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“Os chineses vão engolir-nos um dia” alerta Carlos Tavares

Carro elétrico desportivo vermelho Dragon 2035 numa exposição moderna com vista urbana.

Depois de colocar no mercado o seu livro mais recente - Um Piloto no Coração da Tempestade -, Carlos Tavares, antigo diretor executivo da Stellantis e figura central na criação do grupo, voltou a ganhar destaque pelas leituras que tem feito sobre o rumo da indústria automóvel.

Numa entrevista recente ao jornal britânico Tempos Financeiros, o gestor português deixou novas declarações que muitos interpretarão como provocatórias - ou, pelo contrário, como um aviso antecipado. Na visão de Tavares, dentro de dez anos os fabricantes chineses poderão passar a ser encarados como os “salvadores” da indústria automóvel europeia.

“Estão a abrir-se muitas oportunidades interessantes para os chineses”, defendeu. E descreveu um cenário concreto: no momento em que um construtor ocidental estiver em apuros, com unidades fabris perto de fechar e protestos nas ruas, um grupo chinês poderá avançar com uma solução simples - “eu fico com isto e preservo os postos de trabalho” - acabando, por isso, por ser visto como um salvador.

Esta leitura não surge isolada. Já na semana anterior, Tavares tinha apontado hipóteses semelhantes para o futuro da Stellantis: entre os muitos cenários possíveis, admitiu que um fabricante chinês possa vir a apresentar uma proposta pelas operações europeias, enquanto os norte-americanos retomariam o controlo do negócio na América do Norte.

Ainda sobre o grupo, Tavares recordou que a Stellantis foi “construída de forma estrategicamente perfeita para a globalização”, mas sublinhou que, a partir de agora, cabe ao Conselho de Administração decidir se essa orientação continua a fazer sentido no contexto atual.

Stellantis, Leapmotor e os fabricantes chineses

Durante a sua liderança na Stellantis, Carlos Tavares também aproximou o grupo da China. Em 2023, a empresa adquiriu 20% da Leapmotor e avançou com uma empresa conjunta com o construtor, a Leapmotor Internacional. Esta estrutura é participada em 51% pela Stellantis e atribui ao grupo direitos exclusivos para exportar, comercializar e produzir os modelos da Leapmotor fora da China.

Tavares explicou agora, sem rodeios, a lógica por detrás desta decisão: “Eles querem engolir-nos um dia”. A pressão competitiva já se reflete nos números: em setembro, os automóveis chineses tinham alcançado 7,4% de quota de mercado na Europa, um máximo histórico que, segundo o próprio, tende a ser ultrapassado nos próximos tempos.

O gestor acrescentou ainda que várias empresas chinesas o têm contactado com propostas para gerir ou assessorar os seus negócios.

Um fator adicional a moldar este avanço é a forma como a Europa reage ao aumento de importações. Entre debates sobre tarifas, incentivos e requisitos de produção local, cresce a probabilidade de mais marcas chinesas acelerarem a instalação de operações no continente - não apenas para vender, mas para fabricar, criar emprego e ganhar legitimidade junto de governos e consumidores.

Também a cadeia de valor das baterias e das matérias-primas entra nesta equação. A capacidade de garantir fornecimentos, reduzir custos e montar ecossistemas industriais (incluindo reciclagem e reaproveitamento) pode tornar-se decisiva para determinar quem lidera a transição - e para definir até que ponto a indústria automóvel europeia dependerá de tecnologia e componentes vindos do exterior.

Metas de emissões da União Europeia e a proibição de motores de combustão interna até 2035

Na mesma entrevista aos Tempos Financeiros, Tavares comentou igualmente as metas de emissões impostas pela União Europeia.

Segundo a sua avaliação, a sua insistência em cumprir esses objetivos - pressionando a eletrificação de todas as marcas do grupo - terá contado como um dos elementos que acabaram por contribuir para a sua saída. E não poupou críticas ao que considera ser desperdício e “estupidez” caso a União Europeia recua na proibição de motores de combustão interna até 2035.

“Quem é que vai responsabilizar a União Europeia pelos 100 mil milhões de euros de investimentos que ficarão sem utilização? Ninguém”, atirou.

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