A Marinha dos Estados Unidos deu mais um passo na aproximação entre o caça de quinta geração F-35 Lightning II e sistemas de combate não tripulados, depois de uma demonstração tática conduzida pela Divisão de Aeronaves do Centro de Guerra Aérea Naval (NAWCAD) no Ambiente Conjunto de Simulação (JSE). O ensaio mostrou, num cenário virtual de elevada complexidade, de que forma o F-35 pode actuar em coordenação com a Aeronave de Combate Colaborativa (CCA) da Marinha, recorrendo a simulação avançada para testar conceitos de emprego.
Segundo o NAWCAD, a iniciativa serviu para criar e validar tácticas e estratégias de operações conjuntas entre aeronaves tripuladas e sistemas de combate não tripulados, apoiando-se em modelos digitais de alta fidelidade concebidos para reproduzir situações de combate realistas.
“A guerra moderna exige mais dos nossos aviadores”, afirmou o Contra-almirante Todd Evans, comandante do NAWCAD. “Este marco demonstra o impacto do Ambiente Conjunto de Simulação (JSE), ao dotá-los das tácticas avançadas de que precisam para vencer as batalhas do futuro.”
Como o F-35 Lightning II operou com a Aeronave de Combate Colaborativa (CCA)
Durante a demonstração, pilotos do F-35 controlaram múltiplos Comandos Aéreos de Combate (CACs) através de tablets com ecrã tátil, coordenando missões simuladas num ambiente virtual altamente credível. O exercício incorporou sistemas avançados de comunicações operacionais e o emprego de mísseis guiados de precisão para envolver ameaças complexas dentro do JSE.
O que é o Ambiente Conjunto de Simulação (JSE) e por que é decisivo
O Ambiente Conjunto de Simulação (JSE) funciona como um campo digital de treino e ensaio do Departamento de Defesa, desenhado para replicar cenários de combate num espaço virtual. Desenvolvido por engenheiros do NAWCAD, combina simuladores de cockpit, software avançado e sistemas visuais imersivos.
De acordo com a agência, o JSE permite que os pilotos realizem mais missões de treino numa semana do que conseguiriam completar num ano em campos de tiro reais, o que acelera a aprendizagem, melhora a repetição de cenários críticos e reforça a prontidão operacional.
Além do volume de treino, a simulação traz outra vantagem prática: é possível testar rapidamente alterações a tácticas, perfis de missão e interfaces homem-máquina sem os custos, limitações meteorológicas e condicionantes de segurança que frequentemente restringem exercícios com munições reais e aeronaves em voo.
O papel das aeronaves de combate colaborativas (CCA) na estratégia futura
As aeronaves de combate colaborativas (CCA) da Marinha são veículos não tripulados multimissão, concebidos para operar lado a lado com caças tripulados em ambientes fortemente contestados. Estes sistemas são vistos como um pilar da estratégia futura, porque libertam o piloto para decisões de nível superior, enquanto ampliam o alcance, a persistência e a capacidade de geração de efeitos no teatro de operações.
Neste enquadramento, o Ambiente Conjunto de Simulação (JSE) torna-se central para amadurecer conceitos e tácticas operacionais que permitam integrar plataformas de quinta geração, como o F-35 Lightning II, com drones colaborativos, de forma progressiva e mensurável.
Um desafio inevitável desta integração é garantir ligações de dados robustas e seguras, com resistência a interferência electrónica e a tentativas de intrusão. Em operações reais, a vantagem não resulta apenas do número de plataformas, mas da confiança na conectividade, na gestão de latência e na protecção das comunicações e do software.
Expansão do JSE para outras plataformas da aviação naval
O NAWCAD indicou ainda que o JSE continuará a receber novas plataformas, incluindo:
- E-2D Advanced Hawkeye
- F/A-18E/F Super Hornet
- EA-18G Growler
O objectivo é permitir testes e treino integrados a partir do exercício fiscal de 2026.
Em paralelo, o centro acolhe todos os anos dezenas de esquadrões e centenas de pilotos, promovendo cooperação conjunta e internacional em treino avançado de combate aéreo. A infra-estrutura do JSE está em expansão, com instalações adicionais em desenvolvimento na Estação Aeronaval de Fallon, na Base Aérea de Nellis e na Base Aérea de Edwards.
