Se a tua suposta tranquilidade não for tranquilidade nenhuma, mas sim uma camuflagem impecável do medo de discutir? Foi isso que aconteceu com uma pessoa que, durante um ano, registou todas as situações em que passava uma decisão para os outros - convencida de que estava apenas a ser simpática e “sem complicações”. No fim, a conclusão foi dura: o que parecia consideração tinha-se transformado num desaparecimento silencioso.
A verdadeira serenidade não é não querer nada - é querer alguma coisa e manter a calma se não der.
Como o “tanto faz” virou um estilo de vida
Escolher restaurante com amigos? “Escolham vocês.” Noite de cinema com o/a companheiro/a? “Põe tu, eu vejo qualquer coisa.” Projecto no trabalho? “Para mim qualquer opção serve.” Durante décadas, este comportamento pode parecer um sinal de flexibilidade: não dar trabalho, não incomodar, não estragar o ambiente.
Por fora, a pessoa soa agradável, fácil de lidar, simples. Por dentro, porém, pode estar a funcionar um programa em piloto automático que tenta evitar conflitos a qualquer custo. E esse custo só costuma aparecer mais tarde - quando alguém pergunta “O que é que tu queres, afinal?” e a resposta já não surge com naturalidade.
O experimento: um ano a registar decisões cedidas
O ponto de viragem aconteceu quase por acaso. Depois de escrever/ler um texto sobre desejos alheios e desejos próprios, a autora ou o autor apercebeu-se de quantas vezes por dia dizia “tanto faz”. Daí nasceu o experimento: durante um ano, anotar todas as situações em que devolvia a decisão a outra pessoa - com o contexto e, sobretudo, com uma resposta honesta à pergunta: eu tinha, no fundo, uma preferência?
Primeira conta: 47 decisões “entregues” por mês
Ao fim de um mês, havia um número claro: 47 desvios conscientes. E eram escolhas de todo o tipo:
- Onde ir jantar?
- Que série começar?
- Que caminho fazer para o trabalho?
- O que fazer ao fim de semana?
- A que horas combinar?
Em 31 desses 47 momentos existia, sim, uma preferência - apenas não era dita. Ou seja, cerca de dois terços dos “tanto faz” não eram verdadeiros. Eram respostas educadas, automáticas, bem-intencionadas… mas, ainda assim, mentiras.
Ao longo do ano, a proporção manteve-se surpreendentemente constante: em cerca de dois em cada três casos havia uma opinião real, mas ela não passava da garganta.
Porque a evitação de conflito parece personalidade (e o “tanto faz” cola à pele)
O mais enganador é que, para quem vive isto, não se sente como repressão - sente-se como identidade. Quando um padrão é aprendido e treinado durante anos, deixa de ser visível. A pessoa acredita mesmo que “não tem grandes preferências”.
Estudos em psicologia sobre evitação de conflito sugerem que algumas pessoas conseguem colocar as próprias necessidades tão sistematicamente em último lugar que o processo se torna imperceptível. O que começou como estratégia consciente passa a reflexo. Do “agora vou-me conter” chega-se ao “eu sou assim”.
E aqui surge a ironia: a suposta virtude - harmonia, simpatia, flexibilidade - acaba por corroer aquilo que prometia proteger: a proximidade real e a generosidade autêntica. Porque só há verdadeira generosidade quando se sabe o que se está a abdicar.
Um ponto que ajuda a destrinçar isto (e que raramente é dito) é a diferença entre assertividade e agressividade: expressar uma preferência não é “impor”. Dizer “eu preferia italiano” pode ser apenas partilhar informação útil, não abrir uma guerra. Muitas relações tornam-se mais leves quando a responsabilidade das escolhas deixa de cair sempre no mesmo lado.
Onde este padrão costuma nascer: famílias em que “não se discute”
As raízes aparecem muitas vezes na infância. Em várias famílias há uma regra implícita: discutir é perigoso. “As boas famílias não gritam”, “Quem se ama não se zanga.”
Uma criança que aprende que um desejo diferente pode gerar frieza, desilusão ou pressão constrói uma lógica interna: “Se eu não quiser nada, também não acontece nada de mau.” O que começa como protecção torna-se auto-apagamento.
E isto não fica no quarto da criança. Migra para amizades, relações e equipas. Do “não digo o que quero, senão o meu pai fica calado” passa-se ao “escolham vocês, eu estou tranquilo/a” no restaurante - e, mais tarde, à mesma postura na sala de reuniões.
Quem aprendeu que o amor tem condições, muitas vezes começa a desligar os próprios desejos em silêncio.
A consequência escondida: um dia já nem tu sabes o que queres
O que mais inquietou a pessoa do experimento não foi a percentagem de desejos calados. Foram os restantes casos: em cerca de um terço das situações não surgia qualquer preferência - e isso incluía decisões grandes como destino de férias, mudar de emprego, aceitar novas oportunidades ou responder a convites importantes.
A “antena” interior parecia muda. Sem radar, sem instinto, sem barriga a opinar - apenas ruído. Aqui vê-se a marca de longo prazo da evitação constante: a capacidade de sentir impulsos próprios vai-se atrofiando.
