FFF sobre planeamento a longo prazo
- As decisões do próprio Zidane: esperar até 2026 ou aceitar um projeto de clube antes disso?
Se Zidane voltar a comprometer-se com um clube de grande dimensão, a hipótese França pode ser empurrada por vários anos. Se, pelo contrário, continuar livre, a pressão sobre a federação tenderá a aumentar à medida que o contrato de Deschamps se aproxima do fim.
Este debate sobre sucessão abre também uma reflexão mais ampla sobre o que é, hoje, comandar uma seleção. O cargo mudou: além do treino e da estratégia, o selecionador gere calendários, exigências comerciais, redes sociais e fadiga acumulada dos jogadores. A competência tática continua a contar, mas a liderança humana, o controlo mediático e o planeamento de ciclos tornaram-se decisivos para sobreviver no topo.
Deschamps consolidou o seu percurso dominando esse equilíbrio. Zidane, se avançar, encontrará uma estrutura que exige não só vitórias e troféus, mas também serenidade, controlo e continuidade. O foco não incidirá apenas nele: testará a sua capacidade de lidar com um país que, por vezes, trata a seleção nacional como se fosse um referendo semanal.
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