Vários cães nos EUA morreram após contraírem infeções provocadas por uma doença recentemente identificada e transmitida por carraças, pertencente ao mesmo género bacteriano associado à febre maculosa. A comunidade científica está a acompanhar de perto este microrganismo, por receio de que possa vir a infetar seres humanos.
Especialistas em saúde salientam que muitos “parentes” desta bactéria conseguem afetar a nossa espécie, pelo que o género Rickettsia “deve ser sempre encarado como potencialmente patogénico” para pessoas. Por isso, a vigilância apertada é essencial.
Rickettsia finnyi (febre maculosa): como foi descoberta a nova espécie
Investigadores da Universidade Estadual da Carolina do Norte conseguiram, pela primeira vez, cultivar em laboratório a infeção a partir de um cão doente que apresentava sinais semelhantes aos da febre maculosa das Montanhas Rochosas (RMSF; espécie Rickettsia rickettsii), também ela transmitida por picadas de carraça.
Após sequenciarem o genoma do agente infecioso, a equipa percebeu que se tratava de uma espécie totalmente nova dentro do grupo da febre maculosa. A bactéria foi baptizada como Rickettsia finnyi - em homenagem a Finny, o cão no qual foi detetada no sangue.
Casos em cães, sintomas e desfechos clínicos
“Reportámos pela primeira vez esta nova espécie de Rickettsia numa série de casos de 2020 que envolveu três cães”, afirma a investigadora veterinária Barbara Qurollo, da Universidade Estadual da Carolina do Norte.
“Desde então, recebemos amostras de mais 16 cães - sobretudo do Sudeste e do Meio-Oeste - infetados pelo mesmo agente patogénico.”
Estas infeções perigosas provocam sintomas de intensidade moderada a grave, incluindo febre, letargia e deficiências de plaquetas no sangue (trombocitopenia).
Felizmente, a maioria dos cães recuperou após tratamento com antibióticos. Ainda assim, um cão morreu antes de ser diagnosticado e outro foi eutanasiado. Houve também um caso particularmente trágico: um animal de companhia teve recaída após o tratamento e acabou por morrer devido a síndrome nefrótica.
Porque as bactérias Rickettsia preocupam e são difíceis de confirmar
A RMSF é considerada uma das infeções mais virulentas e perigosas causadas por bactérias do género Rickettsia. No entanto, existem mais de duas dezenas de espécies, e várias podem provocar doença em mamíferos. Muitas delas só foram identificadas nas últimas décadas graças a técnicas avançadas de imagiologia molecular.
Embora humanos e cães não sejam vistos como peças essenciais no ciclo de vida de Rickettsia, tanto nós como os nossos animais podemos atuar como portadores ocasionais.
Em muitas regiões do mundo, os habitats humanos sobrepõem-se aos das carraças; cada contacto aumenta a probabilidade de nos tornarmos hospedeiros oportunistas.
Qurollo explica ainda que as bactérias Rickettsia são difíceis de cultivar em laboratório porque crescem no interior de outras células. Apesar disso, o cultivo continua a ser a forma mais segura de confirmar a sua verdadeira identidade.
Diagnósticos confundidos e o exemplo de Rickettsia parkeri
Um exemplo relevante é Rickettsia parkeri, que por vezes consegue infetar cães e bovinos no Sudeste dos EUA. Ainda assim, a primeira infeção humana só foi reconhecida em 2004. Isto levanta a possibilidade de que alguns diagnósticos atribuídos à RMSF nessa zona do país pudessem, na realidade, corresponder discretamente a R. parkeri.
“Até há pouco tempo, R. rickettsii era o único [agente de febre maculosa] conhecido por causar doença em cães na América do Norte”, escrevem os investigadores da Universidade Estadual da Carolina do Norte.
Agora, tudo indica que existe mais um.
Persistência em células de mamíferos e possível reservatório em animais de companhia
Apesar de só um número reduzido de cães ter sido confirmado como infetado, é plausível que existam outros casos ainda por diagnosticar. O alinhamento genómico mostra que a nova bactéria tem muito poucas diferenças face a outros agentes patogénicos do grupo da febre maculosa.
Em experiências laboratoriais, a bactéria revelou-se bem adaptada a sobreviver em células hospedeiras de mamíferos, crescendo em células imunitárias caninas por mais de 104 dias.
Isto sugere que os nossos animais de companhia podem funcionar como reservatório da infeção.
Que carraças poderão transmitir Rickettsia finnyi?
“Embora ainda não tenhamos conseguido confirmar que espécie de carraça a transmite, pensamos que possa estar associada à carraça-estrela-solitária (Amblyomma americanum), porque um grupo de investigação no Oklahoma encontrou ADN de R. finnyi [nessa espécie]”, explica Qurollo.
De forma reveladora, a distribuição geográfica desta carraça coincide com as áreas de onde provinham os cães doentes.
Implicações para saúde pública e prevenção: vigilância, diagnóstico e controlo de carraças
Tendo em conta o potencial de este agente patogénico saltar entre espécies, os investigadores defendem que identificar com precisão os seus hospedeiros e vias de transmissão será determinante para evitar impactos na saúde pública.
Para os tutores, a prevenção passa por reduzir ao máximo o risco de picadas: manter antiparasitários externos adequados ao animal, inspecionar pelagem e pele após passeios (sobretudo em zonas de mato e erva alta) e remover carraças rapidamente e de forma correta. Perante febre, apatia, hemorragias cutâneas ou sinais compatíveis com trombocitopenia, a avaliação veterinária deve ser imediata.
Do ponto de vista da abordagem “Uma Só Saúde”, é igualmente importante reforçar a articulação entre medicina veterinária, medicina humana e laboratórios, com notificação e monitorização consistentes e recurso a métodos moleculares e cultivo quando possível, para evitar confusões entre agentes do grupo da febre maculosa.
O estudo foi publicado na revista Doenças Infeciosas Emergentes.
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