O cabelo grisalho e o rosto marcado contam a história da idade. O cronómetro, porém, insiste noutra versão. Ano após ano, Emma Maria Mazzenga corre como se estivesse a discutir com o tempo - e, hoje, os investigadores olham para as suas pernas quase como se fossem um laboratório vivo.
A velocista tardia que os cientistas já não conseguem ignorar
Nascida em 1933, nos arredores de Pádua, no norte de Itália, Emma Maria Mazzenga cresceu num tempo sem ciência do desporto, sem planos de treino personalizados e sem relógios GPS. A atletismo chegou-lhe aos 19 anos, quando estudava Biologia na Universidade de Pádua. Ainda assim, acabou por abandonar a pista durante décadas, para criar os filhos e levar uma vida discreta.
Só voltou às competições aos 53 anos. Numa fase em que tanta gente começa a falar em “abrandar”, Emma escolheu precisamente o sprint - a disciplina que castiga qualquer hesitação e recompensa a potência explosiva. Desde então, mantém um padrão simples e exigente: treina duas a três vezes por semana, durante todo o ano, ao ar livre sempre que dá, faça chuva, vento ou calor de verão.
Mesmo nos confinamentos da Covid-19, recusou a ideia de ficar parada. Corria de um lado para o outro num corredor de 20 metros em casa, ou dava voltas ao quarteirão à noite para, como disse a um jornalista, “nunca passar um dia inteiro fechada dentro de casa”. Essa regularidade teimosa, repetida ao longo de quatro décadas, passou a interessar tanto aos fisiologistas como as medalhas.
Aos 91 anos, bateu o recorde do mundo dos 200 metros femininos na categoria acima dos 90, com 51,47 segundos numa pista ao ar livre. No ano seguinte, voltou a melhorar a marca. Aos 90 e muitos, o mais habitual é os tempos subirem - ou simplesmente deixarem de existir porque as pessoas deixam de competir. No caso de Emma, a curva segue ao contrário.
O diário de treino conta uma história: consistência em vez de heroicidades. Os resultados laboratoriais contam outra: os músculos dela não envelheceram ao ritmo esperado.
O que os músculos de Emma Maria Mazzenga revelam ao microscópio
Há um termo direto para a perda muscular associada à idade: sarcopenia. Depois dos 30, a maioria das pessoas perde massa e força muscular a cada década. As fibras de contração rápida - as que alimentam os sprints e os movimentos bruscos - tendem a degradar-se primeiro. As fibras mais resistentes, ligadas à endurance e ao esforço contínuo, encolhem de forma mais lenta, mas também descem. Aos 90, o manual costuma resumir-se a isto: menos força, menos velocidade, mais fragilidade.
Emma não encaixa nesse “manual”. Em abril de 2024, deslocou-se à Universidade de Pavia, onde fisiologistas do exercício lhe fizeram uma avaliação fora do comum. Mediram a força, observaram a respiração durante esforço e recolheram até uma pequena biópsia do músculo da coxa para análise detalhada.
Os dados surpreenderam a equipa. As fibras rápidas dela pareciam as de uma pessoa ativa na casa dos 70, não de alguém com mais de 90. Só isso já seria invulgar. Mas as fibras lentas, essenciais para a resistência e para o trabalho sustentado, mostraram um perfil comparável ao de um adulto treinado de 20 anos.
Em linguagem de laboratório, as fibras lentas comportam-se como juventude; na certidão de nascimento, lê-se 1933.
Amostras e medições atravessaram o Atlântico até à Universidade Marquette, em Milwaukee, onde investigadores como Chris Sundberg analisaram as “centrais elétricas” das células: as mitocôndrias. Os resultados apontam para mitocôndrias que, apesar da idade cronológica, continuam a transformar oxigénio e combustível em energia com uma eficiência pouco comum.
Os testes ao sistema cardiovascular seguem a mesma linha. O modo como o coração e os vasos sanguíneos fornecem oxigénio aproxima-se mais do que seria expectável em alguém por volta dos 50 do que numa pessoa nos 90. Ela não está imune ao envelhecimento, mas o ritmo e o desenho da perda parecem diferentes.
Para investigadoras em fase pós-doutoral como Marta Colosio, envolvida no projeto, Emma destaca-se de todas as pessoas nonagenárias avaliadas até agora. Em muitos participantes mais velhos, a fadiga chega cedo e repetir esforços intensos é difícil. Emma, pelo contrário, continua a suportar sessões de treino intervalado e a competir várias vezes por ano.
Para lá dos genes: o que a rotina dela pode ensinar
A ciência não a trata como uma super-heroína nem como uma anomalia genética para admirar à distância. Vêem-na como um caso humano real, útil para perceber por que razão algumas pessoas mantêm capacidade funcional durante mais tempo - e como o comportamento pode alargar essa margem.
Não há, no dia a dia de Emma, um “protocolo” sofisticado de longevidade nem uma dieta da moda. O estilo de vida é quase minimalista e de outra geração: poucas regras, repetidas sem dramatismo, durante anos.
Como vive e treina Emma Maria Mazzenga (em termos práticos)
- Treina duas a três vezes por semana, ao longo de todo o ano.
- Faz aquecimento, exercícios de técnica e intervalos curtos e intensos.
- Evita refeições pesadas nas três horas antes de uma corrida ou de uma sessão dura.
- Deita-se cedo e raramente fica acordada depois das 22h.
- Nos dias sem treino, caminha com regularidade em vez de descansar por completo.
