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Aos 64 anos, pensei que estava a perder motivação, mas na verdade apenas mudei as minhas prioridades.

Mulher de cabelo grisalho a trabalhar num computador portátil, sentada numa sala com caderno aberto à frente.

Naquele dia em que percebi que algo tinha mudado, estava em frente ao espelho do meu quarto, já pronta para sair para o trabalho às 6h30, a olhar para uma mulher que quase não reconhecia. O corte de cabelo era o mesmo, o blazer impecável também, e a caneca do costume - o meu ritual - arrefecera em cima da cómoda. Só que a centelha que antes me empurrava porta fora, aquela energia inquieta, tinha-se afastado em silêncio.

Os prazos deixaram de me assustar e também de me entusiasmar. Convites a que antes teria dito logo que sim ficaram por responder no telemóvel. Amigos comentavam, em voz baixa, “estás a abrandar”, com um sorriso gentil que soava mais a prémio de consolação do que a elogio.

E comecei a perguntar-me se era isto: o início daquele deslize lento e prolongado para “menos”.

E se, afinal, fosse outra coisa?

Quando “perdi a minha motivação” é um diagnóstico errado

Aos 64, dei por mim a dizer, aqui e ali, “já não tenho motivação”. Saía-me com uma leveza quase irritante, como quem fala do tempo. Dizia-o em jantares de família, quando a minha filha perguntava por que razão eu não queria liderar mais um projecto. Repetia-o com antigos colegas, num café, enquanto falavam de planos novos e de promoções.

Só que a frase não me assentava bem - como um casaco emprestado que nunca cai exactamente nos ombros certos.

Porque, por dentro, eu continuava a importar-me. Só já não me importava com as mesmas coisas.

A clareza chegou num instante pequeno e muito concreto. Numa segunda-feira de manhã, ignorei três e-mails do meu antigo chefe a pedir se eu podia “entrar numa chamada rápida” para falarmos de consultoria. Noutros tempos, às 10h00 eu já estaria a meio de uma proposta detalhada, com anexos, cronograma e estimativa de custos.

Dessa vez, estava sentada num banco de jardim, a ver o meu neto concentradíssimo a desenhar um arco-íris torto com um lápis de cera já quase no fim. O meu telemóvel vibrava ao meu lado, a iluminar o ecrã uma e outra vez. Eu via a mão pequenina tentar um segundo arco-íris, depois um terceiro, e senti algo que não me visitava há anos: uma alegria calma, larga, sem pressa.

Eu não estava preguiçosa. Não estava vazia. Estava inteira - só noutro lugar.

Foi aí que “caiu a ficha”. Eu não tinha perdido motivação; as minhas prioridades tinham-se reorganizado enquanto eu tentava, a todo o custo, acompanhar uma versão antiga da minha vida.

Durante décadas, “sucesso” significou, para mim, comboios cedo, noites longas, caixas de entrada a zero, equipas para coordenar e metas para ultrapassar. Quando deixei de querer essa passadeira rolante, assumi automaticamente que havia algo “errado” comigo. Na verdade, o meu compasso interior tinha rodado sem alarde.

A mesma força que eu despejava na carreira começou a inclinar-se para a saúde, manhãs tranquilas, conversas com substância e trabalho que parecesse verdadeiro - e não apenas bonito num perfil do LinkedIn. A energia não desapareceu. Mudou de direcção.

Motivação aos 64: aprender a ouvir um novo tipo de impulso

O ponto de viragem aconteceu quando fiz um exercício simples que eu própria tinha proposto, anos antes, a equipas mais novas. Peguei numa folha e desenhei duas colunas: “Antes dava-me energia” e “Agora dá-me energia”. Fiquei ali uns segundos a sentir-me um pouco ridícula, caneta no ar, como uma adolescente a adiar os trabalhos de casa.

Depois, as palavras começaram a aparecer.

Na coluna do “antes”: promoções, conferências, prazos apertados, gerir orçamentos grandes, ver o meu nome em relatórios.
Na coluna do “agora”: caminhadas longas, refeições sem relógio, voluntariado, aprender algo totalmente novo, tempo com pessoas que não querem saber o que eu fiz profissionalmente.

