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Megacidades em análise: Eis quão gigantesca é a maior cidade do mundo

Homem com planta e tablet numa cobertura, com capacete e café, vista urbana de cidade ao pôr do sol.

As grandes metrópoles do planeta estão a crescer para dimensões quase difíceis de imaginar. Onde antes existiam aldeias ou pequenas cidades portuárias, concentram-se hoje dezenas de milhões de pessoas, estradas saturadas, skylines iluminadas - e também uma longa lista de tensões sociais, ambientais e económicas. Uma viagem pelas dez maiores cidades do mundo ajuda a perceber como a urbanização está a redesenhar a Terra.

Antes de comparar números, convém esclarecer um ponto: esta lista usa metropolregiões (ou seja, áreas urbanas contínuas com subúrbios, cidades-satélite e zonas de pendularidade) e não apenas os limites administrativos de uma cidade. É por isso que as contagens oscilam entre cerca de 20 e quase 40 milhões de habitantes.

Top 10: as maiores cidades do mundo por número de habitantes (metropolregião)

A classificação baseia-se em dados das Nações Unidas (World Urbanisation Prospects), compilados e analisados por fontes como a World Population Review. Valores aproximados com referência a 2025.

Posição Cidade País Habitantes (aprox.)
1 Tóquio Japão 36 953 600
2 Deli Índia 35 518 400
3 Xangai China 31 049 800
4 Daca Bangladexe 25 359 100
5 Cairo Egito 23 534 600
6 São Paulo Brasil 23 168 700
7 Cidade do México México 23 016 800
8 Pequim China 22 983 400
9 Mumbai Índia 22 539 300
10 Osaka Japão 18 873 900

Estas megacidades têm algo em comum: atraem população das zonas rurais e de cidades menores, geralmente à procura de emprego, ensino, cuidados de saúde e mobilidade social. Com a população mundial em torno de 8,3 mil milhões e um aumento anual próximo de 80 milhões, a pressão sente-se sobretudo nos grandes aglomerados urbanos.

Onde a Terra está mais cheia: Tóquio lidera o maior aglomerado urbano do mundo

De acordo com as estimativas mais recentes, Tóquio continua a ser o maior aglomerado urbano do planeta, com cerca de 36,95 milhões de habitantes na sua metropolregião - mais do que a população total do Canadá.

Tóquio não é apenas a metrópole mais populosa da Terra; tornou-se também um emblema do choque entre alta tecnologia, herança cultural e sobrelotação.

A área urbana alargada cobre aproximadamente 8 231 km². O contraste faz parte do quotidiano: arranha-céus de última geração, painéis luminosos e lojas de electrónica coexistem com santuários antigos, tabernas tradicionais izakaya e templos budistas. Há bairros onde robôs servem refeições e casas de banho “conversam” com os utilizadores, enquanto, a poucos quarteirões, peregrinos rezam em templos com séculos de história.

Nem sempre foi assim. Tóquio começou por ser um discreto povoado piscatório chamado Edo. Em 1868, o imperador mudou-se de Quioto para lá, elevou Edo a capital e deu-lhe o nome de Tóquio. A partir desse momento, o crescimento foi quase contínuo - apesar de, a nível nacional, o Japão enfrentar envelhecimento demográfico e diminuição da população. Por isso, muitos especialistas admitem que, dentro de alguns anos, a cidade possa perder o primeiro lugar.

Um traço marcante de Tóquio é a combinação entre natureza e megacidade. Na primavera, durante a floração das cerejeiras, milhares de árvores transformam parques como o Ueno: só ali existem mais de 1 000 cerejeiras a florir em simultâneo, tingindo a paisagem de tons rosados. E, em dias limpos, surge no horizonte o Monte Fuji, a cerca de 100 km a oeste. Com 3 776 m de altitude, este estratovulcão é visto no xintoísmo como uma força natural poderosa e um destino de peregrinação.

Índia em grande escala: Deli e Mumbai como ímanes de milhões

Deli: colapso no trânsito e uma “cúpula” de smog

Com aproximadamente 35,5 milhões de habitantes, Deli ocupa o segundo lugar mundial. Dentro desta imensa área urbana encontra-se a região administrativa da capital, Nova Deli. A cidade, atravessada pelo rio Yamuna, divide-se, em termos gerais, entre a densa e antiga Velha Deli e a Nova Deli, planeada com avenidas amplas e edifícios marcados pela herança colonial.

Em 1911, as autoridades coloniais britânicas transferiram a sede do governo de Calcutá para a área de Nova Deli, traçando boulevards, edifícios oficiais e praças cerimoniais de inspiração europeia. Hoje, essa geometria urbana convive com um mosaico de realidades: bairros de moradias luxuosas e zonas diplomáticas lado a lado com ruelas estreitas, mercados apinhados e extensas áreas de habitação precária.

