Taiwan está a preparar-se para tornar a ilha de Formosa praticamente inexpugnável face a um cenário de agressão por parte da China, apostando numa massa crítica de mísseis anti-navio das famílias Hsiung Feng e Harpoon. A lógica é clara: com sistemas de defesa costeira em grande número, qualquer força anfíbia que tente aproximar-se para desembarcar enfrentará um verdadeiro “inferno” no mar.
Segundo noticiou o portal taiwanês Liberty Times, as Forças Armadas de Taiwan não só consolidaram a produção em série dos mísseis Hsiung Feng concebidos e fabricados localmente, como continuam a integrar 400 mísseis de defesa costeira RGM-84L Harpoon adquiridos aos Estados Unidos. A publicação sublinhou que, com este pacote de capacidades, “Taiwan tornar-se-á o país com a maior densidade de mísseis anti-navio do mundo”.
O mesmo meio acrescentou ainda que, com o orçamento extraordinário do “Projecto de Melhoria do Poder Naval e Aéreo” a entrar na fase de produção máxima, a fabricação em massa da série Hsiung Feng deverá ficar concluída até ao final deste ano. Nessa altura, o volume combinado de mísseis anti-navio produzidos internamente e comprados aos EUA atingirá uma escala considerada crítica, reforçando de forma significativa a dissuasão de Taiwan perante o Exército de Libertação Popular da China e estabelecendo a rede de defesa costeira mais densa do mundo. O objectivo passa por consolidar várias camadas de linhas defensivas para responder a ameaças aéreas, de superfície e submarinas.
Para além do número de mísseis, há um factor tão importante quanto a munição: a forma como estes meios são comandados e integrados. Uma rede de defesa costeira eficaz depende de sensores, comunicações e procedimentos que permitam detectar, identificar, atribuir alvos e disparar em ciclos muito curtos, sobretudo num teatro congestionado como o Estreito de Taiwan. A dispersão das unidades, a mobilidade dos lançadores e a redundância das ligações de comando tendem a ser determinantes para sobreviver a uma primeira vaga de ataques e manter a capacidade de fogo.
Também a sustentação logística e a manutenção ganham peso quando se fala em centenas de mísseis e dezenas de lançadores. A disponibilidade operacional exige stocks, transporte, equipas técnicas, peças e treino contínuo, bem como a capacidade de reabastecer e reposicionar sistemas sob pressão. Numa crise prolongada, a robustez desta “retaguarda” pode ter impacto directo na cadência de fogo e na persistência da defesa costeira.
Comando e integração: Comando de Operações Costeiras e a rede de mísseis anti-navio
Paralelamente à aquisição de armamento, Taiwan pretende criar uma estrutura que coloque todos os seus sistemas de defesa costeira sob uma única cadeia de comando. De acordo com o Liberty Times, está previsto que o Comando de Operações Costeiras seja criado em julho deste ano, com o propósito de unificar a gestão da Brigada Haifeng, enquadrar as novas unidades de mísseis Harpoon e integrar os Hsiung Feng II, Hsiung Feng III e o Hsiung Feng III de alcance alargado num sistema de combate único.
Aquisição do sistema de defesa costeira Harpoon
Em 2020, Taiwan deu início ao processo com os EUA para adquirir dezenas de sistemas de defesa costeira Harpoon, um esforço que começou a materializar-se nos anos seguintes. O pedido taiwanês - com um custo estimado de 2,37 mil milhões de dólares - incluía:
- 400 mísseis de superfície Harpoon Block II RGM-84L-4
- 4 mísseis de treino Harpoon Block II RTM-84L-4
- 411 contentores
- 100 Unidades de Transporte de Lançadores do Sistema de Defesa Costeira Harpoon
- 25 camiões equipados com radar
- Componentes associados à linha logística, manutenção e suporte
Um dos marcos mais relevantes surgiu em Outubro de 2024, quando Washington efectuou a primeira entrega significativa: 32 sistemas de lançamento e 128 mísseis RGM-84L-4, de um total de 400 previstos, representando um avanço importante no calendário do programa. Ao longo de 2025, Taiwan continuou a receber sistemas Harpoon, embora sem divulgação pública de quantidades ou detalhes adicionais.
As defesas terrestres baseadas no Harpoon são ainda complementadas pela variante de lançamento aéreo, com mísseis que podem equipar os caças F-16 Fighting Falcon da Força Aérea de Taiwan. A frota taiwanesa de F-16 ultrapassa a centena de aeronaves e foi recentemente modernizada para o padrão F-16V. Em paralelo, prossegue a incorporação de mais de 60 F-16C/D Block 70.
Desenvolvimento local: a família de mísseis Hsiung Feng de Taiwan
O Liberty Times destacou também que o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Chung-Shan (NCSIST) - responsável pela investigação, desenvolvimento e produção da família Hsiung Feng - conseguiu aumentar a capacidade anual de fabrico das várias versões: Hsiung Feng II, Hsiung Feng III e Hsiung Feng III de alcance alargado.
De acordo com a publicação, “o Hsiung Feng II e o Hsiung Feng IIE (Hsiung Sheng) partilham uma linha de produção, com uma produção anual de aproximadamente 131 mísseis. A produção anual combinada do Hsiung Feng III e do Hsiung Feng III de alcance alargado é de cerca de 70 mísseis. Quando o orçamento especial para capacidades de combate naval e aéreo estiver concluído no final deste ano, a produção total destes três tipos de mísseis anti-navio ultrapassará os 1000”.
Taiwan começou a operar a variante Hsiung Feng II em meados da década de 1990. Desde então, além de introduzir melhorias sucessivas neste míssil, desenvolveu versões com capacidades reforçadas, incluindo maior alcance, carga explosiva, e maior resistência a contramedidas, entre outros aperfeiçoamentos.
Num horizonte muito próximo, espera-se que o Ministério da Defesa Nacional adopte uma abordagem orçamental anual para manter a produção de Hsiung Feng II e Hsiung Feng III modernizados com novos subsistemas. Estas alterações deverão aumentar a precisão e a resistência a interferência electrónica, estando estimada a produção de cerca de 232 mísseis adicionais.
Imagem de capa meramente ilustrativa. Créditos: Forças Armadas de Taiwan
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