Os resultados apresentados pelo DOGE levantam muitas dúvidas. Ainda assim, as decisões tomadas por este organismo tendem a deixar marcas negativas nos Estados Unidos e, por arrastamento, noutras regiões do mundo - sobretudo no longo prazo.
Em Janeiro, Donald Trump assinou uma ordem executiva que oficializou o arranque do Departamento da Eficiência Governamental (DOGE), liderado por Elon Musk e concebido para funcionar durante pouco mais de dois anos. O homem mais rico do mundo reuniu então uma equipa jovem - incluindo vários colaboradores provenientes das suas próprias empresas - com a missão declarada de perseguir fraudes e alegados desperdícios de dinheiro público.
No entanto, onze meses depois, o governo norte-americano dissolveu oficialmente o organismo e Elon Musk abandonou o cargo. O balanço atribuído ao DOGE revela-se magro e, pior, as medidas impulsionadas pela equipa parecem ter aberto caminho a danos duradouros, dentro e fora dos EUA. Seguem-se as principais razões.
DOGE: uma “eficiência” difícil de comprovar
Em teoria, o DOGE afirma ter ajudado o governo federal a poupar uma soma muito significativa. O valor oficialmente divulgado foi de 214 mil milhões de dólares (185 mil milhões de euros). Ainda assim, como salientou o jornal Le Monde em Junho, este total é contestável: “Números impossíveis de verificar, frequentemente inflacionados, dados desactualizados: o balanço, amplamente embelezado, mal consegue esconder uma caça aos custos de impulso sobretudo ideológico e uma eficiência mais de fachada.”
A forma como o DOGE operou também gerou críticas constantes. De acordo com várias investigações de meios de comunicação norte-americanos, elementos próximos de Elon Musk terão acedido a bases de dados federais com informação pessoal altamente sensível de milhões de cidadãos. Para alguns observadores, isto configurava falhas graves de segurança, com dados potencialmente expostos a risco de roubo ou abuso.
Acresce que esta controvérsia não se limita ao impacto imediato. A médio prazo, a simples percepção de fragilidade na protecção de dados pode reduzir a confiança dos cidadãos em serviços públicos digitais, dificultar a modernização tecnológica do Estado e aumentar custos futuros com auditorias, litígios e reforço de segurança - precisamente o oposto do objectivo de “eficiência” proclamado.
Encerramento da USAID e o impacto humano global
Entre as decisões com efeitos mais dramáticos está o encerramento abrupto da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que financiava ajuda humanitária e resposta a catástrofes.
Segundo modelos desenvolvidos pela epidemiologista Brooke Nichols, da Universidade de Boston, e divulgados pela School of Public Health da Universidade de Harvard, esta extinção “já causou a morte de seiscentas mil pessoas, das quais dois terços são crianças”. Especialistas alertam ainda que o número poderá continuar a crescer - e, ao mesmo tempo, permanecer pouco visível - porque “as pessoas morrem por falta de tratamentos ou de doenças evitáveis pela vacinação, e porque as mortes estão dispersas.”
Há também um efeito geopolítico a considerar: quando um grande doador abandona de forma súbita programas de saúde, vacinação e emergência, abre-se espaço para rupturas nas cadeias de fornecimento de medicamentos, atrasos na contenção de surtos e maior instabilidade em zonas vulneráveis. Mesmo países fora do foco mediático podem sentir consequências indirectas, seja por migrações forçadas, seja pela propagação de doenças evitáveis.
Cortes internos e custos que podem explodir mais tarde
As reduções agressivas conduzidas sob a orientação de Elon Musk e da sua equipa tiveram igualmente efeitos imediatos dentro dos Estados Unidos. Um exemplo concreto, noticiado em Abril, foi o caso de Derek Copeland, um trabalhador despedido que desempenhava funções de treinador no Centro Nacional de Formação em Detecção Canina do ministério. O seu trabalho consistia em preparar cães para detectar plantas e animais invasores ou vectores de zoonoses.
Antes de ter sido afastado de forma brusca, Copeland tinha passado vários meses a treinar o único cão na Florida preparado para identificar o caracol terrestre gigante africano - um molusco altamente invasor, com potencial para causar danos graves à agricultura desse Estado.
Como Copeland, muitos dos profissionais dispensados carregam conhecimento prático raro e difícil de substituir. Trata-se de pessoas com qualificações do ensino superior e experiência orientada para a protecção de cadeias de abastecimento agroalimentares críticas para o país. Por isso, os efeitos de longo prazo são difíceis de quantificar, mas apontam para riscos reais: pragas mais difíceis de conter, respostas mais lentas a ameaças sanitárias e custos muito superiores no futuro para reparar aquilo que hoje foi “poupado”.
Por fim, existe um factor muitas vezes subestimado: quando se perde capital humano especializado e memória institucional, a capacidade do Estado para planear, fiscalizar contratos e garantir continuidade operacional diminui. Mesmo que certas rubricas orçamentais encolham no curto prazo, o preço pode ressurgir mais tarde sob a forma de falhas de controlo, interrupções de serviços e maior vulnerabilidade a crises evitáveis.
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