O crescimento é veloz - projeções apontam para mais de 43 milhões de habitantes em 2035. Um motor decisivo é a migração interna de regiões rurais pobres para a área da capital. Estima-se que mais de um milhão de pessoas vivam em bairros informais, os engarrafamentos fazem parte da rotina, e a cidade enfrenta alguns dos níveis mais elevados de poluição atmosférica do mundo. Para reduzir emissões, as autoridades têm promovido, com maior intensidade, autocarros, táxis e tuk-tuks com gás natural.

Mumbai: motor financeiro e industrial, com bairros informais gigantes

Mumbai (antiga Bombaim) soma cerca de 22,5 milhões de habitantes e é frequentemente descrita como o coração financeiro e industrial da Índia. A cidade nasceu como um conjunto de ilhas que, durante o período colonial, foram sendo aterradas até formarem uma massa de terra contínua. Essa transformação veio acompanhada de uma divisão funcional - áreas de comércio, administração e bazares - que ainda hoje se reconhece no desenho urbano.

Atualmente, o sul concentra muitos bairros residenciais caros e sedes empresariais, enquanto a zona norte reúne áreas industriais densas e fábricas. Em paralelo, expandem-se enormes bairros informais: estimativas apontam que cerca de 54% da população de Mumbai viva em assentamentos não regularizados. Torres de luxo em vidro surgem a poucos metros de habitações de chapa - um retrato extremo da desigualdade.

Em termos económicos, Mumbai é um centro de gravidade nacional: acolhe a principal bolsa do país e influencia uma fatia significativa do comércio indiano. Além disso, é a casa de Bollywood, a indústria cinematográfica que produz filmes e séries para centenas de milhões de fãs.

China em dose dupla: Xangai e Pequim

Xangai: de aldeia piscatória a colosso financeiro

Com cerca de 31 milhões de habitantes, Xangai é a maior cidade da China e um símbolo do seu salto económico. No século XIX, era ainda uma pequena aldeia piscatória, até que, em 1842, após a Primeira Guerra do Ópio, os britânicos assumiram controlo e criaram uma zona especial para estrangeiros.

Dessa fase resultou uma forte marca cosmopolita, perceptível até hoje. Xangai tornou-se um dos principais centros de comércio e finanças da Ásia. Depois de 1949, com a chegada dos comunistas ao poder, o crescimento abrandou devido a impostos elevados e regulação apertada. A viragem ocorreu com as reformas económicas a partir de 1992: a metrópole recuperou dinamismo, crescendo em certos períodos até 15% ao ano, com arranha-céus a multiplicarem-se rapidamente.

Apesar das fachadas de vidro e dos grandes centros comerciais, permanecem jardins e templos da dinastia Ming, que oferecem um vislumbre da China imperial no meio da modernidade.

Pequim: centro de poder e ofensiva contra o smog

Pequim, com quase 23 milhões de habitantes, é a segunda maior cidade chinesa e uma das metrópoles com mais peso histórico no mundo. Já era um polo político na época da dinastia Zhou e recebeu o nome atual em 1403, durante a dinastia Ming.

Hoje, é sede do governo central, base de inúmeras empresas e um importante polo financeiro. Mais de 60 arranha-céus ultrapassam os 150 m de altura. Perto da skyline moderna, encontram-se marcos como a Cidade Proibida e acessos à Grande Muralha da China, com cerca de 21 000 km de extensão.

Durante anos, Pequim foi sinónimo de smog persistente. Em 2014, o governo lançou o programa “Guerra à Poluição”, com novas regras de emissões, encerramento de fábricas e fiscalização mais rigorosa de centrais a carvão. O resultado foi visível: entre 2012 e 2021, a poluição atmosférica diminuiu de forma significativa - um exemplo de como decisões políticas podem transformar uma megacidade.

Megacidades em diferentes latitudes: Daca, Cairo, São Paulo, Cidade do México e Osaka

Daca: superdensidade, expansão e cheias recorrentes

Daca, capital do Bangladexe, reúne cerca de 25,36 milhões de habitantes e está entre as cidades mais densamente povoadas do planeta. Em muitas ruas, predominam os riquexós (ciclorriquexós), o que lhe valeu a alcunha de “capital dos riquexós”.

A história urbana é longa: por volta de 1608, a cidade tornou-se capital regional do Império Mogol, crescendo como centro de comércio e têxteis. Atualmente, a expansão económica como polo financeiro e de serviços é especialmente notória no norte, enquanto o sul concentra bairros antigos e grandes áreas de habitação informal.

A geografia agrava os riscos. Situada numa zona deltáica, Daca enfrenta inundações quase todos os anos durante a monção de verão. Quem mais sofre são as populações pobres, cujas habitações oferecem pouca proteção contra a água e contra surtos de doença.

Cairo: entre pirâmides milenares e bairros-dormitório

Com cerca de 23,5 milhões de habitantes, o Cairo é a maior cidade de África e do Médio Oriente. Localizado nas margens do Nilo, soma mais de mil anos de história urbana. O cenário mistura mesquitas históricas, bairros antigos, museus e torres modernas, formando um conjunto muitas vezes caótico, mas imponente.

