Num contexto de discussão crescente sobre a modernização da aviação de combate portuguesa - impulsionada pela necessidade de substituir os F-16 da Força Aérea Portuguesa (FAP) - voltou a ficar claro, a partir dos Estados Unidos, que o país continua a promover e a apoiar o caça furtivo F-35 como principal proposta. Essa orientação foi reforçada por declarações do embaixador norte-americano em Lisboa, que defendeu a evolução do processo no sentido de integrar a aeronave de quinta geração da Lockheed Martin, argumentando que a sua adopção asseguraria interoperabilidade com as forças aéreas europeias mais relevantes.
F-35 (caça furtivo de quinta geração) e a interoperabilidade da Força Aérea Portuguesa
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo, disse à CNN Portugal que o F-35 permitiria à FAP alinhar-se plenamente com os padrões operacionais mais avançados no quadro da União Europeia. “O F-35 é o melhor caça; é um caça furtivo de quinta geração, vai colocá-los na Liga dos Campeões quando o tema é a UE”, afirmou Arrigo. O diplomata acrescentou que existem mais de 900 aeronaves do modelo já em serviço ou encomendadas na Europa e sustentou que, do ponto de vista da interoperabilidade, “o F-35 é definitivamente o caminho a seguir”, referindo ainda que 25% do aparelho é produzido com componentes europeus.
Processo de substituição dos F-16 ainda sem arranque formal
As declarações surgem numa fase em que Portugal ainda não deu início formal ao procedimento de selecção para substituir os actuais F-16M Fighting Falcon. Em Novembro, o ministro da Defesa português, Nuno Melo, confirmou que o processo continuava por iniciar, mantendo em aberto a definição política quanto ao futuro sistema de combate a adoptar.
Em paralelo, Arrigo indicou que tenciona apoiar-se na sua experiência empresarial para cooperar com Lisboa no aumento do investimento em defesa até aos 5% do produto interno bruto (PIB) até 2035, em linha com objectivos definidos no âmbito da OTAN.
Posição militar: o F-35 como solução, com decisão final política
No plano estritamente militar, o chefe do Estado-Maior da Força Aérea Portuguesa, general Cartaxo Alves, explicou no final de 2025 que a instituição já identificou o F-35 como a opção militar mais adequada para substituir os F-16, sublinhando, ainda assim, que a decisão final pertence ao poder político. Nas suas palavras, compete à Força Aérea apontar qual a melhor solução para uma determinada capacidade, mas cabe depois aos decisores políticos tomar a decisão, ponderando vantagens, desvantagens e riscos, e determinando se se deve ou não avançar.
O general destacou também que a realidade europeia mostra uma orientação firme de muitos países, mas frisou que é indispensável considerar factores como os prazos de entrega, tanto para aeronaves de quinta geração como de sexta geração. Segundo o oficial, estas vias não se excluem: se Portugal actuar de forma adequada, poderá operar aeronaves de quinta geração e, mais tarde, introduzir aeronaves de sexta geração dentro de uma janela temporal compatível.
A frota actual: F-16A/B Block 15 MLU, esquadras e missões OTAN
Hoje, o pilar central da aviação de combate portuguesa assenta em cerca de 27 F-16A/B Block 15 MLU, integrados desde meados da década de 1990 através dos programas Peace Atlantis I e II. Com mais de 30 anos de serviço, estes aparelhos operam nas esquadras 201 “Falcões” e 301 “Jaguares”, assegurando missões de defesa do espaço aéreo nacional e destacamentos em operações de Polícia Aérea da OTAN no Leste da Europa.
Neste enquadramento, diferentes fabricantes já manifestaram interesse no futuro substituto, incluindo a Airbus Defence and Space, que promove o Eurofighter Typhoon como alternativa.
Custos, formação e infra-estruturas: variáveis críticas no “sistema F-35”
Para além da plataforma em si, a eventual adopção do F-35 implica decisões estruturantes sobre formação, manutenção e infra-estruturas. A transição de uma frota F-16 para um caça furtivo de quinta geração tende a exigir investimento adicional em simuladores, adaptação de hangares e procedimentos de segurança, bem como a consolidação de uma cadeia logística alinhada com o ecossistema do programa.
Outro ponto central é a gestão do ciclo de vida: a discussão não se limita ao preço de aquisição, mas abrange disponibilidade, custos de operação, capacidade de actualização e integração em redes de missão - aspectos que pesam directamente na prontidão da Força Aérea Portuguesa e na sua contribuição para compromissos OTAN.
Participação europeia e retorno industrial
A referência de John Arrigo ao facto de 25% do F-35 integrar componentes europeus coloca em cima da mesa a questão do retorno industrial. Em qualquer modelo de substituição dos F-16, ganha importância a forma como Portugal poderá capturar valor através de manutenção, reparação e modernização (MRO), participação de fornecedores nacionais e cooperação com polos industriais europeus já inseridos nas cadeias de fornecimento.
Este tipo de opções pode influenciar prazos, custos e autonomia operacional, sobretudo quando o objectivo inclui interoperabilidade e sustentação a longo prazo num ambiente de elevada exigência tecnológica.
Sexta geração: Portugal como observador no FCAS e no GCAP
Em paralelo ao debate em torno do F-35, Portugal anunciou que participará como observador num dos dois programas europeus de desenvolvimento de caças de sexta geração. O ministro da Defesa, João Nuno Lacerda Teixeira de Melo, afirmou que esta condição não representará custos para o país e que permitirá aceder, com antecedência, a progressos técnicos e doutrinários.
Actualmente, a Europa promove o Future Combat Air System (FCAS), liderado por França, Alemanha e Espanha, e o Global Combat Air Programme (GCAP), encabeçado pelo Reino Unido, Itália e Japão. Estes programas apontam a entrada ao serviço de novas plataformas por volta de 2035 e 2040, respectivamente.
Enquadramento geopolítico e económico do debate
As decisões sobre o futuro substituto dos F-16 estão a ser discutidas num quadro mais amplo de relações estratégicas e económicas. Os Estados Unidos têm indicado que se consideram o “melhor parceiro” de Portugal, ao mesmo tempo que defendem a necessidade de manter potenciais adversários “à distância”.
Portugal aderiu em 2018 à Iniciativa da Faixa e Rota da China, e empresas chinesas detêm participações relevantes em sectores estratégicos nacionais - um factor adicional no cenário geopolítico em que se insere o debate sobre a próxima geração da aviação de combate portuguesa.
Imagens meramente ilustrativas.
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