A adolescência é frequentemente associada a comportamentos de risco: nos Estados Unidos, os adolescentes têm maior probabilidade de morrer por lesões do que as crianças mais novas. Mas o que explica este aumento da assunção de riscos à volta da puberdade?
Observações recentes sobre riscos físicos em chimpanzés sugerem uma explicação diferente da ideia de que, de repente, os jovens passam a “gostar” mais do perigo. O que parece mudar, sobretudo, é o grau de supervisão: quando a vigilância diminui, aumentam as oportunidades para experimentar comportamentos arriscados.
Porquê estudar riscos físicos em chimpanzés?
Investigamos a locomoção em chimpanzés, um dos parentes vivos mais próximos dos seres humanos. Em pessoas, estudar risco físico de forma controlada é difícil, porque não é ético expor alguém a perigo. Já os chimpanzés selvagens, independentemente da idade, têm de se deslocar nas árvores - muitas vezes a grandes alturas - o que cria, naturalmente, situações com potencial de queda.
Durante o trabalho de campo, Bryce Murray, então estudante de licenciatura na Universidade do Michigan, reparou num pormenor importante: nem todos os movimentos que os chimpanzés fazem nas árvores têm o mesmo grau de risco.
Na maioria das deslocações, eles sobem ou balançam mantendo uma preensão firme nos ramos. Ainda assim, por vezes saltam por cima de clareiras entre árvores e, noutras ocasiões, largam completamente o ramo, deixando-se cair para outro ramo mais abaixo - ou mesmo para o chão.
E nem sempre “acertam” a aterragem. Anos de observação na natureza mostram que as quedas são uma fonte relevante de ferimentos e podem mesmo causar a morte em chimpanzés.
A partir daí, surgiu a pergunta central: será que o padrão de assunção de riscos físicos nos chimpanzés se parece com o dos humanos? Ou seja, os chimpanzés passam a assumir mais riscos - como saltar e largar ramos - quando entram na puberdade?
Considerámos também outra questão: em humanos, há evidência de que os homens tendem a assumir mais riscos do que as mulheres (embora isso varie entre culturas). Serão os machos chimpanzés também mais propensos ao risco do que as fêmeas?
Jovens temerários: a assunção de riscos nos chimpanzés, adolescência e puberdade
O nosso grupo de estudo incluiu mais de 100 chimpanzés selvagens, com idades entre 2 e 65 anos, em Ngogo, no Parque Nacional de Kibale, Uganda.
Os resultados foram claros: os chimpanzés exibiram as formas mais ousadas de locomoção na fase final da infância (entre os 2 e os 5 anos). A partir daí, a frequência de saltos e quedas voluntárias foi diminuindo de forma constante com a idade.
Comparando com os adultos (mais de 15 anos), os indivíduos na infância mais velha tinham três vezes mais probabilidade de realizar comportamentos arriscados. Os juvenis (dos 5 aos 10 anos) tinham 2,5 vezes mais probabilidade, e os adolescentes (dos 10 aos 15 anos) eram duas vezes mais prováveis. As crias com menos de 2 anos passam a maior parte do tempo agarradas às mães, pelo que não as incluímos na análise.
Assim, ao contrário do que se observa frequentemente na narrativa sobre humanos, a adolescência não representa um pico de assunção de riscos nos chimpanzés; é apenas um ponto dentro de uma descida gradual associada ao envelhecimento. Além disso, não encontrámos diferenças estatisticamente significativas entre sexos em nenhuma idade - algo que está em linha com trabalhos anteriores, nos quais machos e fêmeas diferem pouco na forma como se deslocam na copa das árvores.
Este padrão também encaixa no que estudos laboratoriais anteriores já tinham indicado, embora com foco em riscos de “aposta” e não em riscos físicos.
Nessas experiências, pede-se aos chimpanzés que escolham entre uma opção segura e outra arriscada - por exemplo, uma caixa que garante um petisco aceitável (como amendoins) versus uma caixa “surpresa”, que pode conter um alimento muito apetecível (como banana) ou uma opção pouco interessante (como pepino).
À medida que envelhecem, os chimpanzés tendem a preferir cada vez mais a opção segura - os amendoins. Em humanos, observa-se algo semelhante: com a idade, aumenta a aversão ao risco.
Em suma, quer no ambiente natural, nas árvores, quer no laboratório, os chimpanzés não mostram um aumento específico de risco quando atingem a puberdade.
O que isto sugere sobre a assunção de riscos em humanos
As mães chimpanzé não conseguem restringir eficazmente o comportamento das crias para lá dos 2 anos. Por essa altura, os pequenos deixam de se agarrar com tanta frequência e já não permanecem em contacto constante.
Nas nossas observações de saltos e largadas, 82% das crias estavam fora do alcance do braço da mãe.
Em contraste, as crianças humanas tendem a ser acompanhadas de perto pelos pais e pelo que cientistas sociais chamam “alopais”: outros cuidadores adultos, como avós, e também crianças mais velhas - em especial irmãos. Embora as práticas parentais variem muito em todo o mundo, há um padrão recorrente entre culturas: as crianças são, de forma consistente, supervisionadas, e as limitações vão sendo gradualmente afrouxadas quando chega a adolescência.
A nossa hipótese é simples: se pais e outros cuidadores observassem menos de perto as crianças, os mais novos provavelmente assumiriam mais riscos físicos ainda antes de se tornarem adolescentes. O estudo com chimpanzés ajuda, assim, a perceber como a supervisão pode moldar a assunção de riscos físicos nas pessoas.
Um ponto adicional é que a supervisão não é apenas “vigiar”: inclui regras, desenho dos espaços e normas sociais. Parques, escolas e bairros determinam o quão acessível é trepar, saltar ou correr riscos - e, por isso, alterações no ambiente podem amplificar ou reduzir oportunidades de risco tanto quanto a presença direta de um adulto.
O que ainda não sabemos (e porque pode importar)
É importante considerar que outros fatores podem contribuir para a diminuição do risco físico à medida que os chimpanzés amadurecem. Uma explicação plausível é a necessidade crescente de prudência nos adultos.
Mesmo que os primatas mais jovens fraturem ossos com mais frequência quando caem, os adultos têm maior massa corporal e ossos menos flexíveis; por isso, as lesões associadas a quedas tendem a ser mais fatais em idades avançadas.
Além disso, há questões em aberto sobre como variáveis como experiência motora, aprendizagem social e contexto (por exemplo, competir por alimento ou deslocar-se sob pressão) interagem com a idade para influenciar decisões de movimento. Estudos futuros que cruzem comportamento, contexto social e características do habitat poderão clarificar se a redução do risco é sobretudo estratégica, fisiológica, ou ambas.
Estudar chimpanzés ajuda a iluminar o papel combinado da evolução e da cultura no desenvolvimento humano.
Equilibrar a supervisão parental com a necessidade de brincar é um desafio. As preocupações com lesões em crianças são legítimas, mas ferimentos ligeiros podem fazer parte normal do desenvolvimento. Na infância - quando os ossos são mais resilientes - o brincar pode permitir praticar comportamentos arriscados de forma relativamente mais segura.
Alguns antropólogos defendem aumentar o acesso das crianças a brincadeiras com procura de emoção - incluindo as tradicionais escadas de macaco dos parques infantis - como uma forma de desenvolver competências motoras e reforçar a força do esqueleto.
Laura M. MacLatchy, Professora de Antropologia, Universidade do Michigan, e Lauren Sarringhaus, Professora Auxiliar de Biologia, Universidade James Madison
Este artigo foi republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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