A aproximadamente 18 km a sudoeste erguem-se as Pirâmides de Gizé, monumentos com cerca de 4 500 anos que atraem milhões de visitantes todos os anos. A maior, a Pirâmide de Quéops, tem 139 m de altura e terá sido construída com cerca de 2,3 milhões de blocos de pedra. Ao mesmo tempo, a periferia do Cairo enche-se de cidades-satélite, bairros-dormitório e assentamentos informais, criados para absorver a enorme chegada de novos residentes.

São Paulo: potência económica com um perfil global

São Paulo, o maior aglomerado urbano da América do Sul, ultrapassa 23,17 milhões de habitantes. Fundada no século XVI por jesuítas, ganhou impulso decisivo no século XIX graças às plantações de café no interior. Trabalhadores vindos da Europa e da Ásia chegaram em grande número - com destaque para japoneses - e, ainda hoje, São Paulo alberga a maior comunidade japonesa fora do Japão.

Atualmente, é o centro económico do Brasil, concentrando bancos, grandes grupos empresariais e um ecossistema de start-ups. Em contrapartida, lida com congestionamento crónico, poluição do ar e desigualdades sociais muito acentuadas.

Cidade do México: megalópole num vale de vulcões

A Cidade do México, com cerca de 23 milhões de habitantes, situa-se num planalto rodeado por vulcões, a aproximadamente 2 200 m de altitude. Quase um quinto da população mexicana vive nesta área urbana. A metrópole atual assenta sobre as ruínas de Tenochtitlán, a capital asteca conquistada no século XVI pelo explorador e militar espanhol Hernán Cortés.

O peso económico atrai há décadas população rural, com picos após crises como a queda do preço do petróleo nos anos 1980. Muitos recém-chegados acabam em grandes bairros informais na periferia. As consequências acumulam-se: infraestruturas no limite, escassez de água, montanhas de lixo e níveis elevados de criminalidade.

  • Poluição atmosférica elevada devido ao tráfego e à indústria
  • Milhares de toneladas de lixo por dia, com apenas uma parte a ser recolhida oficialmente
  • Economia informal de reciclagem, que garante rendimento a muitas famílias
  • Forte presença de cartéis e grupos criminosos

Ainda assim, a Cidade do México é uma das metrópoles mais visitadas da América Latina, graças à arquitectura colonial, museus e sítios arqueológicos ligados à herança asteca.

Osaka: tradição comercial e capital gastronómica

A metropolregião de Osaka, no oeste do Japão, fecha o top 10 com cerca de 18,9 milhões de habitantes. A cidade, junto ao golfo com o mesmo nome, já era no século XVII um ponto central do comércio de arroz. Hoje combina funções financeiras e industriais com uma reputação especial: é um dos grandes centros gastronómicos do país. Muitos pratos e técnicas culinárias associadas ao Japão popularizaram-se a partir daqui, e zonas como Dōtonbori são marcadas por ruas cheias de restaurantes e bancas de comida.

O desenvolvimento acelerado trouxe efeitos colaterais. Em partes da cidade, o solo terá descido mais de 2 m devido ao consumo intenso de água subterrânea, a par de problemas de poluição do ar e ruído urbano.

O que alimenta as megacidades - e os desafios que se repetem

Porque é que tantas pessoas escolhem estes gigantes urbanos, mesmo sabendo que podem encontrar rendas elevadas, ruído, smog e trânsito permanente? Em quase todo o lado surgem três razões recorrentes:

  • Pobreza nas zonas rurais: quando a agricultura gera pouco rendimento, os empregos industriais e de serviços na cidade tornam-se mais apelativos.
  • Acesso a serviços: hospitais, universidades, nós de transportes e oferta cultural concentram-se com maior densidade nas metrópoles.
  • Redes e oportunidades: quem procura trabalho, quer abrir um negócio ou investir em formação encontra mais contactos e possibilidades nas megacidades.

O reverso da medalha é pesado: a habitação escasseia e encarece, os bairros informais expandem-se, as redes de mobilidade ficam sobrecarregadas por milhões de deslocações diárias e os sistemas de resíduos e saneamento aproximam-se do limite. Smog em Pequim, cheias em Daca ou crises de lixo na Cidade do México são faces diferentes de um mesmo fenómeno.

Há ainda uma dimensão que ganha importância ano após ano: a resiliência climática. Muitas destas metropolregiões estão a investir em soluções como transporte público electrificado, corredores verdes para reduzir ilhas de calor, requalificação de linhas de água e planos de emergência para eventos extremos. O sucesso, porém, depende menos de tecnologia e mais de governação: fiscalização, planeamento urbano e capacidade de executar políticas públicas de forma consistente.

Para inúmeros países, estes “gigantes urbanos” são simultaneamente problema e solução. Concentrando grande parte do PIB, atraem investimento e funcionam como laboratórios de inovação - dos transportes à energia. Ao mesmo tempo, expõem com dureza onde o planeamento falha: habitação acessível, mitigação e adaptação climática, preparação para catástrofes e uma distribuição mais justa de oportunidades.

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