A alimentação também é contida: comida caseira, porções pequenas, poucos produtos ultraprocessados e quase nada de álcool. Não anda a contar calorias nem a medir rácios de macronutrientes. O que salta à vista é a constância, não a complexidade. Esse ciclo de esforço suficiente e de recusar longos períodos de inatividade pode ser tão decisivo quanto qualquer predisposição genética.
Para quem investiga a longevidade, a vida de Emma funciona como um ensaio de longa duração: intensidade “q.b.”, repetida durante décadas.
Há ainda um fator frequentemente subestimado em histórias como esta: a gestão do risco. Para uma pessoa mais velha, manter trabalho rápido e potente sem acumular lesões exige atenção a sinais de dor, progressões cuidadas e, muitas vezes, ajustes de técnica. Não é apenas “ter força de vontade”; é saber quando insistir e quando adaptar.
Também conta o contexto social. A participação em provas e a ligação a clubes ou comunidades de atletismo veterano tende a criar compromisso e rotina - duas variáveis que ajudam a manter o treino ao longo do tempo. A motivação deixa de depender só do estado de espírito e passa a ter estrutura.
Como este caso está a mudar a conversa sobre envelhecimento
A investigação sobre envelhecimento oscila muitas vezes entre “moléculas milagrosas” e estatísticas frias sobre declínio. A história de Emma fica algures no meio: mostra que ainda é possível mexer o ponteiro, mesmo tarde, sem esperar por um comprimido ou por uma terapia revolucionária.
Equipas na Europa e nos Estados Unidos estão a integrar os dados dela em projetos mais amplos sobre envelhecimento muscular. Avaliam como os nervos comunicam com as fibras musculares, como a irrigação sanguínea se altera e onde o organismo compensa. Em muitos idosos, os nervos afastam-se das fibras, deixando-as “desnervadas”, frágeis e pouco responsivas. No caso de Emma, esse processo parece mais lento ou parcialmente compensado por anos de ativação repetida.
Os resultados dela também obrigam a repensar conselhos de treino para pessoas mais velhas. Recomendações padrão tendem a ficar por caminhadas suaves e alongamentos ligeiros. Isso ajuda, mas pode não ser suficiente para proteger as fibras rápidas, que precisam de estímulos curtos e mais agudos para se manterem. Os sprints regulares de Emma enviam um sinal muito diferente para músculos e sistema nervoso.
| Faixa etária | Padrão comum | O que Emma mostra |
|---|---|---|
| 60–70 anos | Perda gradual de potência muscular, marcha mais lenta | Capacidade de sprint mantida e treino estruturado |
| 80–90+ anos | Maior risco de fragilidade, quedas e dependência | Autonomia, competição e deslocações a laboratórios para testes |
| Nível celular | Queda da eficiência mitocondrial e pior recuperação | Mitocôndrias com produção de energia invulgarmente eficiente |
O que isto pode significar para os seus próprios músculos a envelhecer
Os investigadores mantêm prudência. Nem toda a gente consegue - nem deve - fazer sprints aos 90. Artroses, doença cardíaca e lesões antigas impõem limites que nenhuma determinação anula. Ainda assim, o caso de Emma desloca a pergunta de “o declínio é inevitável?” para “até onde o conseguimos abrandar, a partir de onde estamos agora?”.
Cientistas do desporto que acompanham atletas veteranos observam frequentemente o mesmo padrão, mesmo que menos extremo: pessoas que mantêm algum tipo de treino - força, marcha rápida, ciclismo ou natação - tendem a preservar mais massa muscular, melhor equilíbrio e reflexos mais vivos do que pares sedentários. O corpo responde a sinais repetidos, mesmo quando esses sinais começam aos 60, 70 ou mais.
Para quem quer começar, os princípios por trás da vida dela são mais fáceis de copiar do que os recordes:
- Introduza pequenos “picos” de esforço: subidas curtas a passo vivo, um quarteirão mais rápido na bicicleta, ou escadas subidas com rapidez e controlo.
- Faça treino de força dois dias por semana, com peso do corpo, bandas elásticas ou pesos leves.
- Proteja o sono e a recuperação, em vez de perseguir exaustão constante.
- Evite intervalos longos entre sessões, para o corpo não “esquecer” o movimento.
Porque é que casos como o de Emma fascinam a ciência da longevidade
Os cientistas gostam de casos fora da curva porque obrigam a rever certezas. Na estatística, a maioria segue uma trajetória média. Pessoas como Emma vivem na margem desse gráfico e empurram a investigação a perguntar: o que, exatamente, a colocou ali?
A sua formação em Biologia, concluída há décadas, também influencia a forma como participa no trabalho científico. Ela sabe o que implica uma biópsia, encara testes laboratoriais com calma e lê resumos do que foi analisado nos seus tecidos. Não é apenas um “objeto de estudo”; funciona como parceira numa investigação partilhada.
Outros casos singulares, no passado, mudaram áreas inteiras. Famílias raras com colesterol extremamente elevado conduziram ao desenvolvimento de fármacos como as estatinas. Resistências incomuns a infeções ajudaram a fazer avançar a imunologia. Não é descabido imaginar que o que se aprender com os músculos de Emma venha, um dia, a influenciar recomendações de treino, programas de reabilitação ou até medicamentos que imitem alguns efeitos moleculares da atividade física ao longo da vida.
Por enquanto, ela mantém os planos curtos e concretos: inscreve-se na próxima prova, marca a próxima visita ao laboratório e regressa à pista em dias normais de semana. No papel, é uma avó italiana de 92 anos. Na linha de partida, continua a ser um dado teimoso que obriga a ciência a repensar o que os músculos envelhecidos ainda conseguem fazer.
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