A crise dos chips continua a escalar e já está a ter consequências diretas na indústria europeia. A Nexperia, recentemente nacionalizada pelo governo neerlandês por receios de transferência de tecnologia e de operações para a China, viu a sua subsidiária chinesa Wingtech avançar com medidas que limitam as exportações de chips.
Este bloqueio levou a Nexperia a suspender entregas, um cenário que, se se prolongar, poderá obrigar alguns construtores europeus a parar temporariamente linhas de produção por falta de componentes.
A situação, para já, não dá sinais de resolução rápida. Numa carta enviada aos clientes com data de 3 de novembro, a que a Reuters teve acesso, a Nexperia afirmou que não consegue indicar quando - ou mesmo se - terá chips disponíveis para entrega.
“Estamos no processo de clarificar ainda mais o âmbito e implicações das ações da China no que respeita às instalações e subcontratados da Nexperia na China o mais brevemente possível”, pode ler-se na carta.
Até essa avaliação ficar concluída, a fabricante avisa que não consegue assegurar o funcionamento normal da cadeia de fornecimento, nem garantir a qualidade e a autenticidade dos chips produzidos na sua fábrica de Dongguan desde 13 de outubro.
Um fator adicional a agravar o risco é a dependência da fase final do processo: apesar de a maioria dos chips da Nexperia ser fabricada na Europa, cerca de 70% é embalada na China antes de seguir para distribuição. Assim, mesmo quando a produção europeia se mantém, as restrições de Pequim podem criar um estrangulamento que prolonga a escassez e intensifica as dificuldades das fábricas europeias que precisam destes componentes.
Perante este tipo de interrupções, muitas empresas procuram soluções de mitigação, mas raramente são imediatas: transferir a embalagem para outras geografias implica capacidade instalada, certificações e validações técnicas que, no setor automóvel, podem demorar semanas ou meses. Além disso, o modelo “just-in-time” reduz margens para absorver atrasos, tornando qualquer bloqueio nas exportações particularmente disruptivo.
Acordo EUA-China traz algum alívio (Nexperia e crise dos chips)
Após um encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, a China anunciou que passaria a aceitar pedidos de isenção às restrições. Isso desencadeou uma corrida entre fabricantes e fornecedores europeus para submeterem esses pedidos - pagos em moeda chinesa -, mas a incerteza mantém-se e a dependência europeia continua a ser motivo de preocupação no setor.
Antonio Filosa, diretor-executivo da Stellantis, sublinhou a falta de autonomia industrial da Europa: “hoje, o nosso sistema significa que temos zero autonomia como indústria. Veja-se a crise dos chips da Nexperia. Veja-se a crise das terras raras de abril, que atravessámos de forma muito dolorosa.”
Já Ola Källenius, diretor-executivo da Mercedes-Benz, adotou um tom mais prudente, afirmando à Reuters que existem sinais de aproximação entre China, Europa e Estados Unidos. “Por agora, temos chips suficientes”, disse. “Mas estamos a acompanhar de perto o desenrolar das negociações.”
Em paralelo, cresce a pressão para reforçar a resiliência europeia, com mais investimento em capacidade local e maior diversificação de fornecedores e etapas críticas (como teste e embalagem). Ainda assim, enquanto a dependência de operações na China se mantiver elevada, episódios como o da Nexperia e da Wingtech continuarão a expor a indústria europeia a riscos súbitos e difíceis de controlar.
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