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França corta relações com Marrocos: as chamadas de telemarketing vão terminar.

Homem sorridente a usar telemóvel sentado numa mesa com café, auscultadores e bandeira da França.

A aprovação recente de uma lei em França traz uma mudança com impacto imediato para muitos consumidores: quem se sente assediado por chamadas comerciais repetidas tem, finalmente, motivos para respirar de alívio.

Na prática, trata-se de um daqueles casos em que o benefício de uns pode significar dificuldades para outros. Ainda assim, para o público em geral, a nova lei francesa sobre prospecção telefónica surge como uma medida muito aguardada. A partir de 11 de agosto de 2026, ficam proibidas as chamadas de prospecção telefónica não solicitadas. Ou seja, as empresas só poderão telefonar a um cliente quando existir consentimento explícito ou quando a chamada estiver ligada a um contrato em vigor.

As consequências para quem ignorar a regra são pesadas. As infrações podem resultar numa multa até 500 000 euros e, quando a prospecção telefónica tiver como alvo uma pessoa vulnerável, podem ainda aplicar-se penas de prisão até cinco anos. Um enquadramento sancionatório deste nível tende a reduzir, de forma clara, a tentação de contornar a lei.

Tudo indica, por isso, que esta nova regulamentação vai melhorar o dia a dia de muitos residentes em França que recebem chamadas persistentes. Para aprofundar o tema e o contexto da medida, pode consultar o nosso artigo anterior dedicado a este assunto.

Prospecção telefónica em França: o que muda para empresas e consumidores

Com a entrada em vigor da proibição, o centro da relação passa a ser a prova do consentimento. Na prática, as empresas terão de reforçar processos de recolha, registo e auditoria desse “sim” dado pelo cliente, garantindo que é inequívoco e verificável - especialmente em operações de grande escala, onde a gestão de bases de dados e permissões é determinante.

Do lado dos consumidores, a regra torna mais simples distinguir comunicações legítimas de contactos abusivos: se não houve autorização prévia e não existe contrato em curso, a chamada deixa de ter enquadramento. Isto também pode incentivar uma maior literacia sobre privacidade e preferências de contacto, bem como uma atenção redobrada a autorizações dadas em formulários, campanhas promocionais e subscrições digitais.

Má notícia para Marrocos

Apesar do avanço para os consumidores em França, a realidade é bem menos positiva para quem trabalha neste setor fora do país - em especial em Marrocos. Um artigo recente do jornal Libération chamou a atenção para o peso económico desta atividade no reino: o setor emprega cerca de 120 000 pessoas e o mercado francês representa 80% do volume de negócios total dos centros de contacto e relacionamento com o cliente marroquinos.

No terreno, alguns analistas já alertaram para o risco social e laboral. Em declarações citadas pela SNRT News, Ayoub Saud, secretário-geral da Federação Nacional dos Trabalhadores e Profissionais do Offshoring, afirmou:

Esta lei francesa é uma ameaça direta para centenas de empregos em Marrocos. Em conjunto com o crescimento da inteligência artificial, já começa a ter impacto nos efetivos. Grandes empresas iniciaram despedimentos.

Segundo o meio Dreamjob, várias empresas estão a reposicionar-se, afastando-se da prospecção e apostando mais em serviço ao cliente, assistência técnica e suporte digital. No entanto, esta mudança exige investimento - tanto em formação como na modernização de ferramentas - e, por isso, não acontece de um dia para o outro. Perante o cenário, profissionais do setor pedem ao governo a criação de uma estratégia nacional de apoio, de modo a ajudar as empresas e os trabalhadores a atravessar este período mais difícil.

Uma via adicional que pode ganhar força, em paralelo, passa por reforçar serviços de maior valor acrescentado (como retenção, qualidade, gestão de reclamações e suporte especializado) e por diversificar mercados e idiomas. Ainda que não elimine o impacto da proibição em França, esta orientação pode reduzir a dependência de um único país e tornar o setor menos vulnerável a alterações legislativas e à automação acelerada.

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