Os nossos animais de companhia vivem hoje muito mais tempo do que no passado, mas essa longevidade traz um risco acrescido de declínio cognitivo com semelhanças à demência humana à medida que envelhecem.
Nos cães, este problema é conhecido como síndrome de disfunção cognitiva (CDS). Trata-se de uma doença subtil, progressiva e, muitas vezes, de instalação lenta - tão gradual que pode passar despercebida até aos tutores mais atentos.
À semelhança do que acontece em pessoas com doença de Alzheimer (a forma mais comum de demência), os cães com CDS podem desenvolver alterações na aprendizagem, na memória e nas funções executivas (como planear, adaptar rotinas e responder a mudanças).
Sinais de CDS/CCD (disfunção cognitiva canina) que podem passar despercebidos
Os sinais neurológicos são descritos como “muito inespecíficos”, mas podem incluir desorientação, mudanças nas interacções sociais, sujidade em casa, ansiedade e perturbações do ciclo sono–vigília. Um cão pode, por exemplo, esquecer-se de onde está a taça de água, evitar pessoas (ou, pelo contrário, ficar excessivamente dependente), ladrar ou uivar sem estímulo aparente, dormir menos ou andar de um lado para o outro durante a noite sem objectivo.
Para ajudar os tutores a reconhecer padrões, existe uma sigla de referência: DISHA(A), que resume os sinais mais frequentes:
- D - Desorientação em ambientes familiares
- I - Alterações nas Interacções (com pessoas e/ou outros animais)
- S - Alterações do ciclo Sono–vigília
- H - Sujidade em Casa (urinar/defecar em locais inabituais)
- A - Alterações nos níveis de Actividade
Por vezes, acrescentam-se mais “A” à sigla, incluindo agressividade e ansiedade.
Reconhecer cedo estas mudanças é crucial: o declínio cognitivo em animais pode agravar-se em poucos meses, e quanto mais cedo se intervém, maior é a probabilidade de preservar qualidade de vida.
Diagnóstico de CCD: escalas, limitações e o desafio de confirmar a doença
A CDS também é conhecida como disfunção cognitiva canina (CCD). Consoante a região e a prática clínica, um cão pode ser diagnosticado com CCD através de escalas validadas, como: - Canine Dementia Scale (CADES) - Canine Cognitive Assessment Scale (CCAS) - Canine Cognitive Dysfunction Rating Scale (CCDR)
Apesar destas ferramentas, a ausência de um teste padronizado universal e de um biomarcador fiável faz com que os investigadores ainda estejam a optimizar a forma mais rigorosa de identificar o distúrbio - sobretudo nas fases iniciais, quando as alterações podem ser atribuídas a “envelhecimento normal”.
Num estudo recente com 70 cães com 7 ou mais anos, utilizando o diagnóstico por CADES, verificou-se que quase 66% apresentavam disfunção cognitiva, e 11% mostravam disfunção grave. Não é claro se estes valores se repetem da mesma forma quando se usam outras escalas para avaliar CCD.
Actualmente, a única forma de estabelecer uma confirmação definitiva de CCD é através da análise do cérebro após a morte.
O que se observa no cérebro e porque é que os cães ajudam a compreender a demência humana
De forma particularmente interessante, os cérebros de cães que morreram com CCD exibem vários marcadores semelhantes aos observados em cérebros humanos afectados pela doença de Alzheimer, incluindo emaranhados de proteínas e acumulação de placas de amiloide.
Este paralelismo torna os cães modelos animais valiosos para estudar processos que também ocorrem no cérebro humano.
Num artigo de perspectiva publicado em Setembro de 2025, uma equipa de neurocientistas nos EUA defendeu que, ao contrário de roedores, os cães são um modelo útil para demência porque partilham o ambiente humano e os seus factores de risco associados. Alguns destes investigadores integram o Dog Aging Project, da Universidade de Washington, que procura não só aumentar a longevidade dos cães, como também contribuir para avanços com impacto na saúde humana.
Segundo os autores, “o cão de companhia oferece um modelo de doença que contrasta com modelos animais mantidos em contextos altamente regulados e pouco naturais, como laboratórios ou canis”. Concluem ainda que, “se a CCD puder servir como um modelo de doença em grande animal para a doença de Alzheimer em humanos, o poder translacional de futuros estudos [caninos] poderá fazer avançar significativamente a medicina humana”.
Intervenção e tratamento: o que já existe e o que está a ser estudado
Não existe cura para a chamada “demência canina”. Ainda assim, estão a ser testadas abordagens que podem melhorar a qualidade de vida e, potencialmente, a longevidade de cães séniores.
Uma revisão científica publicada no início deste ano salientou que, infelizmente, quando os sinais clínicos e comportamentais se tornam muito graves, pode ser tarde demais: manifestações severas estão fortemente associadas a neurodegeneração avançada, uma condição progressiva e irreversível. Os autores alertam também para o impacto na relação tutor–animal: a frustração e irritabilidade de quem cuida podem agravar o vínculo, além de afectarem directamente o bem-estar do cão.
Na prática, algumas medidas de protecção e gestão no dia-a-dia podem incluir:
- Bloquear zonas perigosas da casa (por exemplo, escadas), reduzindo o risco de quedas e acidentes
- Aumentar ou ajustar os passeios, para diminuir episódios de eliminação dentro de casa
- Introduzir medicação, quando indicada pelo veterinário, como melatonina em casos seleccionados (por exemplo, para alterações do sono)
Selegilina e outras opções farmacológicas
Nos EUA, a selegilina é frequentemente sugerida para cães com declínio cognitivo associado à idade, embora a sua eficácia seja considerada incerta. A selegilina é o único fármaco aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento de CDS em cães; no entanto, em humanos, o medicamento foi considerado ineficaz como tratamento para demência.
Treino cognitivo e investigação em cães séniores
Dado o sucesso limitado das opções farmacológicas, investigadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, estão a estudar se exercícios de treino específicos podem melhorar a cognição em cães séniores com CCD.
Em 2024, a veterinária Tracey Taylor, da Universidade de Adelaide, afirmou que alguns estudos sugerem que até 60% dos cães séniores - sobretudo com mais de 11 anos - podem ser afectados por demência canina. Acrescentou que muitos tutores interpretam os sinais como simples “abrandamento” associado à idade, mas que sintomas como perder-se dentro de casa, alterar o comportamento social com outros cães ou humanos e ficar a olhar para o vazio podem ser indicadores de CCD.
Dois passos extra que podem ajudar (em complemento do acompanhamento veterinário)
Para além da segurança em casa e das estratégias já referidas, há dois eixos frequentemente úteis na gestão de cães com sinais compatíveis com CDS/CCD:
Primeiro, enriquecimento ambiental estruturado: jogos de procura de comida, rotinas curtas de treino com reforço positivo e actividades olfactivas simples podem estimular o cérebro sem gerar stress. O objectivo não é “exigir desempenho”, mas manter o cão envolvido, previsível e confiante.
Segundo, avaliação veterinária regular e exclusão de outras causas: dor crónica, perda de visão/audição, alterações hormonais e doenças sistémicas podem imitar (ou agravar) sinais de declínio cognitivo. Ajustar analgesia, corrigir problemas médicos e adaptar rotinas pode reduzir significativamente ansiedade, alterações do sono e acidentes em casa.
A investigação sobre demência canina pode beneficiar simultaneamente os cães e as pessoas - melhorando o bem-estar dos nossos companheiros e ajudando a compreender, com maior realismo, o que acontece no cérebro humano com a idade.
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