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Investigadores surpreendidos: tubarões têm personalidade e muitos são medrosos.

Dois tubarões numa instalação subaquática com duas pessoas a registarem dados e equipamento de filmagem.

A investigação mais recente sugere algo inesperado: por trás dos dentes afiados, os tubarões escondem uma dose surpreendente de carácter.

Filmes, imagens chocantes e histórias de terror à beira-mar moldaram a forma como muita gente imagina estes animais. No entanto, estudos actuais apresentam um quadro bem mais matizado. Nem todos os tubarões reagem da mesma maneira: comportam-se de forma individual - alguns são ousados, outros cautelosos e há mesmo indivíduos mais medrosos. Estas diferenças podem ser descritas como traços de personalidade e ajudam a perceber por que razão é tão raro um tubarão atacar deliberadamente uma pessoa.

Como os tubarões passaram a ser vistos como monstros

Desde a estreia de O Tubarão (Jaws) no cinema, o medo de tubarões ganhou raízes profundas. Para muitas pessoas, o imaginário continua preso à figura do “assassino imprevisível” à espreita de humanos. Mas, no mar, a realidade é outra: em todo o mundo são registadas, em média, apenas algumas dezenas de ataques não provocados por ano, e a maioria não é fatal.

Ainda assim, basta um vulto por baixo da superfície para surgir pânico. Essa ansiedade intensa tem até nome: selacofobia. Quem sofre desta fobia pode sentir taquicardia, suor e pensamentos de fuga só de pensar em tubarões - e muitas vezes evita qualquer massa de água aberta, mesmo em locais onde não existem tubarões.

A ideia do “tubarão devorador de homens” pronto a atacar a qualquer momento simplesmente não corresponde ao que os dados científicos mostram.

Experiência na Austrália: tubarões e o teste de personalidade (tubarões Port Jackson)

Um grupo de investigadores australianos quis ir ao detalhe: existem padrões comportamentais consistentes nos tubarões que possam ser interpretados como “personalidade”? Para o testar, analisaram 17 juvenis de tubarão Port Jackson, uma espécie de menor porte que ocorre sobretudo nas águas australianas.

Teste 1: ousadia ou prudência num tanque seguro

Na primeira fase, os cientistas colocaram cada tubarão num abrigo protegido dentro de um tanque. Após um breve período de adaptação, abria-se uma porta deslizante e começava a contagem do tempo: quanto demorava cada indivíduo a sair da zona segura?

  • Alguns juvenis saíam quase de imediato e exploravam o tanque com curiosidade.
  • Outros hesitavam durante muito tempo, mantinham-se na sombra e mexiam-se pouco.
  • O procedimento foi repetido várias vezes para reduzir o efeito do acaso.

Conclusão: as diferenças mantiveram-se estáveis. Os indivíduos mais ousados na primeira tentativa continuaram a mostrar maior predisposição para o risco, enquanto os mais prudentes se mantiveram consistentemente reservados.

Teste 2: como é que os tubarões reagem ao stress?

Na segunda etapa, os investigadores introduziram deliberadamente uma situação de stress. Cada tubarão era retirado da água por pouco tempo - cerca de 1 minuto - e depois devolvido ao tanque. A ideia era simular uma ameaça, como um ataque de um animal maior ou ficar preso numa rede.

Logo a seguir, os cientistas avaliaram:

  • Que distância o tubarão nadava num curto intervalo;
  • Se parecia mais agitado ou mais calmo;
  • Se o padrão de movimento mudava em relação a uma situação sem stress.

Também aqui surgiram diferenças claras entre indivíduos, alinhadas com o que já se tinha observado no Teste 1. Os tubarões anteriormente classificados como ousados mostravam-se mais serenos e controlados, enquanto os mais hesitantes reagiam com maior agitação, movimentos bruscos e procura mais rápida de abrigo.

Os investigadores concluíram que cada tubarão exibe um perfil comportamental típico - comparável a “ousado”, “cauteloso” ou “mais sensível ao stress”.

Tubarões maiores tendem a ser mais ousados - mas isso não os torna automaticamente mais perigosos

Um dado particularmente interessante surgiu na análise: havia uma ligação entre tamanho corporal e comportamento. Em média, indivíduos maiores pareciam mais confiantes, abandonavam o abrigo com maior facilidade e reagiam ao stress de forma mais “fria”. Já os tubarões mais pequenos mostravam-se mais reservados e procuravam cobertura com maior rapidez.

Isto não significa, porém, que tubarões grandes sejam automaticamente mais agressivos. Neste contexto, “mais ousado” quer dizer sobretudo: menos tímido, mais disposto a correr riscos à procura de alimento e menos propenso a assustar-se com estímulos inesperados.

Em encontros com pessoas, isso pode ter dois efeitos:

  • Um tubarão habituado a aproximar-se pode chegar mais perto para “inspeccionar” o que está na água.
  • Ao mesmo tempo, um tubarão calmo tende a reagir com menos pânico caso um humano apareça de repente ou se mova de forma brusca.

