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Crianças esquisitas com comida precisam de suplementos? Especialista esclarece.

Pai ajuda filho a comer legumes e grãos durante a refeição numa cozinha iluminada e acolhedora.

Passeie pela secção de saúde de qualquer supermercado e é provável que encontre prateleiras cheias de suplementos de vitaminas e minerais para crianças, com embalagens apelativas e cores chamativas.

Muitos destes produtos garantem que ajudam a reforçar a imunidade, a estimular o desenvolvimento cerebral e a apoiar um crescimento saudável - o que leva inúmeros pais a concluírem que são um “extra” indispensável na alimentação dos mais pequenos.

Para quem tem em casa uma criança que escolhe tudo ao detalhe, os suplementos podem parecer uma solução rápida e tranquilizadora. A questão é: são mesmo necessários?

Os nutrientes de que as crianças realmente precisam

É verdade que as crianças necessitam de um conjunto alargado de vitaminas e minerais - incluindo as vitaminas A, B, C, D, E e K, bem como folato, cálcio, iodo, ferro e zinco - para um desenvolvimento saudável.

Estes nutrientes têm funções essenciais no organismo: contribuem para o desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso, para a visão, para a robustez óssea, para a função imunitária, para o metabolismo e para a manutenção de um peso saudável.

Ainda assim, na maioria das crianças saudáveis, estes nutrientes podem - e devem - vir sobretudo da alimentação, e não de suplementos.

Mesmo as crianças com hábitos alimentares selectivos, em geral, acabam por obter nutrição suficiente através de alimentos comuns do dia a dia, muitos dos quais são fortificados. Produtos consumidos regularmente, como cereais de pequeno-almoço, leite e pão, são frequentemente enriquecidos com nutrientes importantes, como vitaminas do complexo B, ferro, cálcio e iodo.

O que diz a ciência sobre suplementos de vitaminas e minerais para crianças

Apesar de muitos suplementos de vitaminas e minerais para crianças anunciarem benefícios como “apoio à imunidade”, “crescimento” ou “bem-estar geral”, existe pouca evidência científica robusta de que, em crianças saudáveis, estes produtos melhorem resultados de saúde ou previnam doenças.

As principais entidades de saúde são claras: crianças que fazem uma alimentação variada, regra geral, não precisam de suplementação adicional.

Além disso, a investigação tem mostrado de forma consistente que obter vitaminas e minerais a partir de alimentos integrais é preferível a consumi-los sob a forma de suplemento. Os alimentos fornecem estes nutrientes juntamente com fibra, enzimas e compostos bioactivos - como fitoquímicos e gorduras saudáveis - que favorecem a absorção, o metabolismo e a eficácia global de uma forma que suplementos isolados não conseguem reproduzir.

Riscos potenciais e consequências inesperadas

É importante que os pais tenham presente que os suplementos não são isentos de riscos.

As vitaminas lipossolúveis - como A, D, E e K - podem acumular-se no organismo quando ingeridas em excesso. Se atingirem níveis tóxicos, podem provocar problemas de saúde. No caso das vitaminas A e B, esses problemas podem ser graves e, em situações extremas, até causar morte.

Doses elevadas de outras vitaminas hidrossolúveis, como a vitamina C, tendem a ser menos perigosas, mas ainda assim podem provocar efeitos indesejáveis, como diarreia, ou interferir com a absorção de outros nutrientes.

Há também um aspecto prático e dietético: muitos suplementos infantis são aromatizados ou adoçados para se tornarem mais atractivos. Isto pode facilitar a toma, mas acrescenta açúcares e ingredientes artificiais à alimentação das crianças - com o risco de enfraquecer hábitos alimentares saudáveis.

E existe ainda uma dimensão psicológica. Dar suplementos de forma rotineira como resposta a comportamentos alimentares comuns - como “esquisitice” ou preferência por poucos alimentos - pode, sem intenção, transmitir a ideia de que uma pastilha ou um comprimido substitui uma alimentação nutritiva, em vez de ser uma ajuda pontual.

O que os pais devem fazer na prática

A forma mais fiável de assegurar que as crianças recebem as vitaminas e minerais essenciais é apostar numa alimentação variada e equilibrada. Na prática, isto traduz-se em incluir, de forma regular, lacticínios, carne, aves, peixe, cereais integrais, frutos secos, sementes, leguminosas, e uma variedade colorida de fruta e legumes.

Se, em sua casa, as refeições se transformam numa negociação intensa por causa de uma única ervilha, saiba que não está sozinho. Estudos indicam que quase metade das crianças passa por uma fase de selectividade alimentar - um comportamento com raízes no nosso passado evolutivo.

Os seres humanos desenvolveram uma aversão a alimentos desconhecidos ou amargos como mecanismo de sobrevivência, para evitar possíveis toxinas. Em paralelo, aprenderam a procurar e a armazenar energia através de alimentos mais palatáveis e densos em calorias, para enfrentar períodos de escassez.

Então, como podem os pais incentivar, com calma e consistência, os mais pequenos a aceitar opções mais saudáveis e com mais cor?

  • Variar sem perder a familiaridade. Combine alimentos “bege” ou brancos, menos nutritivos, com ingredientes mais ricos. Por exemplo, junte feijão-cannellini e couve-flor ao puré de batata para aumentar o valor nutricional sem alterar demasiado o sabor habitual.
  • Fazer substituições progressivas. Vá trocando, passo a passo, pão, massa e arroz brancos por versões integrais. Uma estratégia simples é misturar arroz integral com arroz branco e aumentar gradualmente a proporção do integral.
  • Usar o conhecido como ponte. Apresente alimentos novos e coloridos ao lado de favoritos já aceites. Experimente oferecer fruta com iogurte ou acrescentar um molho vermelho ou verde à massa, tornando os novos sabores menos intimidantes.

Com pequenas mudanças planeadas, os pais conseguem apoiar a nutrição da criança e ajudá-la a construir uma relação positiva com a comida - mesmo quando os gostos são muito selectivos.

Rotinas, porções e exemplo: duas peças que muitas vezes faltam

Para além das escolhas alimentares, a consistência do ambiente à mesa conta muito. Horários relativamente regulares, refeições sem pressa e sem ecrãs ajudam a criança a reconhecer sinais de fome e saciedade e a reduzir a resistência ao experimentar novos alimentos.

Também pode ser útil ajustar expectativas: porções infantis devem ser pequenas, e repetir exposições ao mesmo alimento (sem pressão) é frequentemente o que leva, com o tempo, à aceitação. Ver os adultos a comerem os mesmos alimentos, com naturalidade, costuma ser um dos estímulos mais eficazes.

Quando a suplementação pode fazer sentido

Ainda assim, há situações em que a suplementação pode ser adequada - por exemplo, em crianças com défices nutricionais diagnosticados, com condições médicas específicas ou com dietas muito restritas.

Nesses casos, os pais devem procurar aconselhamento de um profissional de saúde qualificado, como um médico de família ou um nutricionista pediátrico. Sinais de alerta podem incluir sintomas como obstipação persistente ou indícios de crescimento comprometido.

Mas, para a maioria das crianças, os suplementos vitamínicos não são necessários - e podem estar a causar mais prejuízo do que benefício.

Nick Fuller é autor de *Healthy Parents, Healthy Kids – Six Steps to Total Family Wellness*. As suas ideias de receitas gratuitas e práticas para uma alimentação nutritiva e variada estão disponíveis em feedingfussykids.com.

Nick Fuller, Director de Ensaios Clínicos, Departamento de Endocrinologia, Hospital RPA, Universidade de Sydney.

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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