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Mercedes-Benz CLA 250+: o “truque” que o torna amigo das autoestradas

Mercedes-Benz CLA 250 Plus branco em destaque, com fundo dinâmico de luzes e velocidade no écran.

O Mercedes-Benz CLA 250+ enfrenta a autoestrada sem complexos graças a um pormenor técnico que, na prática, faz mesmo a diferença.


A minha primeira abordagem a este Mercedes-Benz CLA 250+ começou da pior forma possível: chuva a sério, uma boa molha antes de entrar e zero paciência para encontrar, à primeira, uma posição de condução verdadeiramente confortável. Para ser honesto, o desconforto era tanto meu como do momento.

A juntar a isso, o novo sistema operativo da marca de Estugarda - o MB.OS - decidiu complicar: nada de mapa de navegação no ecrã e o emparelhamento com o telemóvel teimava em falhar. Coisas de 2026…

Mesmo já sabendo o que se esconde sob o habitáculo (uma bateria de grandes dimensões) e que as proporções do CLA não fazem milagres pela habitabilidade, a sensação inicial foi a de um interior mais apertado do que eu antecipava. Em contrapartida, a postura em estrada - e aquilo que a carroçaria “baixa” sugere visualmente - acaba por ser parte do seu encanto (nas imagens percebe-se bem porquê).

Quando cheguei ao primeiro destino, a motivação não estava propriamente em alta. Ainda assim, havia um detalhe que não batia certo com o que eu esperava deste modelo.

O Diogo Teixeira já o tinha visto na fábrica de Sindelfingen e esteve na apresentação internacional, em Roma, no início da primavera. Em junho voltou a guiá-lo num primeiro contacto dinâmico e, tal como se percebe no vídeo, o saldo foi maioritariamente positivo.

Foi por isso que, antes da segunda deslocação, cheguei de propósito mais cedo ao carro. Queria explorar o habitáculo com calma, sem pressa por causa da chuva e sem a sensação de estar atrasado - e, sim, estar seco ajudou.

A partir daí, “fizemos as pazes”. E o CLA 250+ revelou-se um elétrico à altura do que se espera de um Mercedes-Benz: competitivo no segmento e, nalguns pontos, claramente no topo.

Mercedes-Benz CLA 250+ e MB.OS: feito para uma era 100% digital

O MB.OS continuava pouco cooperante, mas uma mudança simples desbloqueou quase tudo. Nas definições do sistema, e com apoio da aplicação da Mercedes-Benz, associei esta unidade à minha conta de utilizador, como se o carro fosse meu. Foi aí que o CLA pareceu finalmente “acordar”.

A partir desse momento, a navegação passou a surgir integrada no ecrã principal, o Apple CarPlay ficou praticamente imediato e, a cada entrada no carro, uma voz personalizada passou a dar-me as boas-vindas. É este tipo de detalhe que, muitas vezes, ajuda a justificar o rótulo “premium”.

Nem tudo é perfeito: o computador de bordo continua a obrigar a interagir com alguns comandos táteis no volante. A marca já tem resposta para isso - um novo volante com botões físicos está a caminho. Pode não ser tão “bonito” aos olhos de alguns, mas tende a ser muito mais prático no dia a dia.

Há ainda espaço para críticas noutros comandos, como os dos vidros elétricos, que seguem a abordagem da Volkswagen: dois botões e um seletor para alternar entre vidros dianteiros e traseiros.

Em contrapartida, gostei particularmente da solução para o botão de ligar/desligar o sistema elétrico (o equivalente à ignição num carro a combustão): está bem integrado na ponta da haste da caixa de velocidades. É simples, lógico e eficaz.

Quanto aos ecrãs (instrumentação e central tátil), a definição é elevada e a variedade de menus deixa de assustar ao fim de algum tempo - com a habituação, a navegação pelos separadores torna-se bem mais intuitiva.

Um ponto que vale a pena sublinhar - e que ajuda a explicar alguns consumos - é que a silhueta de coupé não é só estética: um perfil baixo e mais aerodinâmico tende a beneficiar a eficiência em estrada aberta, sobretudo quando a velocidade estabiliza.

No meio da “sanduíche” (coupé por fora, berlina no tamanho)

O Mercedes-Benz CLA 250+ mantém o perfil baixo que se exige a um coupé, mas aposta em dimensões que já lembram uma berlina familiar: é comprido e largo. Não entrega o espaço vertical de um SUV - e também não é isso que promete.

Na prática, quem mede 1,85 m (ou mais, como é o meu caso) vai desejar mais uns centímetros de folga entre a cabeça e o tejadilho.

No meu caso, a solução passou por baixar ligeiramente o encosto e compensar com novo ajuste longitudinal do banco e da coluna de direção, para recuperar espaço sem sacrificar a ergonomia.

Atrás, a história é mais linear: as cotas são boas em quase tudo, menos na altura. Para ocupantes mais altos, pode ser um incómodo real; para quem não tem esse problema, é facilmente um “não-tema”.

Para bagagem, há 405 litros na mala traseira (também ela condicionada em altura) e 101 litros na frente, na frunk. Ainda assim, como a abertura frontal não serve para aceder a um motor de combustão mas sim a um compartimento de carga, o sistema de abertura/fecho podia ser mais simples e confortável de utilizar.

CLA 250+ é a escolha racional

Dentro da gama, a versão 250+ é, sem grande discussão, a proposta mais racional. Fica a meio das três opções disponíveis e combina a bateria maior (85 kWh) com um único motor elétrico de 200 kW (272 cv), instalado no eixo traseiro.

Em números oficiais, a velocidade máxima é limitada eletronicamente a 210 km/h e a aceleração 0–100 km/h é feita em 6,7 s - embora, ao volante, a sensação seja de que acontece ainda mais depressa.

Há, porém, um detalhe que separa este CLA da maioria dos elétricos: uma transmissão de duas velocidades, tal como no Audi e-tron GT ou no Porsche Taycan. Já lá vamos, mas fica a nota: este é o tal “truque” que se sente nos consumos. O Mercedes-Benz CLA 250+ é, sem exagero, um dos elétricos mais eficientes que já passaram pelos ensaios da Razão Automóvel.

A primeira relação é usada sobretudo em ambiente urbano; a segunda está pensada para baixar consumos a velocidades de autoestrada, onde os elétricos tendem a sofrer mais (velocidade alta, menos momentos de regeneração e mais esforço aerodinâmico).

Se ainda está a pensar que “elétricos não servem para viajar”, convém recordar os números anunciados pela marca: até 790 km em percurso misto e até 920 km em ciclo urbano.

Na vida real, não é exatamente assim - mas também não anda longe. E há ainda o argumento dos carregamentos: potência máxima (DC) de 320 kW.

Um ponto adicional que vale a pena considerar em viagens é a logística: quando o sistema está a funcionar como deve ser (e aqui o MB.OS tem um papel central), torna-se mais fácil planear paragens e gerir o tempo total de deslocação. Em modelos com carregamento rápido, muitas vezes o segredo não é “carregar muito”, é “carregar bem”.

Eficiência e desempenho no mesmo pacote

Ao longo do ensaio, registei 14,5 kWh/100 km de média num percurso misto. É acima dos valores anunciados: 12,2 kWh/100 km para a versão com jantes de 17” e 13,2 kWh/100 km para a configuração com jantes de 19” (como a unidade testada).

A responsabilidade por esta diferença é partilhada. Por um lado, a competência dinâmica do Mercedes-Benz CLA 250+ convida a andar mais depressa do que seria “ideal” para bater recordes de consumo: a direção é rigorosa e a suspensão entrega estabilidade tanto em autoestrada como em estradas mais sinuosas.

Por outro lado, há os sons sintetizados - aqueles “ruídos” artificiais que muitas marcas colocam em elétricos e que, regra geral, prefiro evitar. No CLA, pela primeira vez, encontrei um que até me agradou. O modo “Roaring Pulse” é difícil de descrever.

Na minha cabeça, parece uma mistura de dragão constipado a gargarejar ao acordar com um rugido de leão. É falso, claro, mas tem personalidade suficiente para ser divertido (e transmitir uma sensação de força) ao ponto de eu não o querer desligar.

Números que já obrigam a fazer contas

O preço base do Mercedes-Benz CLA 250+ ensaiado é de 55 500 euros, e já com bastante equipamento de série. Não falta, por exemplo, teto panorâmico nem a câmara para selfies integrada no tabliê. Ainda assim, com jantes de 17” e sem alguns elementos mais marcantes, o CLA pode parecer um pouco “nu” visualmente.

Para lhe dar o impacto que muitos esperam deste modelo, é quase inevitável entrar no mundo das opções: sigla AMG, sistema Burmester, vários extras digitais, diversos packs e múltiplas configurações cujo nome acaba em “plus”. O resultado - como aconteceu com a unidade ensaiada - pode chegar aos 68 600 euros. E, a esse nível, a palavra que me vem à cabeça é “absurdo”.

Posso ter arrancado este ensaio “com o pé esquerdo”, mas sendo o CLA 250+ elétrico também não preciso dele assim tantas vezes. E quando chegou a hora de devolver a chave, admito que custou um pouco. Em troca, fiquei com enorme curiosidade para conhecer a futura CLA Shooting Brake.

Veredito

O Mercedes-Benz CLA 250+ destaca-se por juntar eficiência muito acima da média a uma condução competente e a uma experiência digital que, quando bem configurada, eleva a sensação de produto premium. A transmissão de duas velocidades é a peça-chave que ajuda a explicar a serenidade em autoestrada - e os consumos.

O “senão” maior está no preço quando se entra no território dos extras: é fácil transformar um valor já elevado num número difícil de justificar.

Especificações técnicas

Item Dados
Versão Mercedes-Benz CLA 250+
Motorização 1 motor elétrico (eixo traseiro)
Potência 200 kW (272 cv)
Bateria 85 kWh
Transmissão 2 velocidades
0–100 km/h 6,7 s
Velocidade máxima 210 km/h (limitada)
Autonomia anunciada (misto) até 790 km
Autonomia anunciada (urbano) até 920 km
Carregamento DC (máx.) 320 kW
Bagageira traseira 405 l
Frunk 101 l
Consumo registado no ensaio 14,5 kWh/100 km
Consumo anunciado (jantes 17”) 12,2 kWh/100 km
Consumo anunciado (jantes 19”) 13,2 kWh/100 km
Preço base (unidade ensaiada) 55 500 €
Preço final (exemplo da unidade ensaiada) 68 600 €

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