Nos últimos tempos, os TVDE passaram de curiosidade a hábito diário. Em Portugal, já se realizam mais de 500 mil viagens TVDE por dia - um volume que evidencia bem o quanto muitos portugueses passaram a depender destas plataformas para se deslocarem.
Apesar de a adesão aos TVDE estar no auge, a satisfação do público nem sempre acompanha esse crescimento. Se outrora estes serviços eram frequentemente associados a viaturas recentes e bem cuidadas, hoje surgem com regularidade queixas ligadas a sensação de insegurança, automóveis com manutenção deficiente ou, em certos momentos, à simples dificuldade em conseguir confirmar uma viagem.
Foi precisamente para perceber o que está a falhar nos TVDE - e o que deveria mudar - que este tema esteve em destaque no Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do PiscaPisca.pt. O episódio contou com dois nomes centrais do setor: Mário de Morais, responsável da Bolt em Portugal, e Ivo Miguel Fernandes, Presidente da APTAD (Associação Portuguesa de Transportadores em Automóveis Descaracterizados).
TVDE em Portugal: retrato do setor e dos seus desafios
Para enquadrar o debate, é essencial olhar para os números atuais do setor TVDE no nosso país. Em maio de 2025, estavam ativos 38 339 condutores TVDE, sendo que apenas 51,3% tinham nacionalidade portuguesa. Entre os restantes, destacam-se sobretudo profissionais oriundos do Brasil (20,1%) e da Índia (11,8%). Em termos de género, a realidade é muito desequilibrada: 90,4% dos condutores são homens.
Do lado das viaturas, encontram-se registados em Portugal 34 475 automóveis afetos a plataformas TVDE. Destes, 63,5% continuam equipados com motor de combustão e 35% já ultrapassaram os cinco anos de idade.
Estes dados mostram um setor de grande escala, diverso e, acima de tudo, com pontos de fricção difíceis de ignorar. Há reclamações para todos os perfis: carros em mau estado de limpeza, condutores que não coincidem com a fotografia na aplicação, lacunas ao nível da formação e recusas frequentes de deslocações curtas, entre outras situações.
A somar a isto, as críticas públicas têm sido duras. Ainda há pouco tempo, no Auto Rádio, Carlos Barbosa, presidente do ACP, classificou os TVDE como “uma bandalheira”, referindo níveis de segurança “em mínimos históricos” e apontando também para formação insuficiente dos motoristas.
Perante este cenário, a conversa centrou-se nas causas de fundo: existe abuso por parte de alguns motoristas? Falta fiscalização efetiva? Ou o problema maior estará numa regulamentação que já não acompanha a realidade dos TVDE em 2025?
Um ponto frequentemente associado à confiança do passageiro prende-se com o controlo de identidade e a verificação contínua de requisitos. Em mercados onde se reforça a validação do condutor (por exemplo, com verificações aleatórias na aplicação e mecanismos adicionais de confirmação), tende a reduzir-se o risco de discrepâncias entre o perfil e a pessoa que surge para a viagem - uma das queixas mais repetidas por utilizadores.
Outro tema incontornável é a qualidade e renovação da frota. Com uma percentagem relevante de viaturas já acima dos cinco anos e uma maioria ainda a combustão, ganha peso a discussão sobre critérios mínimos de manutenção, incentivos à substituição por automóveis mais recentes e o papel da eletrificação. Para além do conforto e da segurança, a evolução do tipo de viaturas usadas tem impacto direto nos custos de operação e na perceção de qualidade do serviço.
APTAD propõe revisão profunda da lei
Para responder aos principais constrangimentos que o setor enfrenta, a APTAD defende uma revisão estrutural da lei dos TVDE em Portugal, que permanece sem alterações desde 2018.
Entre as medidas destacadas pela associação encontram-se a criação de uma tarifa mínima, a definição de limites de disponibilidade, a imposição de uma comissão máxima para as plataformas e, ainda, a implementação de um registo digital e centralizado dos tempos de trabalho de cada condutor.
A lógica apresentada é clara: a procura, por si só, não é o maior entrave; o verdadeiro problema está nos preços praticados e na taxa de ocupação. Foi exatamente esta perspetiva que Ivo Miguel Fernandes sustentou no Auto Rádio, num episódio em que, juntamente com Mário de Morais, também se discutiram cenários e caminhos possíveis para o futuro do setor em Portugal.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Razões não faltam para ver/ouvir o episódio mais recente do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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