Carlos Tavares, antigo diretor-executivo da Stellantis, voltou a agitar o debate em torno da indústria automóvel europeia. Na conferência Millennium Portugal Exportador, realizada esta terça-feira no Europarque, em Santa Maria da Feira, o gestor português apontou o dedo às políticas europeias para o setor, defendendo que a União Europeia (UE) falhou ao escolher uma tecnologia em vez de estabelecer metas.
Na sua perspetiva, a prioridade deveria ter sido reduzir de forma significativa as emissões, mas através de regras que não favorecessem uma solução técnica específica. Tavares sustentou que, em vez de impor uma tecnologia, a UE deveria ter avançado com uma regulamentação neutra em tecnologia, permitindo que centenas de milhares de engenheiros do setor encontrassem a opção mais acessível, mais limpa e mais segura.
A regulamentação “neutra em tecnologia” e o espaço aberto aos construtores chineses
Segundo Tavares, a opção europeia não só travou a capacidade de inovação na Europa como também criou uma janela de oportunidade para os construtores chineses, que acumulam mais de 20 anos de experiência neste domínio. O gestor descreveu esta abordagem como um caso de arrogância intelectual com um custo elevado e argumentou que, num período particularmente caótico para a indústria, a Europa acabou por facilitar a entrada da China - quase como se estivesse a oferecer a indústria automóvel europeia aos chineses.
Uma política neutra em tecnologia, como defendeu, tenderia a focar-se em resultados (como limites de emissões) e não em meios, abrindo espaço para várias vias de descarbonização competirem em igualdade: diferentes arquiteturas de motorização, melhorias de eficiência, evolução de cadeias de abastecimento e soluções energéticas complementares. Na leitura de Tavares, a competitividade dependerá de permitir que o mercado e a engenharia escolham, sob regras claras, a combinação mais viável e segura.
Quota de mercado: 10% em cinco anos e o equivalente a “dez fábricas”
Tavares deixou também um aviso concreto sobre o impacto no mercado. Com a aproximação dos construtores chineses, considerou que estes conseguirão atingir rapidamente 10% da quota de mercado, algo que, no seu entendimento, deverá acontecer nos próximos cinco anos.
Para enquadrar o que isto significa em termos industriais, detalhou que, num mercado europeu de 15 milhões de veículos, 10% corresponde a cerca de 1,5 milhões de carros - o que equivaleria a “dez fábricas de 150 mil veículos por ano”.
Carlos Tavares avisa para “pneus a queimar e paletes a arder”
Na visão do antigo líder da Stellantis, a perda de peso industrial poderá traduzir-se numa reação social e política intensa. Antecipou um cenário com manifestações, “pneus a queimar e paletes a arder”, e descreveu a possibilidade de surgir um investidor chinês disposto a comprar fábricas por um valor simbólico, ficando com os empregos. Para Tavares, a consequência seria clara: a Europa acabaria por entregar a sua indústria automóvel aos chineses.
Este tipo de pressão, além de afetar os fabricantes, tende a propagar-se por toda a cadeia: fornecedores, logística, engenharia, manutenção e serviços associados. Quando a produção se desloca, não é apenas o produto final que muda de origem - a rede de empresas que vive do setor também fica exposta, tornando ainda mais difícil preservar emprego qualificado e capacidade tecnológica dentro da UE.
Trabalhar melhor para manter o nível de vida e manter a Europa “na corrida”
Perante o quadro que traçou, Tavares defendeu que a resposta tem de ser mais ampla e acompanhada de um esforço de consciencialização. Na sua opinião, não basta prometer proteção sustentada pela riqueza criada; é necessário dizer às populações europeias que, para salvaguardar o nível de vida atual, a Europa tem de estar “na corrida”.
O gestor admitiu que esse objetivo implica “trabalhar mais”, mas acrescentou que, como “provavelmente as nossas populações não vão aceitar trabalhar mais”, a alternativa realista passa por trabalhar “melhor”.
Portugal e uma estratégia a 20 anos construída por consenso
Sobre Portugal, Tavares argumentou que o país precisa de uma visão de longo prazo. Colocou a questão em termos diretos: se a Europa começar a entrar em declínio, não faz sentido que Portugal vá a reboque de uma Europa em declínio.
Para o gestor, Portugal tem de conseguir transformar o país “pelo centro”, assente numa estratégia a 20 anos que seja construída pelos partidos e sustentada no tempo, independentemente de ciclos políticos.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário