A sucessão de fraudes nos exames de condução em Portugal deixou de ser um episódio ocasional para assumir contornos de falha sistémica. O aviso parte da ANIECA, entidade que representa mais de 730 escolas de condução, e descreve um nível de “sofisticação crescente” tanto na prova teórica como na prova prática. O ponto central do alerta é grave: há candidatos a alcançar a carta de condução sem uma avaliação efetiva das competências.
Como se concretizam as fraudes na prova teórica e na prova prática (ANIECA)
Nas últimas semanas e meses, os relatos comunicados às autoridades tornaram-se mais frequentes. Os esquemas apontados incluem:
- dispositivos eletrónicos ocultos no corpo ou na roupa;
- contacto com apoio externo durante o exame, através de comunicações discretas;
- auriculares camuflados e difíceis de detetar;
- câmaras miniaturizadas para transmissão de imagem;
- utilização de “duplos” que se apresentam como sendo o candidato, recorrendo ao seu documento de identificação e à Licença de Aprendizagem.
Porque é que a fraude não é “apenas” um truque: Licença de Aprendizagem e ausência de avaliação real
De acordo com a ANIECA, o impacto vai muito além da irregularidade administrativa. A fraude permite que pessoas sem o nível mínimo de conhecimentos - havendo casos de candidatos que não conseguem ler nem escrever - mantenham válida a Licença de Aprendizagem e avancem para a fase de condução. Com circunstâncias favoráveis, podem mesmo terminar o processo com aprovação no exame final.
O resultado, na prática, é a entrada na estrada de condutores sem uma confirmação credível de aptidão. Para a associação, este cenário é “inaceitável” por representar um risco direto para todos os utilizadores da via pública.
Centros de exame sem margem de atuação: videovigilância e inibidores de sinal bloqueados
Apesar de existir tecnologia capaz de reduzir uma parte relevante das tentativas de burla, os centros de exame continuam limitados na sua capacidade de resposta. A ANIECA refere ter instalado, em algumas salas, câmaras de videovigilância e inibidores de sinal, com o objetivo exclusivo de identificação de fraude.
No entanto, estas medidas têm sido travadas de forma recorrente por entidades como a ANACOM e a Comissão Nacional de Proteção de Dados, deixando - na perspetiva das escolas - o sistema “sem ferramentas eficazes” para prevenir ou detetar infrações no momento do exame.
Mudanças legislativas pedidas: RGPD, Lei das Comunicações Eletrónicas e sanções
A associação defende a adoção urgente de alterações legais que reforcem a dissuasão e permitam uma fiscalização compatível com o problema. Entre as medidas propostas, destacam-se:
- suspensão obrigatória do processo formativo por dois a três anos para qualquer candidato apanhado a tentar fraudar o exame de condução;
- revisão de normas relacionadas com o RGPD e com a Lei das Comunicações Eletrónicas, de modo a viabilizar uma monitorização adequada das provas.
A ANIECA recorda ainda que a monitorização das provas práticas, apesar de estar prevista na lei há mais de uma década, permanece sem aplicação efetiva, sem que exista uma explicação satisfatória para o atraso.
Reafirmamos a nossa inteira disponibilidade para colaborar com o Governo, IMT, forças de fiscalização e restantes entidades na criação e implementação imediata de soluções que funcionem.
António Reis, presidente da ANIECA
O padrão mais frequente na prova prática: o “duplo” conduz e o candidato aparece no fim
No terreno, a fraude na prova prática é descrita como cada vez mais recorrente e, quase sempre, assenta num procedimento repetido: um “duplo” apresenta-se para o exame, realiza a condução, obtém aprovação e desaparece. O candidato verdadeiro só surge mais tarde, no momento de levantar o título.
Medidas complementares que podem reduzir o risco (IMT e fiscalização)
Para além da discussão legislativa, há práticas operacionais que podem reforçar a robustez do processo sem alterar o objetivo das provas. Por exemplo, a validação reforçada de identidade antes e durante o exame (incluindo verificações aleatórias), auditorias regulares aos centros de exame e a uniformização de procedimentos entre entidades podem reduzir oportunidades de burla.
Outra via passa por melhorar a deteção precoce: formação adicional para examinadores e equipas administrativas na identificação de comportamentos suspeitos, bem como mecanismos de denúncia mais simples e protegidos para escolas e profissionais que reportem tentativas de fraude.
Segurança rodoviária em causa: “toneladas de metal” a alta velocidade
António Reis, presidente da ANIECA, sublinha que normalizar estas práticas equivale a aceitar a circulação de pessoas sem avaliação adequada. Como alerta, permitir este tipo de aprovação significa colocar nas estradas condutores a operar “toneladas de metal” a velocidades elevadas - um risco que considera inaceitável para a segurança coletiva.
A ANIECA reafirma, por isso, disponibilidade para trabalhar com o Governo, o IMT e as forças de fiscalização na definição de respostas que sejam aplicadas sem demora.
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