A escalada dos preços dos combustíveis desencadeada pela guerra no Irão continua sem qualquer sinal de abrandamento. Depois de uma primeira vaga de decisões no início da semana, o Governo garante que vai avançar com novos apoios - mas não para todos.
Desde que o Irão fechou o estreito de Ormuz no final de Fevereiro, os preços nos postos de abastecimento têm disparado. A razão é directa: este estreito concentra uma parcela muito relevante dos fluxos petrolíferos mundiais e a sua interrupção apertou de imediato a oferta, empurrando as cotações para cima.
O choque não ficou limitado ao petróleo. Os fertilizantes seguiram a mesma trajectória, já que 33% do tráfego mundial destes produtos passa por este corredor marítimo, o que amplifica as tensões nas cadeias de abastecimento agrícolas.
O que fizeram outros países europeus perante os preços dos combustíveis
Perante a dimensão da crise, vários países europeus optaram por medidas universais, dirigidas a todos os condutores:
- Itália: reduziu os impostos sobre o combustível em 25 cêntimos por litro durante 20 dias.
- Grécia: lançou um cartão digital de combustível equivalente a uma subvenção de 36 cêntimos por litro.
- Suécia: aplicou uma descida de 9 cêntimos na gasolina e de 4 cêntimos no gasóleo.
A Espanha foi ainda mais longe ao cortar para metade o IVA dos combustíveis - de 21% para 10% - o que representou, em média, uma poupança de 20 cêntimos por litro para os automobilistas. Já o Governo francês seguiu uma via diferente.
França aposta em medidas «cibladas» para os combustíveis (transportadores, pescadores e agricultores)
No início da semana, a ministra da Agricultura, Annie Genevard, em conjunto com o Ministério dos Transportes, apresentou um primeiro pacote de resposta. Entre as medidas anunciadas constam:
- adiamentos de contribuições MSA e de obrigações fiscais;
- empréstimos de tesouraria destinados a agricultores, pescadores e transportadores rodoviários;
- uma dotação de 500 milhões de euros em empréstimos estruturais para os sectores mais fragilizados.
A lógica assumida é a de proteger, prioritariamente, as actividades em que o consumo de combustível é uma condição de funcionamento e não uma opção.
Novos anúncios para os «grandes quilómetros», mas sem alargar o apoio
Na quinta-feira, 26 de Março, o ministro da Economia, Roland Lescure, afirmou na RTL que o Governo estará «em condições de anunciar novas medidas para os grandes quilómetros nos próximos dias». Os destinatários estão, segundo o próprio, claramente identificados: transportadores, pescadores e agricultores.
O Executivo, porém, não pretende estender o apoio para lá destes sectores. «Só o ciblamento funcionará», decidiu o ministro, sublinhando que a resposta deverá concentrar-se em quem mais depende do gasóleo e da gasolina para assegurar serviços essenciais e produção.
Em paralelo, Lescure convocou, já para segunda-feira, uma reunião dos ministros das Finanças e da Energia do G7, bem como de banqueiros centrais, com o objectivo de coordenar uma reacção comum. «Enfrentamos um choque externo que terá um custo colectivo; a questão é como repartir esse custo e enfrentá-lo em conjunto», acrescentou.
Uma consequência prática desta estratégia é que, até à divulgação das novas medidas, os restantes consumidores terão de esperar - mesmo com o impacto imediato na carteira a cada abastecimento.
O estreito de Ormuz e o risco de contágio a muitos bens do dia a dia
Entretanto, a crise pode rapidamente ultrapassar o tema do preço nos postos. Pelo estreito de Ormuz circulam todos os meses cerca de 4 milhões de toneladas de nafta, matéria-prima de base de toda a indústria petroquímica mundial.
Da nafta dependem cadeias produtivas inteiras: plásticos, medicamentos, têxteis sintéticos e cosméticos. Na prática, mais de 90% dos objectos do quotidiano estão ligados, directa ou indirectamente, a estes insumos, o que pode traduzir-se numa subida do preço de numerosos bens correntes.
O que observar nas próximas semanas
Se a pressão sobre os preços dos combustíveis se mantiver, o impacto tenderá a alastrar a sectores onde o custo do transporte e da energia pesa mais no preço final - da alimentação (via fertilizantes e logística) a produtos de higiene e consumo rápido (via petroquímica). Isto aumenta o risco de um efeito dominó sobre a inflação e sobre o poder de compra.
Ao mesmo tempo, a aposta em medidas «cibladas» reabre o debate sobre como equilibrar justiça social e eficiência orçamental: apoiar quem percorre muitos quilómetros por necessidade económica - os grandes quilómetros, como transportadores, pescadores e agricultores - reduz o risco de paragens e rupturas, mas deixa a maioria dos automobilistas exposta à volatilidade associada ao estreito de Ormuz e à guerra no Irão.
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