Contexto da indústria e tecnologia
A evolução observada na Marinha insere-se num movimento mais amplo de desenvolvimento de capacidades cooperativas entre aeronaves tripuladas e não tripuladas. Em Outubro de 2024, a Lockheed Martin anunciou investimento em tecnologias para permitir que o F-35 controlasse até oito aeronaves de controlo autónomo (CCAs), com a ambição de apoiar a próxima fase do programa de drones colaborativos da Força Aérea dos EUA.
“Desenvolvemos um pod que permitirá ao F-35 controlar CCAs já hoje”, disse o director executivo da Lockheed Martin, Jim Taiclet, numa apresentação a investidores. “E temos um sistema de controlo de voo e um sistema de comunicações em desenvolvimento que também permitirão isso.”
Em Janeiro de 2025, a empresa declarou que o F-35 já tinha demonstrado capacidade para actuar como “agente de segurança aérea” de drones avançados, recorrendo a sistemas assistidos por inteligência artificial e a uma interface de ecrã tátil no cockpit. De acordo com a Lockheed Martin, os ensaios incluíram conectividade ponta a ponta e arquitecturas de software e hardware orientadas para futuras fases de testes do F-35.
A empresa acrescentou, em comunicado:
“A Lockheed Martin demonstrou a sua interface de trabalho em equipa para drones pilotados, que pode controlar múltiplos drones a partir do cockpit de um F-35 ou de um F-22.”
Responsáveis da Força Aérea indicaram que o número de drones controláveis por uma aeronave tripulada continua em avaliação. O secretário da Força Aérea, Frank Kendall, afirmou em 2024:
“Agora estamos a falar de números maiores. Portanto, estamos a caminhar para uma maior dependência de aeronaves não tripuladas a operar em conjunto com plataformas tripuladas.”
Ainda assim, a Lockheed Martin não é a única a trabalhar neste domínio. A Collins Aerospace, divisão da Raytheon (hoje formalmente conhecida como RTX), divulgou em Setembro de 2024 um vídeo gerado por computador que antecipa como, no futuro, pilotos poderão controlar drones semelhantes aos CCAs.
Esta direcção tecnológica também é impulsionada por características já presentes no F-35, como um ecrã digital de grande área no cockpit. A configuração Technology Refresh-3 (TR-3), que fornece a base de software e hardware para evoluções do Bloco 4, inclui igualmente um visor panorâmico melhorado no cockpit.
Projecção e… sexta geração?
A demonstração do NAWCAD reforça a tendência de integração operacional entre caças de quinta geração e drones colaborativos, tanto na Marinha como na Força Aérea dos EUA. Ambientes avançados de simulação como o JSE estão a consolidar-se como ferramenta decisiva para definir tácticas, interfaces e conceitos de emprego que aceleram a transição do laboratório e do simulador para missões reais.
Ao mesmo tempo, é natural perguntar se esta integração entre caças e drones permite já falar em caças de sexta geração. A resposta permanece negativa: embora uma das características mais relevantes dos futuros caças furtivos de sexta geração para domínio aéreo seja a lógica de “sistema de sistemas” (um sistema de armas como o do F-47 a operar em conjunto com um conjunto de drones), existem atributos que os actuais caças de quinta geração não reúnem.
Um desses atributos é a furtividade de banda larga, que lhes permitiria evitar radares de alta e baixa frequência, tornando-os difíceis de detectar não apenas por radares de controlo de tiro, mas também por radares de alerta antecipado e de vigilância.
Outra diferença esperada passa pelos novos motores (como os programas XA100/XA101), capazes de alterar o fluxo de ar em pleno voo. Isto pode traduzir-se em elevada eficiência de combustível para perfis de longo alcance e, em simultâneo, num aumento instantâneo de potência para combate, permitindo um supercruzeiro mais eficiente.
Por fim, prevê-se que a próxima geração de caças venha a integrar armamento a laser, com níveis de precisão e eficácia superiores aos das munições convencionais.
Por estas razões, não é correcto concluir que a capacidade do F-35 Lightning II para controlar enxames de drones significa que os EUA já dispõem de caças furtivos de sexta geração. Ainda assim, trata-se de um avanço relevante para a plataforma, com potencial para lhe conferir uma vantagem de combate muito significativa face a aeronaves rivais.
Imagens meramente ilustrativas.
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