A olhar para aquelas duas listas, percebi: a minha motivação não se evaporou. Cresceu. Amadureceu. E, com isso, deixou de obedecer ao mesmo mapa.

Há também um pormenor de que quase ninguém fala de frente: o corpo muda, e isso altera a forma como a energia se apresenta. Dormimos de outra maneira, recuperamos de outra maneira, e a tolerância ao stress constante tende a baixar. Não é “fraqueza”; é informação. Em vez de lutar contra esses sinais, comecei a tratá-los como dados úteis para decidir onde valia a pena investir o meu dia.

E, em Portugal, esta fase tem um ruído próprio: a reforma (ou a proximidade dela), a ideia cultural de “não parar”, e o peso subtil de parecermos sempre disponíveis - para a família, para o trabalho, para tudo. Entre o orgulho em “aguentar” e o medo de “ficar para trás”, muitos de nós acabamos a confundir cansaço com falta de ambição.

A normalidade de se sentir “plano” - e o que isso realmente pode querer dizer

Se está nos seus sessenta e sente uma espécie de “achatamento” por dentro, não está sozinho. Um inquérito de 2023 sobre bem-estar em fases mais tardias da vida concluiu que muitas pessoas nos 50 e 60 anos relatam menos entusiasmo por objectivos ligados ao trabalho, mas maior satisfação quando investem tempo em relações, passatempos ou causas.

Uma amiga minha, com 67 anos, contou-me que se sentia “inútil” desde que reduzira o horário como médica. Tinha saudades da adrenalina, da urgência permanente. Até que começou a ler todas as tardes para crianças na biblioteca da zona. Um dia disse-me, quase surpresa: “Chego ao fim do dia cansada, mas é um cansaço bom.”

Não era o motor que tinha avariado. Ela só tinha mudado de estrada.

O problema é que a sociedade raramente nos oferece um guião para esta transição. Aplaudimos um trintão ambicioso por “descobrir a sua paixão”, mas tendemos a etiquetar um adulto de 64 que coloca limites como alguém que “está a abrandar”.

E nós engolimos esse julgamento. Chamamos-lhe “perder motivação” quando, muitas vezes, o que estamos a fazer é trocar a urgência da conquista pela profundidade do alinhamento. Essa mudança pode ser desconfortável - sobretudo se a nossa identidade foi construída em torno de produzir, resolver, acelerar.

Se formos honestos, ninguém aguenta empurrar todos os dias, para sempre, sem bater numa parede. E essa parede nem sempre é fracasso. Às vezes é apenas o sinal de que a direcção em que tem corrido já não corresponde à vida que, de facto, quer viver.

Dar a si próprio permissão para mudar prioridades aos 64

Um hábito concreto alterou a forma como eu caminho pelos meus dias. Comecei a fazer uma pergunta silenciosa todas as manhãs, enquanto bebia café: “O que merece genuinamente a minha energia hoje?” Não o que fica bem. Não o que impressiona. O que me merece a mim.

Anotava três coisas - só três. Havia dias em que eram coisas simples: ligar a um vizinho que anda mais sozinho, fazer um exame médico que eu adiava há meses, cozinhar algo mais colorido para o jantar. Noutros, era o contrário: dizer finalmente “sim” a um projecto criativo e dizer “não” a mais um “favor rápido” que, na prática, engolia a tarde inteira.

Ao início, este ritual parecia quase um acto de rebeldia. Depois começou a parecer respeito. Pelo meu tempo. Pelos anos que ainda tenho pela frente.

Muitos de nós caímos no mesmo erro: interpretamos qualquer quebra de entusiasmo como falha pessoal, em vez de a lermos como um sinal. Apertamos mais, acumulamos mais, tentamos “voltar” a ser quem éramos aos 40. E, quando isso não resulta, aparece a culpa.

Se isto lhe soa familiar, não está estragado. Está em transição. O equívoco é avaliar o “eu” dos 64 com as métricas do “eu” dos 40. Física, emocional e profissionalmente, o jogo mudou - e as regras também.

