O Museu de História Natural, em Londres, divulgou a lista curta escolhida pelo público para o Prémio Escolha do Público Nuveen 2026, integrado no concurso Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano. Entre as imagens mais comentadas, duas mostram a natureza sem filtros: um veado-sika a arrastar a cabeça em decomposição de um rival derrotado e um lince juvenil a lançar ao ar a presa, como se transformasse a caça num jogo.
Um voto global no Prémio Escolha do Público Nuveen 2026
Este prémio é a vertente participativa do Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, criado e produzido pelo Museu de História Natural (Londres). Ao contrário das categorias principais, avaliadas por um júri especializado, aqui qualquer pessoa com acesso à internet pode votar.
A votação decorre em todo o mundo até 18 de março de 2026 e a imagem vencedora será anunciada a 25 de março, no museu.
A fotografia mais votada passará a integrar, juntamente com outras 100 imagens de destaque da última edição, uma exposição em South Kensington, patente até julho de 2026.
Na prática, esta lista curta funciona como um retrato do olhar colectivo sobre a natureza: deslumbrante e frágil, por vezes terna e, muitas vezes, brutal. As escolhas deste ano vão de insectos minúsculos a ursos-polares num Árctico cada vez mais quente.
Um duelo feroz imobilizado num só instante
Na fotografia “Luta Sem Fim”, o fotógrafo japonês Kohei Nagira regista o pós-combate de um veado-sika. O macho avança pelo terreno com a cabeça e as galhadas de outro macho presas nas suas próprias galhadas, como se carregasse, involuntariamente, o desfecho da batalha.
Segundo relatos, o veado vencedor terá arrastado o corpo inteiro durante dias, até que o cadáver acabou por se rasgar e soltar-se, ficando apenas o crânio e as galhadas encravados.
Um pescador local, citado no contexto da candidatura, refere que o confronto começou por causa de uma fêmea em cio. O vencedor garantiu o direito de acasalamento, mas pagou um preço imediato: as galhadas ficaram tão entrelaçadas nas do adversário que perdeu grande parte da mobilidade.
À medida que o corpo do animal morto se degradava, o veado vivo continuou a circular pela sua área habitual, puxando o peso do rival. Só quando a carcaça apodreceu o suficiente para ceder na zona do pescoço é que o animal sentiu algum alívio - embora o macabro “troféu” permanecesse firmemente preso.
A fotografia obriga-nos a encarar a dureza da época de reprodução e sublinha um paradoxo: as galhadas, essenciais para exibição e combate, podem transformar-se em armadilhas fatais quando ficam presas.
Porque é que estes combates acabam por ser mortais
Machos de veado, como o veado-sika no Japão, disputam território e fêmeas investindo e chocando galhadas em empurrões prolongados. Na maioria das vezes, um dos animais recua antes de ocorrerem danos graves. Ainda assim, há ocasiões em que as galhadas se bloqueiam e os animais não conseguem separar-se.
- O par preso pode morrer por exaustão, fome ou predação.
- Noutros casos, como este sugere, um morre primeiro e o outro arrasta o corpo durante vários dias.
- Em zonas remotas ou protegidas, a intervenção humana é pouco provável, pelo que o processo segue o seu curso natural.
Imagens como “Luta Sem Fim” são raras não por falta de impacto, mas porque estes episódios surgem sem aviso e, frequentemente, longe de pessoas. O cenário parece quase lendário, embora resulte directamente da competição reprodutiva.
O lince que transformou o jantar num brinquedo
No extremo oposto das emoções está “Roedor em Voo”, fotografia de Josef Stefan. A imagem mostra um lince jovem num momento de aparente brincadeira, a atirar um pequeno roedor ao ar como se fosse um boneco.
As patas estendem-se, o olhar fixa a presa no ar e a cena mistura treino de caça com algo que, para nós, se assemelha perigosamente a diversão.
O instante é simultaneamente enternecedor e inquietante. Para o lince, este comportamento encaixa num padrão conhecido: predadores jovens desenvolvem coordenação, tempo de reacção e técnica ao manipular presas vivas ou recém-mortas.
Para quem observa, o efeito é duplo: o roedor parece quase sem peso, enquanto o lince transmite uma energia concentrada e tensa. A fotografia recorda-nos que, nos carnívoros selvagens, “brincar” raramente é só lazer - é uma preparação directa para sobreviver.
Predadores a brincar: treino disfarçado
Os etólogos - cientistas que estudam o comportamento animal - defendem há muito que a brincadeira em mamíferos jovens constrói competências essenciais. Crias de lince que praticam saltos e lançamentos tendem a capturar presas rápidas com maior eficácia quando adultas.
A manipulação “lúdica” da presa pode:
- Afinar reflexos e equilíbrio.
- Ensinar a força certa de preensão e o local adequado para morder.
- Treinar a sequência completa de aproximação, perseguição e captura.
A fotografia de Stefan condensa esse processo de aprendizagem num único fotograma: um lançamento que parece casual, mas que é, na realidade, uma lição sobre como caçar e comer.
