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Povo Turkana no Noroeste do Quénia: genes que sustentam uma dieta de leite, carne e sangue

Dois homens em zona rural com vacas ao fundo; um segura laptop com imagem de DNA, outro um recipiente tradicional.

No Noroeste do Quénia, o povo Turkana vive há gerações num dos ambientes mais áridos do planeta. Para se manterem, estes pastores nómadas dependem sobretudo dos seus rebanhos de camelos e cabras, consumindo principalmente leite, carne e, em certas ocasiões, sangue.

Em muitos casos, até cerca de 80% da alimentação Turkana é composta por produtos de origem animal. Para a maioria de nós, uma dieta tão centrada em carne - rica em gordura e proteína - tenderia a provocar problemas de saúde rapidamente.

Dieta Turkana e escassez de vegetais comestíveis selvagens

Uma das razões pelas quais esta alimentação chama a atenção dos cientistas é o acesso reduzido a vegetais comestíveis selvagens ao longo do ano. Ainda assim, esta população mantém, em geral, bons indicadores de saúde, o que levou investigadores a procurar explicações biológicas para esta tolerância a um padrão alimentar extremo para outros contextos.

“Se eu e tu passássemos a comer como os Turkana, com muita carne, gordura e proteína, provavelmente ficaríamos doentes muito depressa”, afirmou o biólogo Julien Ayroles, em declarações ao jornalista Robert Sanders, nas notícias da Universidade da Califórnia, Berkeley. “Mas esta comunidade alimenta-se assim há muitas gerações e está adaptada.”

O estudo genómico nos Turkana: amostras, entrevistas e comparação de variantes genéticas

Com autorização da comunidade e dos seus líderes mais velhos, a geneticista genómica Amanda Lea, da Universidade de Vanderbilt, e a sua equipa realizaram entrevistas e recolheram amostras de urina e sangue de 308 pessoas Turkana.

Entre os participantes, alguns mantinham o modo de vida nómada e pastoral, enquanto outros já tinham transitado para uma vida mais sedentária em vilas ou cidades - um contraste importante para compreender como o ambiente pode interagir com a biologia.

Desidratação crónica, mas saúde geral preservada

Um resultado particularmente surpreendente foi que a grande maioria dos pastores Turkana apresentava desidratação crónica e, ainda assim, se encontrava globalmente saudável. Para perceber o que poderia estar por trás desta resiliência, os investigadores compararam os genes dos Turkana com os de outras comunidades indígenas da região.

Ao analisar quase 8 milhões de variantes genéticas no total, a equipa identificou oito zonas do ADN onde surgiam diferenças consistentes.

O gene STC1, os rins, a retenção de água e a purina

Uma dessas diferenças aparece no gene STC1, associado a uma maior retenção de água pelos rins. A equipa de Lea considera que esta característica pode ajudar a proteger os rins perante a carga adicional de resíduos metabólicos - como a purina - que tende a aumentar com um consumo elevado de carne.

Em excesso, a purina está frequentemente ligada ao desenvolvimento de gota, mas esta doença não é comum entre os Turkana, o que é coerente com a hipótese de uma adaptação fisiológica a longo prazo.

Desajuste evolutivo e riscos quando há urbanização

Os investigadores admitem, no entanto, que estas diferenças genéticas podem tornar-se desvantajosas quando alguém abandona o contexto tradicional e se muda para a cidade. Noutro ambiente - com dieta distinta, padrões de actividade diferentes e novas exposições - variantes que foram úteis podem passar a aumentar o risco de doença.

Este cenário dá força à ideia de “desajuste evolutivo”, há muito proposta para explicar diversas doenças frequentes em sociedades urbanizadas. Nas palavras de Lea e colegas, o desajuste evolutivo “acontece quando variantes que antes eram vantajosas, seleccionadas em ecologias passadas, são colocadas em ambientes novos, onde passam a ter efeitos prejudiciais”.

O que esta descoberta pode significar para saúde pública entre os Turkana

O objectivo dos autores é que este conhecimento sirva de apoio prático aos Turkana e a outros povos indígenas, à medida que enfrentam a urbanização e outras alterações ambientais. Para além de explicar a adaptação a dietas ricas em produtos animais, os dados podem orientar medidas de prevenção mais ajustadas a quem muda de estilo de vida.

“Compreender estas adaptações vai orientar programas de saúde para os Turkana - sobretudo à medida que alguns passam do pastoralismo tradicional para a vida urbana”, afirmou o bioquímico Charles Miano, do Instituto Queniano de Investigação Médica. “Pode ajudar os médicos a antecipar riscos, como sobrecarga renal ou doenças metabólicas, e a desenhar melhores estratégias de prevenção.”

Também é relevante sublinhar que estudos deste tipo dependem de consentimento informado e de uma relação de confiança com as comunidades. Quando a investigação envolve amostras biológicas e informação genética, torna-se essencial garantir confidencialidade, benefícios concretos e comunicação clara dos resultados, evitando interpretações simplistas ou estigmatizantes.

Por fim, a transição para a cidade tende a alterar não só o que se come, mas também a hidratação, o esforço físico e os horários - factores que podem influenciar a função renal e o metabolismo. Integrar acompanhamento clínico, educação em saúde e rastreio precoce pode ser decisivo para reduzir riscos durante esta mudança, respeitando simultaneamente a cultura e as escolhas de cada família.

Esta investigação foi publicada na revista Ciência.

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