À primeira vista, o mecanismo até parece generoso. Se eu não decido, também não posso ser “culpado/a” se a noite for aborrecida ou se o projecto correr mal. Ninguém pode dizer: “Foste tu que sugeriste.” Parece inofensivo - mas é, na prática, uma forma inteligente de gestão de risco.
Como é uma abertura saudável às próprias preferências
Por volta do sexto mês, a pessoa acrescentou um “contra-teste”. Sempre que aparecia o reflexo do “tanto faz”, vinha uma pergunta extra por dentro: “E se não fosse indiferente - o que é que eu escolheria?”
No início, as respostas vinham tímidas: frases pela metade, cheias de atenuantes. “Hum… acho que talvez preferisse um bocadinho comida italiana?” - como se fosse preciso pedir desculpa por gostar de massa.
Com o tempo, a resposta ficou mais clara e rápida: “Italiano. O restaurante da esquina.” Sem justificações, sem defesas, sem explicações adicionais.
A maior surpresa: ninguém reagiu com irritação. Pelo contrário - muita gente pareceu aliviada por já não ter de carregar a decisão sozinha.
Uma amiga resumiu de forma certeira: antes, sentia que tinha de “puxar” a outra pessoa pela vida. Agora, existia a sensação de estarem realmente a andar lado a lado.
Três níveis de “tanto faz”
Ao longo do ano, ficaram nítidas três versões diferentes de ceder decisões:
- Indiferença real: por vezes é mesmo indiferente - tailandês ou mexicano, sentar à esquerda ou à direita. Isto é flexibilidade saudável.
- Preferência reprimida: a voz interna diz “tailandês”, mas cá fora sai “qualquer um está bem”. Aqui mora o medo de impor algo aos outros.
- Cegueira aos próprios desejos: a voz foi ignorada durante tanto tempo que quase já não se ouve - sobretudo em decisões maiores de vida.
Reforçar os “músculos” da decisão
O caminho de volta não exige um confronto dramático. Começa com passos minúsculos no quotidiano. Em vez de tentar afirmar-se logo em temas como casamento ou mudança de emprego, ajuda começar por coisas pequenas:
- Que café escolher
- Em que lugar te queres sentar
- Que música vai no carro
- Se queres mesmo ir a mais um bar
Aos poucos, cria-se uma experiência repetida: “Eu posso querer alguma coisa - e o mundo não desaba.” E aquele aperto nervoso no estômago tende a diminuir, escolha após escolha.
Por trás da flexibilidade constante, muitas vezes está um conjunto de crenças: quem precisa é um peso; quem tem exigências é “difícil”; quem não tem arestas está mais seguro. A longo prazo, porém, isto costuma virar irritação escondida: o que nunca é dito reaparece em indirectas, reacções defensivas ou no célebre “está tudo bem” que se percebe que não está.
Um apoio extra (quando fizer sentido) é praticar linguagem simples e não dramática: “Eu preferia X” ou “Hoje apetecia-me mais Y”. E, em situações onde o medo de conflito é antigo e intenso, acompanhamento psicológico pode acelerar a reconexão com desejos e limites - não para “endurecer”, mas para voltar a sentir.
O que os dados mudaram de facto
Ao fim de 12 meses, o número de decisões cedidas desceu de 47 para cerca de 18 por mês. Mas a mudança principal foi outra: a percentagem de casos de indiferença real passou para aproximadamente 70%. A pessoa continuava flexível - só que já não era à custa das próprias necessidades.
Com esta atenção nova, surgiram preferências que tinham passado anos “abaixo do radar”: como quer começar a manhã, que tipo de trabalho dá energia em vez de a roubar, com quem o tempo sabe genuinamente bem. Como se alguém tivesse retirado uma capa de pó da personalidade.
Isso teve consequências. Algumas rotinas sociais começaram a parecer vazias; certos grupos de amigos eram mais cansativos do que se imaginava. E uma ou duas relações, muito assentes na adaptação constante, ficaram mais instáveis. Também isso foi informação: quem só gosta da versão sem conflito de alguém tende a ter dificuldade quando essa pessoa passa a ter contornos.
Um auto-teste simples para a semana
Se te reconheces neste padrão, dá para fazer um mini-experimento. Durante uma semana: sempre que “tanto faz” estiver prestes a sair, pára cinco segundos por dentro e confirma: é mesmo indiferente? Não existe uma inclinação mínima para um lado?
Ninguém precisa de dizer tudo em voz alta de imediato. O primeiro passo é apenas notar que existe uma preferência. Se perceberes que em mais de metade das situações há, sim, um desejo interno, muitas vezes não é “eu sou descontraído/a” - é “eu tenho medo de fricção”.
A boa notícia é que o medo responde muito bem a pequenos contra-exemplos repetidos: uma opinião expressa de cada vez. Um “eu preferia a janela aberta” aqui, um “hoje apetecia-me uma noite mais calma” ali. Assim, a flexibilidade volta a ser uma escolha consciente - e não um silêncio automático.
A ausência de conflito e a harmonia soam tentadoras, mas quando são pagas de forma permanente com auto-anulação, a ligação a nós próprios acaba por se perder. Por fora, a diferença entre “não me faz mesmo diferença” e “aprendi com esforço a não deixar que me faça diferença” é quase invisível. Por dentro, sente-se enorme.
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