Se acontece ou não uma mordida depende de muitos factores: a espécie, o comportamento de caça, as condições de visibilidade, reflexos de mordida por confusão com presas (como peixes) - e também estes traços de personalidade.

Porque a personalidade dos tubarões é relevante para a segurança das pessoas

Para a ciência, estes resultados abrem novas possibilidades. Se for possível perceber que espécies, em determinadas regiões, são mais curiosas e propensas ao risco, torna-se mais viável delimitar zonas de maior probabilidade de aproximação. Isso ajuda autoridades costeiras a aperfeiçoar sistemas de aviso sem demonizar ou eliminar populações inteiras.

No futuro, mapas e avaliações podem deixar de ser apenas “há tubarões / não há tubarões” e passar a integrar tipos comportamentais, por exemplo:

  • Áreas com muitas espécies mais esquivas, que tendem a evitar humanos;
  • Zonas com tubarões curiosos, com maior tendência a observar surfistas e nadadores;
  • Sectores com maior frequência de passagens de grandes predadores em busca de alimento.

Com essa informação, é possível planear melhor o uso das praias - por exemplo, com interdições temporárias em horas de maior actividade de caça ou com medidas de protecção em locais particularmente sensíveis.

Compreender a personalidade dos tubarões pode reduzir conflitos entre pessoas e animais sem recorrer a soluções extremas, como programas de abate.

Um ponto extra: tecnologia, marcação e alertas mais inteligentes

Além de observações comportamentais, a combinação com marcação por telemetria (acústica ou por satélite) permite relacionar trajectos com perfis individuais. Esse cruzamento de dados pode melhorar alertas em tempo quase real e apoiar decisões locais - como a colocação de barreiras não letais, ajustadas a corredores de passagem e épocas do ano.

O que este estudo revela sobre o nosso próprio medo

Saber que os tubarões têm traços individuais também altera a forma como olhamos para o medo. Muitas pessoas encaram o tema numa lógica simples de “perigoso” versus “inofensivo”. Mas o mundo natural raramente é assim tão binário.

É semelhante ao que acontece com cães: ninguém diria que todos os cães (ou todas as raças) se comportam de forma idêntica. Mesmo dentro da mesma raça, há um espectro que vai do tranquilo ao hiperactivo. Com tubarões, a diversidade existe - apenas fica escondida debaixo de água durante a maior parte do tempo.

Manter esta ideia em mente ajuda a gerir a ansiedade. Não significa entrar no mar sem cuidados. Significa, isso sim, que pânico ao ver qualquer barbatana não protege ninguém - nem pessoas nem tubarões.

Como agir no mar de forma sensata

Mesmo reconhecendo “personalidades”, permanece um facto: tubarões são grandes predadores e merecem respeito. Quem vai nadar ou surfar pode reduzir o risco com regras simples:

  • Evitar nadar ao amanhecer, ao entardecer ou de noite, períodos em que muitos tubarões caçam.
  • Não deitar restos de peixe, sangue ou isco na água, para não atrair presas e predadores.
  • Manter-se em grupo no mar e evitar ir sozinho para longe da costa.
  • Seguir as orientações de autoridades locais e nadadores-salvadores.
  • Evitar joalharia brilhante e roupa com contraste muito forte, que possa imitar reflexos de peixes.

Estas recomendações são úteis independentemente de o tubarão ser mais curioso, mais reservado ou mais sensível ao stress.

E se vir um tubarão?

Um comportamento adicional, muitas vezes esquecido, é a gestão do momento: manter a calma, evitar salpicos exagerados, sair da água de forma controlada e informar os nadadores-salvadores. Relatos consistentes e bem localizados também podem apoiar monitorização e investigação - especialmente quando integrados em programas locais de observação e ciência-cidadã.

O que significa “personalidade” nos animais, afinal?

À primeira vista, “personalidade” parece um termo demasiado humano. Na biologia do comportamento, significa sobretudo isto: ao longo do tempo, um animal apresenta padrões estáveis na forma como responde a determinadas situações - perigo, ambientes novos ou estímulos desconhecidos.

Isto já foi descrito em aves, peixes, lulas e até aranhas. A nova investigação com tubarões encaixa nessa linha e reforça que também aqui existem perfis repetidos - do mais atrevido ao mais cauteloso.

Para a protecção dos ecossistemas marinhos, este detalhe torna-se cada vez mais importante. Indivíduos com grande raio de deslocação transportam nutrientes e genes por distâncias enormes; animais mais esquivos podem permanecer em áreas de vida mais restritas. Conhecer estas diferenças ajuda a desenhar melhor áreas marinhas protegidas e a orientar de forma mais eficaz a gestão da pesca.

No fim, fica uma conclusão surpreendentemente simples: os tubarões não são monstros de cinema nem máquinas sem “alma” programadas para devorar. São animais selvagens complexos, com particularidades individuais. Encará-los com respeito, informação e regras claras aumenta a segurança no mar - e contribui para que estes antigos habitantes dos oceanos não desapareçam por causa do medo humano.

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