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Conflito no Irão e bloqueio do Estreito de Ormuz: porque o preço dos automóveis pode disparar

Carro elétrico desportivo azul, modelo Hormuz-24, com luzes dianteiras modernas, estacionado dentro de garagem iluminada.

A intensificação do conflito no Irão tem efeitos que vão muito além da fatura dos combustíveis e da energia: pode chegar, de forma direta, ao preço dos automóveis. Quando a instabilidade se prolonga, os aumentos deixam de estar confinados ao consumidor que abastece e passam a refletir-se nos custos de produção, transporte e abastecimento de componentes.

Além da valorização acentuada do Brent, a indústria automóvel enfrenta uma pressão adicional com o bloqueio do Estreito de Ormuz. Esta passagem marítima, crucial para o comércio internacional, transformou-se num foco de tensão logística que ameaça encarecer o fabrico e, consequentemente, o preço final dos veículos.

A relevância de Ormuz, porém, não se limita ao petróleo. Por esta rota escoam também Gás Natural Liquefeito (GNL), alumínio e polímeros essenciais - como o polietileno e o polipropileno. Num setor que ainda tenta normalizar as cadeias de fornecimento após a pandemia, um bloqueio deste tipo pode abrir a porta a um novo episódio de rutura.

“Cada crise que se soma à outra torna-se exponencialmente mais difícil lidar”, avisou Dan Hearsch, co-líder global para o setor automóvel e industrial na AlixPartners.

Indústria automóvel sob fogo cruzado no Estreito de Ormuz

Atualmente, o Médio Oriente representa cerca de 10% da produção mundial de alumínio. Com o desvio de rotas para contornar zonas de conflito e a ameaça de minas marítimas, os prazos de transporte alongaram-se e os prémios de seguro aumentaram de forma significativa, agravando os custos ao longo de toda a cadeia.

Dados da S&P Global e da PwC indicam que os custos logísticos do setor já subiram entre 25% e 40% face aos níveis pré-pandemia, refletindo tanto os preços elevados da energia como a subida dos custos de mão de obra.

A interrupção sente-se até nos materiais mais básicos usados no fabrico. Analistas da Roland Berger calculam que a instabilidade no fornecimento de polímeros pode encarecer os plásticos e químicos integrados nos veículos entre 15% e 25%. Num automóvel atual, que inclui em média 150–200 kg de componentes plásticos, este aumento pode traduzir-se numa pressão forte sobre as margens de lucro.

Para além do impacto imediato nos preços, este tipo de choque obriga os fabricantes a rever práticas de aprovisionamento: reforço de stocks de segurança, renegociação de contratos e maior foco em alternativas com menor exposição a rotas de risco. Em paralelo, cresce o interesse em soluções de economia circular - como a reciclagem de alumínio e de alguns plásticos - não apenas por razões ambientais, mas também como forma de reduzir dependências em momentos de tensão.

Nova crise de semicondutores à vista?

O alumínio e os polímeros não são as únicas preocupações. A indústria automóvel acompanha com inquietação o fornecimento de semicondutores e de células de baterias, devido à origem de parte dos gases nobres indispensáveis ao fabrico de microchips.

Segundo Peter Klimek, diretor do Instituto Austríaco de Inteligência da Cadeia de Fornecimento (ASCII), cerca de um terço do hélio mundial necessário para este tipo de produção tem origem no Qatar.

“Tudo dependerá da rapidez com que os fabricantes vão garantir fontes alternativas”, alerta Klimek. O especialista acrescenta que, se houver rutura, o setor automóvel será dos primeiros a sentir o efeito: “A prioridade será dada a setores vitais, como o dos equipamentos médicos.”

Neste contexto, a resposta tende a passar por redundância na cadeia de fornecimento: validação de novos fornecedores, qualificação de materiais alternativos e, sempre que possível, diversificação geográfica. Ainda assim, estes movimentos demoram meses - e, em alguns casos, anos - o que aumenta o risco de volatilidade nos prazos de entrega e nos custos industriais.

Soluções para mitigar o impacto

Para limitar danos no curto prazo, os fabricantes procuram diversificar fornecedores e, em simultâneo, aproximar componentes críticos das unidades de produção de veículos, reduzindo a dependência de rotas instáveis e de gargalos marítimos.

Do ponto de vista comercial, pode voltar a ganhar força uma lógica semelhante à aplicada durante a pandemia: privilegiar a rentabilidade em detrimento do volume. Com peças e recursos mais escassos, as marcas poderão concentrar a produção em modelos topos de gama, que tendem a gerar margens superiores, deixando em segundo plano os veículos de entrada de gama e mais acessíveis.

Como refere Stefan Bratzel, diretor do Centro de Gestão Automóvel, parte destes custos poderá ter de ser suportada pelos compradores. Para a S&P Mobility, o risco de contágio é concreto: “Se o aumento dos preços das matérias-primas se espalhar pela economia, o impacto nos orçamentos das famílias criará um efeito dominó na queda das vendas de veículos”.

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