Outras imagens que sobressaem na lista curta
Apesar de o veado e o lince estarem a concentrar grande parte das atenções, a selecção inclui cenários muito diversos, onde se cruzam comportamento animal e impacto humano.
| Título da imagem | Tema | Ideia-chave |
|---|---|---|
| Superbando em Espiral | Golfinhos-rotadores a conduzir peixes-lanterna até à superfície do Pacífico | Caça coordenada e ecologia oceânica |
| O Retrato Final | Cria de urso-polar após uma caçada falhada em Svalbard | Stress energético e mudanças no Árctico |
| Retrato da Extinção | Guardas perante uma montanha de laços apreendidos | Caça furtiva, fiscalização e conservação |
| Beleza Contra a Besta | Flamingos enquadrados por linhas eléctricas e indústria | Vida selvagem lado a lado com infra-estruturas pesadas |
| Singularidade | Lontra leucística a alimentar-se de um bagre no Brasil | Traços genéticos raros e individualidade |
Duas fotografias de ursos-polares destacam-se pelo impacto emocional. Numa, uma mãe e três crias repousam num solo nu e lamacento no Canadá, durante o calor do verão - uma imagem que sugere, sem dramatismo explícito, a perda de gelo marinho. Noutra, “O Retrato Final”, uma cria segue a mãe depois de uma tentativa de caça sem sucesso, levantando dúvidas sobre quanto tempo estes grupos familiares resistirão com recursos alimentares em declínio.
De preguiças a painéis solares
A lista curta também inclui momentos inesperadamente ternos. Uma preguiça-de-três-dedos-de-garganta-castanha encolhe-se sob a mãe à chuva. Uma cria de pangolim aparece envolvida numa manta num centro de recuperação na África do Sul. Um macaco-de-cauda-de-leão atravessa os Gates Ocidentais da Índia com a cria agarrada ao pêlo.
A tecnologia humana também entra no enquadramento. “Ondas Solares”, de Francesco Russo, mostra filas de painéis solares a ondular visualmente pela paisagem como se fossem água. Colocada ao lado de imagens de animais selvagens, a fotografia lança uma pergunta prática: de que forma os sistemas energéticos modernos podem coexistir com os habitats, em vez de os substituírem?
Como os concursos moldam a forma como olhamos para a vida selvagem
Concursos como Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano não servem apenas para premiar técnica. Influenciam a maneira como milhões de pessoas interpretam animais e ecossistemas, comprimindo histórias ambientais complexas numa imagem com forte poder de retenção.
Uma única fotografia de um veado preso ao corpo de um rival morto pode ficar na memória do público mais tempo do que páginas de dados científicos.
Essa resposta emocional pode levar à procura de informação sobre comportamento reprodutivo, perda de habitat ou alterações climáticas. Também pode estimular doações, conversas sobre políticas públicas e escolhas pessoais ligadas a viagens, alimentação ou activismo.
Ainda assim, há um equilíbrio difícil. Imagens demasiado dependentes do choque podem anestesiar o público; fotografias apenas “bonitas” podem suavizar ameaças urgentes. A selecção actual tenta posicionar-se entre esses extremos, combinando encanto, desconforto e curiosidade em proporções semelhantes.
Ética, distância e responsabilidade na fotografia de natureza
Uma dimensão nem sempre visível nestas imagens é a ética de trabalho no terreno. Em fotografia de vida selvagem, aproximar-se demasiado, usar iscos ou perturbar crias pode alterar comportamentos e aumentar riscos reais para os animais. Por isso, muitas candidaturas valorizam a transparência: contexto, método e respeito por áreas protegidas e períodos sensíveis, como a reprodução.
Também do lado do público há responsabilidade. Ver estas fotografias como “entretenimento” é fácil; mais difícil - e mais útil - é lê-las como documentos que mostram relações ecológicas, pressões humanas e limites biológicos. A diferença está menos no que a imagem mostra e mais na forma como escolhemos interpretá-la.
Olhar mais de perto: conceitos por trás das imagens
Várias ideias científicas sustentam discretamente estas fotografias. Compreendê-las acrescenta profundidade ao que a câmara regista.
Galhadas vs. cornos: O veado-sika de “Luta Sem Fim” tem galhadas, não cornos. As galhadas são estruturas ósseas que caem e voltam a crescer todos os anos, geralmente aumentando de tamanho até à velhice. Já os cornos, comuns em muitos antílopes, são permanentes e revestidos por queratina. O recrescimento anual permite ajustar “armas” à competição, mas também cria ramificações que podem prender-se perigosamente.
Leucismo e coloração rara: A lontra pálida de “Singularidade” apresenta leucismo, uma condição genética que reduz pigmentação na pele e no pêlo, mas não nos olhos. Não é o mesmo que albinismo e pode tornar o animal mais visível para predadores ou parceiros, alterando as probabilidades de sobrevivência.
Superbandos: Quando golfinhos-rotadores formam superbandos, por vezes com milhares de indivíduos, conseguem concentrar pequenos peixes e lulas em cardumes compactos, empurrando-os para a superfície, onde a captura se torna mais fácil. Estes ajuntamentos também funcionam como indicador indirecto de abundância de presas e da saúde do oceano; se os recursos diminuírem, bandos tão grandes podem tornar-se menos frequentes.
O que estas imagens podem inspirar no dia-a-dia
Para muita gente, a forma mais próxima de encontrar um lince ou um veado-sika será através de fotografias como estas - e essa distância não torna a reacção menos relevante. Curadores do Museu de História Natural referem frequentemente que muitos visitantes saem da exposição a perguntar o que podem fazer, de forma concreta.
Algumas opções realistas passam por apoiar associações locais de conservação, escolher turismo mais amigo da natureza ou simplesmente prestar mais atenção à vida selvagem urbana. Fotografar raposas, aves de jardim ou insectos num parque citadino pode replicar, à escala do quotidiano, a mesma paciência e curiosidade que alimenta a lista curta do Prémio Escolha do Público.
Há ainda uma dimensão de bem-estar: dedicar tempo a observar animais - ao vivo, através de uma objectiva ou num museu - pode reduzir stress e treinar a atenção. Da próxima vez que vir um veado sobrecarregado com a cabeça do inimigo ou um lince a lançar a presa ao ar, talvez não sinta apenas choque ou admiração. É possível que sinta também vontade de olhar com mais cuidado para as criaturas que vivem, discretamente, ao seu lado todos os dias.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário