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Nova esperança para salvar casamento da Renault e Nissan

Carro desportivo elétrico Nissan Alliance 24 branco e vermelho em showroom moderno com chão espelhado.

Quando se fala de “casamentos” no setor automóvel, a união entre o Grupo Renault e a Nissan dificilmente se pode descrever como tranquila. Apesar de a parceria já somar 26 anos, a convivência tem sido tudo menos harmoniosa - sobretudo nos últimos tempos, com tensões recorrentes entre os dois pilares da Aliança Renault-Nissan (onde existe ainda uma terceira peça, a Mitsubishi, na qual a Nissan detém uma participação parcial).

A degradação da relação resulta de vários elementos a atuar em simultâneo: sucessivas mudanças na liderança, menor integração nas operações, pressões financeiras e, acima de tudo, diferenças cada vez mais marcadas na estratégia. Ainda assim, segundo o Financial Times, há margem para um novo fôlego, impulsionado pelas recentes alterações no topo da Renault e da Nissan.

Como nasceu a Aliança Renault-Nissan (e o que mudou desde então)

A Aliança Renault-Nissan foi criada em 1999, num momento em que a Nissan enfrentava risco real de colapso financeiro. A Renault avançou então com a compra de 43% do capital da Nissan, dando origem a uma colaboração global que, além de resgatar a marca japonesa, abriu caminho a sinergias relevantes e a cortes de custos entre os dois grupos.

A recuperação da Nissan ficou associada à liderança de Carlos Ghosn, que mais tarde viria também a dirigir o Grupo Renault e a orientar o destino conjunto da Aliança. Porém, quando Ghosn tentou dar o passo seguinte - uma fusão efetiva das duas empresas - o equilíbrio interno deteriorou-se e a relação nunca voltou a ser a mesma.

Depois desse período, Ghosn acabou envolvido em processos judiciais no Japão, incluindo uma fuga altamente mediática que, muito provavelmente, terá adaptação cinematográfica. Com novas lideranças a surgir, foram ainda dados passos para reequilibrar o poder entre os parceiros.

Hoje, o enquadramento acionista é bem diferente: a Renault detém cerca de 36% da Nissan, sendo que 19% desse total está alocado a um fundo fiduciário; por sua vez, a Nissan tem 15% da Renault. Em paralelo, a ligação operacional foi enfraquecida: já não existe partilha do conselho de administração, nem uma organização de compras conjunta.

Um efeito direto desta menor integração é a perda de escala em áreas onde a cooperação costuma ser decisiva - desde plataformas e componentes comuns até à coordenação industrial. Num setor em que cada ponto percentual de margem conta, a capacidade de partilhar investimentos e acelerar lançamentos é, muitas vezes, o que separa a sobrevivência do recuo.

O dossiê Nissan

O então diretor-executivo do Grupo Renault, Luca de Meo (que saiu em julho), tinha como intenção encerrar o “casamento”, vendendo a participação da Renault na Nissan para reforçar a posição do grupo francês. No entanto, a crise profunda que a Nissan atravessa derrubou o seu valor de mercado e tornou esse plano muito mais difícil de executar.

O impacto na Renault é significativo: no primeiro semestre de 2025, a Nissan traduziu-se numa perda de 11,6 mil milhões de euros para o Grupo Renault.

Os números mais recentes da Nissan reforçam a urgência de uma viragem. A empresa aponta para um prejuízo anual de 275 mil milhões de ienes (cerca de 1,5 mil milhões de euros) e apresenta uma margem operacional negativa de -0,5%.

Para tentar inverter o cenário, a Nissan lançou um plano de restruturação designado Re:Nissan, com o objetivo de regressar à rentabilidade e alcançar fluxo de caixa positivo na divisão automóvel até 2026.

O programa inclui medidas de grande alcance:

  • Encerramento de sete fábricas, reduzindo o total de 17 para 10
  • Corte de cerca de 30% na capacidade de produção global, para 2,5 milhões de veículos

Mais recentemente, foram também eliminados 87 postos de trabalho num dos escritórios em França. A empresa justificou a decisão com a necessidade de “ajustamento à realidade do ambiente de negócios”.

No início do ano, chegou a existir uma tentativa de fusão com a Honda, mas as conversações acabaram por falhar. Esse desfecho contribuiu para a saída de Makoto Uchida, o anterior diretor-executivo.

Aliança Renault-Nissan: o casamento pode ser salvo?

A narrativa pode estar prestes a ganhar um novo capítulo, com mudanças simultâneas nas lideranças. Na Nissan, Ivan Espinosa assumiu funções em março de 2025; na Renault, François Provost entrou em julho de 2025.

De acordo com um porta-voz da Renault, Provost e Espinosa mantêm contactos regulares centrados em apoio mútuo - um sinal visto como encorajador para o futuro da Aliança.

Este possível reaproximar surge num momento em que as parcerias tendem a valer ainda mais. A indústria automóvel enfrenta um conjunto de desafios difíceis de conciliar: aumento das tarifas aduaneiras, concorrência chinesa, metas de emissões cada vez mais exigentes e investimentos muito elevados na transição tecnológica, incluindo eletrificação e software (programas informáticos).

Há, além disso, um fator adicional que pesa na tomada de decisões: a geopolítica e a cadeia de abastecimento. Baterias, matérias-primas, localizações industriais e regras de origem podem tornar determinados projetos viáveis - ou inviáveis - em poucos trimestres. Nesse quadro, acordos que permitam distribuir custos e acelerar a execução podem representar uma vantagem determinante.

“A Aliança é um pilar fundamental do nosso negócio”, afirmou a Nissan ao Financial Times, sublinhando que, apesar de todas as fricções, a cooperação entre os dois grupos continua a ter relevância estratégica.

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