Haverá dias em que ainda vai querer objectivos grandes e arrojados. E haverá outros em que a sua maior vitória será desligar o telemóvel e ver a luz a mudar na parede da sala. As duas coisas podem ter valor. As duas podem ser escolhas intencionais, e não sinais de declínio.

Uma terapeuta com quem falei disse-me: “Com o avançar da idade, os valores tendem a ficar mais claros - não mais fracos.” Essa frase ficou comigo e reorganizou-me por dentro.

Confundimos ruído com propósito. Aos 64, tem o direito de escolher propósito em vez de ruído.

Para não me esquecer, construí um lembrete pequeno, mas visível, das minhas novas prioridades. Escrevi-as em notas autocolantes e coloquei-as dentro de uma moldura simples, em cima da secretária. Coisas como:

  • Proteger as manhãs para o que me alimenta, não para o que me esgota
  • Dizer “sim” a pessoas que me deixam mais leve, não mais pequena
  • Fazer, todas as semanas, pelo menos uma coisa apenas por curiosidade
  • Descansar sem pedir desculpa por isso
  • Trabalhar em projectos onde a experiência vale mais do que a velocidade

Isto não era “abrandar”. Era reinvestir energia onde ela realmente faz crescer alguma coisa.

Quando a sua vida deixa de caber na história antiga

Hoje, em algumas noites, sento-me na varanda e penso na mulher que acreditava que a motivação era um bem fixo - algo que se tem ou se perde. A mesma mulher que ignorava enxaquecas para acabar um relatório, mas empurrava a alegria para “outra altura”. Essa “outra altura” chegou. E não se parece nada com o que eu imaginava aos 40.

Eu continuo a trabalhar, mas de outra forma. Recuso projectos que não combinam com os meus valores, mesmo quando pagam bem. Digo “sim” a viagens mais lentas, a tardes sem plano, a conversas que não cabem em conversa de circunstância. Há menos adrenalina e mais firmeza. Menos performance e mais presença.

Talvez esteja aí também, nessa borda em que a antiga narrativa de sucesso já não serve - mas ainda não encontrou palavras para a nova. Esse espaço assusta e liberta ao mesmo tempo. E é nele que se decide o que passa a contar, daqui para a frente.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A motivação raramente desaparece Muitas vezes desloca-se para novas prioridades, como saúde, relações ou sentido Reduz a auto-culpa e abre espaço para redefinir objectivos
Verificação diária de alinhamento Perguntar “O que merece genuinamente a minha energia hoje?” e listar três coisas Ferramenta simples para orientar a motivação para o que importa agora
Novo guião de vida após os 60+ Passar da validação externa para valores internos e presença Ajuda a ver a mudança como crescimento, não como declínio

Perguntas frequentes

  • Pergunta 1: Como sei se perdi mesmo motivação ou se as minhas prioridades apenas mudaram?
    Repare para onde a sua energia vai naturalmente quando ninguém está a ver. Se ainda se sente envolvido e “vivo” a fazer certas coisas, a motivação continua lá - apenas aponta para um lugar novo.

  • Pergunta 2: Aos 64, já é “tarde demais” para mudar de direcção na vida?
    Não. Muita gente começa novas carreiras, projectos ou hábitos nos sessenta e até nos setenta. A escala pode ser diferente, mas o sentido de propósito pode ser igualmente forte.

  • Pergunta 3: E se a minha família achar que estou a desistir por abrandar no trabalho?
    Tente explicar para o que está a avançar, e não apenas o que está a deixar. Partilhe os valores por detrás das suas escolhas, para que vejam uma mudança de foco - não um colapso.

  • Pergunta 4: Sinto culpa por escolher descanso em vez de produtividade. Como lido com isso?
    A culpa costuma vir de regras antigas que já não o servem. Comece com momentos pequenos e intencionais de descanso e lembre-se de que são um investimento na sua saúde e na sua presença - não um desperdício.

  • Pergunta 5: Posso continuar a definir objectivos se as minhas prioridades se afastaram do trabalho?
    Claro. Os seus objectivos podem ser relacionais, criativos, físicos ou espirituais. O essencial é que combinem com quem é hoje - não com quem achou que tinha de ser antes.

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